Category Archives: Literatura e Ciência

Literatura e Ciência (31): Manuel Rivas e o Astronauta que alcatroou uma estrada galega

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O escritor e jornalista galego Manuel Rivas publica, no livro “As vocês baixas” (2012), um magnífico conjunto de histórias que atravessa as suas memórias de infância. Uma delas, cruza a chegada do homem à lua com o ‘astronauta’ que alcatroou um caminho na aldeia de Elviña. Aqui fica essa narrativa:

«O camiño a Elviña era de terra, polo menos até que o home chegou á Lúa, pois xusto foi asfaltado en vésperas da aterraxe do Apolo 11 no verán de 1969. Falábase moito de astronautas e o operario da pistola de alcatrán, que se desprezaba por Castro com pasos foltantes sobre a grava cun escafandro branco, tiña un aire de misión espacial da NASA. Até que quitou o casco do escafandro. Ía moita calor, multiplicada pola exhalación do chapapote. Tiña na cara o brillo xelationoso dunha medusa. Alguén correu a ofrecerlle un xerro com auga. Tardou en falar, co respirar arfante e as palabras derretidas nos beizos. O noso astronauta explicou, por fin, que o enviaba a Deputación. E que o traballo, para o que era, non estaba bem pago.»

Publicado por Sílvio Mendes

 

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Literatura e Ciência (30): Manuel António Pina e a incrível aventura de i (o “número imaginário com muita imaginação”)

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Imaginemos um reino da desmatemática concebido pela sensibilidade de Manuel António Pina (1943-2012). Entram problemas de somar, de subtrair, de dividir e de multiplicar. Entram divisores lentos, um zero que queria fugir para o alfabeto, um -1 narcisista, o Pi e o próprio i. Quem reina é o poder da imaginação, num livro de brincar (“Pequeno livro de desmatemática”, Assírio & Alvim, 5ª edição, 2012) que faz um grande serviço ao fascínio pela matemática. Isto porque “brincar é uma coisa muito séria”, como escreveu Pina no próprio livro. Mais concretamente: “Eu gosto de palavras. E de matemática também. Por isso brinco com elas. Brincar é uma coisa muito séria: quem quereria brincar com gente ou com coisas de que não gosta?”

Fiquemos então com este rebuçado: A história do i.

A história do i

O i, número imaginário
com muita imaginação,
imaginara o cenário
para um filme de ficção.

A história começava
dentro de uma equação
de segundo grau, e o vilão
era uma raiz quadrada.

da fórmula resolvente
que assaltava à mão armada
um pobre x que passava,
roubando-lhe o expoente.

O herói, um matemático,
perseguia-a tenazmente
de equação em equação
até uma de quinto grau.

Aí, a raiz quadrada,
finalmente encurralada,
sem fórmula de esconder-se,
acabava por render-se.

A ideia era excelente,
o final um teorema.
Ficariam certamente
na História do Equacinema.

Mas o público queria
filmes de geometria,
ângulos obtusos, tangências,
estúpidas circunferências…

Por isso o i nunca mais
Se deu a fazer ficção.
Cedeu: «Não gasto imaginação
com números irracionais!»

Manuel António Pina, in “Pequeno livro de desmatemática”

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (29): Cesário Verde e o ponto de vista «da verdade, da ciência»


Cesário Verde (1855-1886) deixou um legado poético incontornável para a literatura portuguesa, mesmo tendo-nos sido roubado pela tuberculose aos 31 anos. Para além da sua obra, o seu pensamento chega-nos através de alguns dos seus escritos mais íntimos, retirados correspondência particular que manteve com os seus amigos, sobretudo com Silva Pinto. É um excerto de um desses documentos que hoje partilhamos aqui. Primeiro, com considerações sobre a ciência e a verdade. Depois, com a forma como planeava documentar-se sobre a sua própria doença.

«Portugal precisa de propaganda científica, e tu pelo estilo, pelo estudo, pelo carácter podias, devias aproveitar esta quadra para uma explosão de panfletário; mas sempre com o ponto de vista da verdade, da ciência e fugindo da política de cocher que se desvanece logo e não chega a distância.

(…)

Esta semana tenho estado doente bastante, do estômago, da cabeça, de tudo, sempre agoniado e enevoado. Aquele artigo do Teófilo sobre o Camilo que fala em disciplina mental faz-me pensar no que eu devo seguir; agora há uns poucos de dias que não leio. Estou à espera que saia a última edição dicionário de medicina do Littré para me estudar. Que te parece? Achas extravagante?»

Carta de Cesário Verde a Silva Pinto, 1877, in ”Cânticos do Realismo e outros poemas – 32 cartas” (Relógio d’Água, 2006)

 Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (28): João Paiva mistura poesia com química


O centenário da Sociedade Portuguesa de Química foi a alavanca perfeita para a publicação do livro quase poesia quase química (2012) disponível gratuitamente em versão digital . O autor, João Paiva, docente na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, oferece 33 poemas que fundem o seu gosto pela escrita e pela divulgação de ciência. Densidade, que aqui publicamos, é um deles.

«Densidade

Quando me
centro em mim,
cresce a minha densidade.
Mais massa
no mesmo volume
das minhas possibilidades.
Cheio,
deixo de flutuar.»

Numa entrevista publicada no site Ciência 2.0., João Paiva explica os porquês deste livro:

«Tenho um certo gosto pela poesia já prévio à ciência. É muito curioso. A poesia sobre ciência começou com uma brincadeira, quando fiz algumas adivinhas para os alunos. Depois achei que poderia fazer alguns exercícios mais elaborados de misturar a poesia com a química e há aí algum sentido de sedução pela química, a pretexto da poesia e há alguma sedução também pela poesia e pelo gosto do jogo de palavras, pela comunicação e pela semântica. Tenho feito algumas sessões em escolas e com outros públicos com esses poemas que têm a sua graça e ainda estou a avaliar essa experiência. Tem sido engraçado e interessante. E a poesia pode ser uma das muitas formas de comunicar ciência. Não há qualquer dúvida sobre isso.»

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (27): Saramago, a memória, o cérebro e os computadores


Em semana de entrega de Prémios Nobel, a rubrica Literatura e Ciência dá pela primeira vez a voz a José Saramago (Prémio Nobel da Literatura, 1998, faz hoje exactamente hoje 14 anos). O excerto é retirado do livro História do Cerco de Lisboa (1989) e aponta uma reflexão (bem humorada) sobre os limites da memória e da crescente informatização do conhecimento.

«Hoje as pessoas não têm vagar nem paciência para fixar na cabeça pormenores e miudezas históricas, isso estaria bem para os contemporâneos do nosso rei D. Afonso o Primeiro, que tinham, obviamente, muito menos história para aprender, uma diferença de oito séculos a favor deles não é brincadeira nenhuma, a nós o que nos vale são os computadores, metemos lá para dentro tudo quanto seja enciclopédia e dicionário, e pronto, dispensamo-nos de ter memória própria, mas este modo de entender as coisas, digamo-lo primeiro que alguém no-lo diga, é absolutamente e condenatoriamente reaccionário, pois as bibliotecas dos nossos pais e avós para isso mesmo é que serviam, para que não sofresse carga excessiva o neopálio, muito já ele faz para o tamanho que tem, minúsculo, metido lá no fundo do cérebro, rodeado de circuitos por todos os lados, quando Mem Ramires disse a Mogueime, Ajeita-te aí, que te vou subir para as costas, talvez não se pense ter sido esta frase obra do neopálio, onde, estando a memória de escadas e soldados disciplinados, está também a inteligência, convergência ou relação de causa e efeito de que o computador não se pode gabar, pois que, sabendo tudo, não compreende nada. Dizem.»

José Saramago, in A História do Cerco de Lisboa

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (26): Dulce Maria Cardoso e os silêncios como buracos negros

O mais recente romance de Dulce Maria Cardoso – o aclamado O Retorno (Tinta da China, 2011) [Livro do Ano/Prémio Especial da Crítica nos Prémios LER/Booktailors 2011; “uma obra-prima” para Urbano Tavares Rodrigues; “o primeiro caso sério de reflexão literária sobre os 500 mil retornados que aterraram em Portugal em 1975” segundo José Riço Direitinho] – junta-se à galeria da rubrica Literatura e Ciência com um delicioso paralelismo entre as coisas sobre as quais não se fala e os buracos negros. O melhor é ler o excerto (e apanhar boleia e ler o livro todo também).

«Não falamos sobre o que aconteceu ao pai mas é como se isso sugasse todas as conversas. Todas as conversas e todos os silêncios. O Lee andava sempre a ler nas revistas coisas sobre os buracos negros, buracos que são como estrelas ao contrário e que em vez de darem luz engolem tudo o que está à sua volta, até a própria luz. A prisão do pai foi a mesma coisa.»

Dulce Maria Cardoso, in O Retorno

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (25): Érica Zíngano e a ode aos “hábitos medicamentosos de sua mãe”


A jovem poeta brasileira Érica Zíngano (1980), residente em Portugal, escreveu um poema recheado de medicamentos. Parece propaganda à Pfizer, mas não nos deixamos enganar: é apenas e só uma declaração de amor à sua mãe.

 

teoria dos gêneros

este poema é, e não haveria como não ser, dedicado à minha mãe

Lyrika® é um remédio contra fibromialgia que a minha mãe toma todas as noites (antes de dormir) quando está em período de crise. A fibromialgia é uma espécie de reumatismo – só que dos músculos, tendões e ligamentos – e causa dor, fadiga, indisposição, dentre outros sintomas. Além de tomar o Lyrika® (todas as noites) antes de dormir, a minha mãe faz três sessões de fisioterapia por semana, o que ajuda a diminuir bastante a dor, afirma convicta. O Lyrika® é fabricado pela Pfizer™, indústria farmacêutica responsável por arrematar a maior fatia do mercado de medicamentos para o coração: o Norvasc®, que a minha mãe também toma (todas as noites antes de dormir), é, sem dúvida, o mais vendido para pressão alta. De origem norte-americana, a Pfizer™ tornou-se conhecida em todo o mundo pela fabricação do Viagra® que, por incompatibilidade de gênero, claro, a minha mãe não toma.

(esse poema foi escrito com dados retirados do Google Inc. e a poeta se exime da responsabilidade pela veiculação de quaisquer dessas informações. infelizmente, parece que está fazendo propaganda para a Pfizer™, apesar de parecer, ela garante que a intenção primeira não era a de fazer propaganda, mas a de fazer uma singela homenagem aos hábitos medicamentosos de sua mãe: se falhou em tal empreitada, pede desculpas e avisa que continuará tentando)

Érica Zíngano, in Piolho – Revista de Poesia n° 5 (2011)

Publicado por Sílvio Mendes