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Vida com arsenato refutada

Estou presentemente a participar numa conferência sobre evolução organizada por cinco sociedades da América do Norte e Europa, a primeira com esta configuração. Ontem à noite houve uma palestra aberta ao público da Dra. Rosie Redfield (na foto), a convite da Sociedade Canadiana de Ecologia e Evolução. Recordam-se do circo publicitário em torno da descoberta, por uma equipa financiada pela NASA, de uma forma de vida que integrava arsenato em vez de fósforo no seu DNA? [ver post] A palestra foi o relato da refutação desse estudo pela Dra. Wolfe-Simon.

Wolfe-Simon buscou uma forma de “vida na sombra”, um representante de um ramo ancestral da árvore da vida conhecida (que inclui as bactérias, archea e eucariótas) ou uma árvore da vida independente. Estas hipotéticas formas de vida poderão ter existido e sido vítimas de extinção, ou existirem ainda mas não serem conhecidas por existirem em zonas remotas e extremas, ou por terem características que nós não reconhecemos como vida. A NASA tem financiado a busca destas formas de vida, pelo seu programa de Astrobiologia, como forma de explorar vida que possa existir noutros astros. Wolfe-Simon foi ao Lago Mono, rico em arsenato, à procura de vida que pudesse usar arsenato em vez de fósforo.

A Dra. Redfield, a Rosie, detectou vários problemas com a metodologia assim que viu o artigo e publicou as suas críticas no seu blog. Tal gerou outros contributos, discussão online, e alguma atenção do media. Em resumo as críticas apontavam:

a) A forma de vida recolhida do Lago Mono foi propagada num meio de cultura sem fósforo e com arsenato; na verdade havia vestígios de fósforo no meio e embora em quantidade pequena (o equivalente à concentração de fósforo no oceano) eram o suficiente para alguma propagação de colónias. Segundo algumas contas rápidas, o suficiente para o crescimento observado na experiência original.

b) As metodologias de isolamento do DNA, que supostamente teria incorporado arsenato, foram desleixadas não permitindo excluir a possibilidade de que o arsenato detectado se encontrava no gel em vez de no DNA. O DNA foi extraído com apenas uma operação de lavagem com ETOH e uma centrifugação. Este foi depois isolado num gel de electroforese, a secção do gel com DNA foi removida para detecção da quantidade de Arsenato. Mas a banda de gel não foi purificada, ie, o arsenato detectado da banda do gel podia estar no próprio gel (cerca de 99% da massa da banda), em vez de integrado no DNA.

c) Devido à concentração baixa de arsenato, foi proposto que apenas algumas moléculas de fósforo da ‘coluna vertebral’ da cadeira dupla de DNA haviam sido substituídas por arsenato. Vários bioquímicos afirmaram que tais cadeias seriam altamente instáveis (na ordem de menos de um segundo, por oposição a milhares de anos para cadeias de DNA com fósforo) e que mesmo estabilizadas por outras moléculas, seriam susceptíveis de erros de replicação.

d) o Lago Mono, apesar de ter efectivamente um sedimento rico em arsenato, tem quantidades suficientes de fósforo para suportar vida, não sendo de esperar que na presença de fósforo houvesse selecção para o substituir por arsenato.

e) o DNA isolado das células GFAJ-1 foi comparado com a database de genes e conclui-se ser muito próximo de um género bem conhecido de bactérias, Halomonas. Não é portanto um membro da ‘vida na sombra’. Pelo contrário, as GFAJ-1 são tão próximas de outras Halomonas que a evolução de toda uma nova maquinaria assente no uso de arsenato, em vez de fósforo, seria altamente improvável.

Um conjunto de críticas foi mais tarde publicado na Science com uma não-resposta dos autores do artigo original, ou seja, não responderam a nenhuma das críticas, nem as aceitando nem por sua vez as refutando.

Rosie procurou então replicar os resultados originais, escrevendo no seu blog os passos que seriam necessários. Com isso conseguiu encontrar um colaborador que poderia fazer as medições de DNA e arsenato. Rosie foi publicando os seus resultados no blog, uma prática de ciência aberta.

a) usando as mesmas células, procurou propagá-las em meios com diferentes quantidades de fósforo e/ou arsenato, incluindo um tratamento sem qualquer fósforo. Na presença de fósforo na quantidade vestigial equivalente à experiência inicial de Wolfe-Simon, Rosie observou o mesmo tipo de crescimento: alguma replicação seguida do crescimento do tamanho das células, devido à acumulação de gorduras. Na total ausência de fósforo, e presença de arsenato, as células não se reproduziram.

b) Rosie isolou o DNA das células, com metodologias de lavagem e purificação mais rigorosos, e não foi detectado qualquer arsenato na molécula de DNA.

Rosie colocou o manuscrito no arXiv.org e enviou-o para publicação na Science. O artigo foi aceite mas embargado. Este mecanismo impede jornalistas de publicarem notícias sobre um artigo científico antes que este seja publicado pela revista, e  coage os cientistas a não fazerem publicidade das suas descobertas, sob penalidade da sua publicação se tornar “complicada”. Este mecanismo é praticado principalmente tendo em mente artigos da área da saúde, de forma a prevenir que pacientes e familiares tomem conhecimento de novas descobertas pelas notícias antes de os médicos terem oportunidade de ler os artigos científicos, evitando assim que estes sejam confrontados com perguntas e pressões antes de terem acesso à literatura científica. Mas por alguma razão a Science resolveu embargar este artigo, uma estratégia muito diferente de toda a promoção que precedeu a publicação electrónica do artigo de Wolfe-Simon. (Os editores da revista obviamente sentiram algum confrangimento com todo este evento. Indicativo do mesmo é o facto da publicação em papel do artigo de Wolfe-Simon ter sucedido 6 meses após a publicação electrónica. O intervalo é em geral mais curto, mas a onda crítica foi tal que certamente quiseram criar alguma separação temporal.)

Devido ao embargo, Rosie avisou a Science que iria falar numa conferência sobre as suas experiências, e nessa mesma noite (ontem) o artigo saiu publicado na versão electrónica da Science.

Wolfe-Simon persiste em manter as suas conclusões originais, apesar das críticas e ausência de duplicação dos seus resultados. Os restantes autores distanciam-se das partes do artigo que não eram da sua responsabilidade directa. A Science, seus editores e os revisores que foram por si escolhidos, deixaram passar um artigo cheio de erros metodológicos e inferências não substanciadas. Certamente que a pressão e peso da NASA – sempre necessitada de promoção aos olhos do público para justificar o seu orçamento – terá exercido a sua influência. Mas os mecanismos da ciência terão funcionado. Um artigo crítico foi publicado, e a opinião sobre o artigo original foi alterada.

No final da palestra, perguntaram a Rosie porque Wolfe-Simon se deixara levar pela sua hipótese, ao ponto de não ver os problemas que lhe eram apontados, ao que Rosie respondeu que o erro não foi ela ter-se apaixonado pela hipótese: “Devemos apaixonar-nos pela nossa hipótese, e depois procurar matá-la”.

Publicado por André Levy

Fascinar Darwin e Galileo.

"Pale Blue Dot", fotografia da Terra, captada em 1990 pela sonda Voyager 1, a pedido de Carl Sagan.

No último livro de Jonah Lehrer, Como Decidimos, o autor afirma que as situações de stress podem alterar o uso da razão, e que, em muitos estados de pânico, deixamos de dar ouvidos à racionalidade, só ela capaz de gerar pensamentos criativos ou ponderados.

A presente crise económica faz-se sentir também na ciência. No Reino Unido, ciências como a astronomia ou as ciências espaciais estão a sofrer uma forte reestruturação a vários níveis, incluindo cortes orçamentais e redistribuição de fundos, o que pode criar algum stress, ou até, pânico na comunidade.

No entanto, em Portugal, o primeiro-ministro José Sócrates assumiu dedicar 3% do PIB ao sector científico em 2020, contra os presentes 1.5%, o que deverá deixar a comunidade científica portuguesa com esperanças no futuro próximo, e menos nervosa quanto aos financiamentos.

São vários os membros da comunidade científica que defendem a exploração da Terra, em detrimento da exploração do espaço. Entendem que ainda há muito para descobrir no nosso planeta, em particular no que diz respeito, por exemplo, à exploração do fundo dos oceanos. A procura de vida extraterrestre é vista por estes especialistas, num contexto de recursos financeiros e humanos limitados, como um desperdício de tempo e dinheiro e, por isso, algo que deverá ser do domínio da ficção científica.

Todavia, a verdade é que a exploração espacial e o conhecimento do nosso planeta não são actividades estanques: de uma podem-se retirar conclusões acerca da outra, e vice-versa. Para além disso, a procura de vida noutros planetas há muito que deixou de ser exclusividade da ficção científica, e passou a pertencer ao domínio da astrobiologia. A astrobiologia, mais do que uma fusão entre a astronomia e a biologia, é uma ciência multidisciplinar – inclui, para além das duas mencionadas, física, química, geologia, astronomia, ciências da terra e da vida, entre outras.

A astrobiologia estuda, em particular, o surgimento, evolução e adaptação da vida na Terra. Esse estudo concretiza-se em expedições a locais recônditos no nosso planeta, como é o caso da que decorre, neste momento, à Hydrate Ridge, na costa do Oregon, E.U.A., empreendida por Jeff Marlow, do California Institute of Technology.

Esta expedição irá analisar microorganismos produtores de metano presentes em chaminés hidrotérmicas no fundo dos oceanos. Isto permite-nos não só alargar os nossos conhecimentos sobre extremófilos (organismos que vivem em condições extremas na Terra), mas também saber mais sobre indícios de vida extraterrestre. Especialmente, se tivermos em conta que os níveis de metano presentemente observados em Marte podem ser sinais da presença de microorganismos extraterrestres.

De facto, as missões a Marte, como é o caso da ExoMars, têm de ter em conta todas as análises previamente realizadas na Terra. E os resultados dessas missões, por sua vez, podem conduzir-nos a avanços na compreensão da origem da vida na Terra e evolução das espécies.

No que diz respeito à exploração subaquática e à descoberta de novas espécies na Terra, podemos dar o exemplo do projecto DepthX. Trata-se de um robot, financiado pela NASA, cujo objectivo é o de mapear e recolher amostras de água e microrganismos provenientes de uma dolina na península de Yucatán, no México.

Com 318 metros de profundidade, trata-se da dolina mais profunda do mundo e, por isso, esperaram encontrar-se condições nunca antes exploradas. Com efeito, desde 2007, vários mergulhos (com profundidade máxima de 275 metros) e análises laboratoriais das amostras revelaram que existem ali mais de 100 tipos de microrganismos, alguns dos quais até agora desconhecidos, e capazes de sobreviver em condições consideradas adversas para o desenvolvimento da vida. Estes resultados foram publicados em Março na revista Astrobiology.

Aliás, se olharmos para o índice de conteúdos de alguns números desta publicação, e até de outras na área, percebemos que o estudo de extremófilos é um dos campos mais activos e produtivos da astrobiologia.

Em todo o globo existem habitats como a dolina explorada pelo robot DepthX – desde o Oceano Árctico à Antárctica. Por isso, nesses locais, existem fortes possibilidades de se encontrarem pistas sobre os tipos de vida existentes em outras zonas do sistema solar e do universo.

Os astrobiólogos já perceberam há muito tempo que, até se descobrir vida noutros planetas, há muito para aprender sobre a vida na Terra, o único planeta que conhecemos com vida.

Alguns especialistas entendem ser mais seguro estudar a origem da vida na Terra, ao invés de investigar a hipótese de que a vida no nosso planeta pode ter origem extraterrestre. No entanto, ao enveredarmos pela primeira hipótese, não podemos excluir a outra: a de que a vida, ou alguns dos seus constituintes básicos, tiveram ou podem ter origem fora da Terra.

Muito recentemente foram descobertas bases nitrogenadas de origem extraterrestre num meteorito encontrado na Austrália. Tratam-se de moléculas que são a base do ADN e ARN. Esta descoberta demonstra, assim, a possibilidade de algumas das moléculas essenciais à vida terem sido trazidas do espaço para a Terra, em meteoritos.

Pensa-se que a vida na Terra teve origem, em termos geológicos, pouco depois de um pesado bombardeamento de meteoritos e cometas, ocorrido entre 4.6 a 3.8 mil milhões de anos, e que contribuiu com moléculas orgânicas possivelmente fundamentais para a origem e evolução da vida no nosso planeta.

A descoberta de indícios de vida num planeta (por exemplo, Marte) ou numa lua do nosso sistema solar (por exemplo, Titã ou Europa) pode também esclarecer-nos sobre a origem e história da vida na Terra. Sabemos que ainda há muito para descobrir no nosso planeta, mas não é por isso que podemos descurar o resto do universo. É neste espírito de exploração e descoberta que a NASA, ESA e outras agências espaciais investem na procura de vida extraterrestre.

E, numa perspectiva mais geral, temos que admitir que o desenvolvimento científico e tecnológico está intimamente ligado ao índice de desenvolvimento humano de um país ou região. É certo que em países onde a eliminação da pobreza e da fome são uma prioridade, qualquer actividade que não tente resolver directamente estas questões não é fácil de apoiar e justificar. Mas, por outro lado, há diversos estudos que nos dizem que investimentos na exploração espacial em tempos de crise têm ajudado países a enfrentá-la e ultrapassá-la. Isto demonstra que o investimento em ciências básicas tem não só um grande retorno cultural e humano, mas também retorno económico.

A exploração espacial e áreas afins, na vanguarda da ciência e tecnologia, respondem a questões elementares sobre a nossa existência, inspiram artistas, escritores e sonhadores, geram riqueza e impulsionam a inovação e economia. Até porque diversos relatórios apontam para que as maiores contribuições da exploração espacial não se tratem apenas de aplicações tecnológicas ou avanços científicos, mas sim, de algo maior: a oportunidade para alargar os nossos horizontes, descobrir a beleza e a grandeza do Universo e do nosso lugar nele. E como nos diz Sir Martin Rees, presidente da Royal Society, a possibilidade de existir vida extraterrestre “teria fascinado Darwin e Galileo, 400 anos depois de ter construído os seus telescópios e olhado para as crateras na Lua.”

Por Maria Cruz, Zita Martins e Pedro Russo*
* em colaboração com Joana Martins (Science Office)


Notas biográficas sobre os autores:

Maria Cruz
Licenciou-se em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico e doutorou-se em Astrofísica pela Universidade de Oxford. Um estágio de três meses no Gabinete Parlamentar de Ciência e Tecnologia do Reino Unido despertou-lhe o interesse pela comunicação e pela política de ciência. De seguida, coordenou a produção do primeiro plano estratégico para a astronomia Europeia, ASTRONET, colaborando em paralelo com a associação britânica Sense About Science. Actualmente é editora de astronomia e astrofisica da revista Science. Mais informações: http://uk.linkedin.com/in/mariajcruz

Zita Martins
Após ter estudado Química no Instituto Superior Técnico, obteve o doutoramento em Astrobiologia pela Universidade de Leiden na Holanda. Foi Cientista Convidada da NASA em 2005 e 2006. Entre 2007 e 2009 foi investigadora associada no Imperial College em Londres. Actualmente é University Research Fellow da Royal Society no Imperial College e membro do comité da Astrobiology Society of Britain. Mais informações: http://uk.linkedin.com/pub/zita-martins/9/925/b8

Pedro Russo
Licenciou-se em Astronomia e tem um Mestrado em geofísica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Porto. No Centro Multimeios de Espinho, descobriu o gosto pela comunicação da ciência. Presentemente coordena globalmente o Ano Internacional da Astronomia 2009, uma iniciativa da União Astronómica Internacional e da UNESCO e apoiada ao mais alto nível pelas Nações Unidas. Vive em Munique e está integrado no grupo de trabalho da Agência Espacial Europeia/Telescópio Espacial Hubble na Organização Europeia para a Investigação em Astronomia no Hemisfério Sul (ESO). A nível internacional colabora activamente com diferentes organizações como: União Astronómica Internacional, Comissão 55-Comunicação de Astronomia com o Público; Rede Europeia de Ciências Planetárias (Europlanet); União Geofísica Internacional e Federação Astronáutica Internacional. É o editor da revista científica Communicating Astronomy with the Public Journal. Mais informações: http://www.eso.org/~prusso/

Joana Martins
Joana Martins nasceu em 1987 na pequena vila de Sever do Vouga, distrito de Aveiro. Desde os primeiros anos de escola mostrou apetência para as artes e línguas. Enveredou pela licenciatura em Ciências da Comunicação, vertente de Jornalismo, que concluiu em 2010. Antes de se juntar ao Science Office, fez  dois estágios, na área do jornalismo online e imprensa escrita.

Terra no Espaço

No dia 30 de Julho publiquei neste blog um comentário «Conhecer a Terra ou o Espaço» que gerou alguma controvérsia, incluindo comentários neste mesmo blog, um post e comentários no blog «astro.PT» e um esclarecimento por parte dos moderadores deste blog. Depois da troca de comentários em ambos os blogs, relembro que a questão que pretendia ser a central do post original, aliás indicada pela categoria em que foi inserido, era o financiamento científico.

Permitam-me assim esclarecer e clarificar (se quiserem, corrigir) o comentário original, num espírito de reconciliação académico.

1. Opinar sobre prioridades de financiamento científico não constitui um ataque ao mérito científico das áreas que se possam considerar menos prioritárias. É uma avaliação sobre onde devem ser investidos prioritariamente recursos financeiros e humanos.
Para dar um exemplo diferente do post inicial (mais uma vez uma opinião pessoal, e sem querer travar qualquer analogia com o debate face à Astrobiologia): contraste-se o financiamento da indústria farmacêutica em áreas como a cosmética, retardamento do envelhecimento, obesidade, e desenvolvimento de fármacos para doenças mais típicas de países mais desenvolvidos, com o investimento na investigação de doenças infecciosas que ocorrem primariamente em países menos desenvolvidos e que são responsáveis por milhões de mortos anualmente  (e.g., cólera, disenteria, lepra, malária, etc). Para mim há aqui uma repartição desequilibrada e lastimável de financiamento, o que não equivale a dizer que eu ache que não deva haver investigação sobre doenças cardiovasculares ou que esteja a atacar o financiamento nessa área. É sim, em parte, uma crítica ao critério, neste caso económico, que jaz por de trás deste desequilíbrio. Espero que este exemplo, numa área distinta, ajude a entender que falar sobre prioridades de financiamento não equivale a desvalorizar o mérito científico (ou social) de uma área que se opine ser menos prioritária.

2. Outra clarificação diz respeito à frase final do post original  (que corrigi a posteriori): «Deixemos a vida extra-terrestre para a ficção científica». Essa frase  vinha no seguimento de referências à descoberta de vida inteligente noutros locais do Universo. Admito que a frase não foi suficientemente clara. Não pretendia ser um ataque transversal à Astrobiologia. Permitam-me a correcção: «Deixemos a vida inteligente extra-terrestre para a ficção científica», para assim separar o que entendo ser a componente principal da Astrobiologia – busca de evidência de vida, elementos pré-bióticos, e condições propícias para a evolução de vida (como a existência de água) – de outros esforços, nomeadamente o de encontrar vida inteligente extra-terrestre. Considero a primeira um empreendimento científico interessante, digno de ser seguido e financiado e, como referido no post original, uma área que já tem dado resultados empolgantes. Por contraste, considero o empreendimento de procurar formas de vida inteligente com a qual possamos travar comunicação um esforço pouco prioritário, dada a improbabilidade de tal vir a acontecer. Foi relativamente a este empreendimento que invoquei a ficção científica e a forma como a comunicação social por vezes apresenta a exploração espacial. A minha observação prendia-se com o facto de a exploração espacial poder beneficiar dos sentimentos fomentados por filmes e séries que apresentam cenários irrealistas. Não impliquei a própria Ciência em qualquer conspiração ou manipulação propositada. Não faço qualquer associação entre Astrobiologia e ficção científica, não há qualquer confusão a esse respeito da minha parte e lamento se o texto permitiu essa leitura.

3. Feita esta distinção, reitero: não pretendia atacar a Astrobiologia, que considero ser uma legítima área científica merecedora de ser prosseguida e financiada. Desejava sobretudo chamar a atenção para o nosso desconhecimento da topografia e biologia dos fundos marinhos terrestres que representam 70% da superfície do nosso planeta, onde se estima existirem milhões de espécies de bactérias marinhas desconhecidas pela ciência e que muito poderiam contribuir para o entendimento da origem e evolução da vida terrestre.
Naturalmente que a escolha não é entre financiar a Biologia Marinha e a Astrobiologia. A escolha de financiamento é feita entre todas as áreas (e nem há um único bolo de financiamento, nem são usados apenas critérios científicos). A ponte entre as duas áreas foi feita porque o desconhecimento dos nossos fundos marinhos contrasta com o conhecimento que já possuímos sobre a topografia da Lua e de Marte.

4. Há uma questão, que considero menor, de discórdia sobre a amplitude e definição do campo da Astrobiologia.
A Astrobiologia compreende o estudo da vida no Universo, que inclui naturalmente a Terra mas entendo que a Astrobiologia, enquanto área científica, compreende mais especificamente o estudo de vida extra-terrestre. Não será por acaso que esta também seja referida como Exobiologia.

Se considerarmos ser objecto da Astrobiologia o estudo da vida tanto na Terra como fora dela, então esta seria indistinguível da Biologia, ou in extremis a Biologia seria uma sub-categoria da Astrobiologia, o que não me parece ser muito clarificador.

Naturalmente, há sobreposição entre as duas áreas, mas creio que existem benefícios em utilizar os dois termos para designar áreas de investigação distintas, independentemente das ligações que inequivocamente existem entre elas. Se o estudo sobre extremófilos terrestres está dentro do campo da Biologia (terrestre) ou da Astrobiologia (no sentido mais restrito) parece-me de interesse menor. Ambas as áreas podem aprender muito com o estudo das condições extremas em que é possível existir vida.
Para tentar ser o mais claro possível: considerando a natureza um todo contínuo, as áreas científicas são categorias históricas geradas pelo Homem. Há lugar para a existência de Biologia, Astrobiologia, Astronomia, etc. As áreas têm sobreposições sendo de fomentar a interdisciplinaridade. A delimitação das áreas é uma questão de categorização da ciência. O meu comentário, mais uma vez o repito, tinha como ponto central prioridades de financiamento científico. Usei como instrumento o contraste entre o estudo da Terra versus o do (resto do) Espaço, duas categorias ou áreas de estudo.

5. Relativamente à evocação de Carl Sagan, foi uma nota meramente biográfica sobre o meu percurso intelectual, em que pretendia ilustrar o impacto pessoal que este teve sobre mim enquanto divulgador científico. Acrescentei porém que à medida que o meu interesse e conhecimento pela biologia, pela questão da origem da vida, foi crescendo, comecei a divergir cientificamente das opiniões de Sagan, como seja o esforço em procurar indícios de vida inteligente extra-terrestre, do qual ele foi promotor. Evocando ainda Sagan para voltar à questão das prioridades de financiamento: no seio da NASA, Sagan foi, por exemplo, apologista de mais missões robóticas em oposição ao programa do vaivém e Estação Espacial. Registo isto apenas para ilustrar como opiniões sobre decisões sobre financiamento não implicam “ataques” mas diferenças de opinião sobre prioridades.
Espero com isto ter clarificado o objectivo do post inicial, e espero que as relações entre os comentadores dos dois blogs possam no futuro ser mais positivas, contribuindo para o objectivo comum da divulgação científica.

Publicado por André Levy
Deixemos a vida extra-terrestre [acrescentado a posterior: em particular, vida inteligente] para a ficção científica.

Conhecer a Terra ou o espaço

O Carl Sagan foi quem despertou meu interesse pela ciência, já lá vão muitos anos. A leitura de verão d’ «O Contacto» levou-me a ler «Cosmos» e por daí em diante. Primeiro muita física (de astronomia à das partículas) e eventualmente muito mais biologia (onde me vim a especializar). Há hoje uma área que pretende fundir os dois campos, a Astrobiologia, que em parte se preocupa com a descoberta de formas de vida noutros planetas. Não me parece uma área de estudo demasiado descabida. Admito que suscite alguma curiosidade. Mas num contexto de recursos financeiros e humanos limitados, parece-me um enorme desperdício de tempo e dinheiro, que não me entusiasma particularmente e por vezes chego a considerar uma aberração.

Como é que se admite que se conheça melhor a superfície da Lua e Marte que a do fundo dos oceanos na Terra (que como Arthur C. Clarke disse apropriadamente, dada a percentagem de coberto oceânico do nosso planeta, se devia chamar antes Mar)?

Como é que se admite que havendo ainda tanta espécie de vida, macro- e, sobretudo, microscópica no nosso planeta se invista dinheiro na vã tentativa de descobrir indícios de vida noutros planetas?

É certo que as missões espaciais não têm como principal objectivo a descoberta de vida, mas sim a exploração do espaço. Os instrumentos de detecção de vida vão à boleia. Mas mesmo esse esforço de exploração do espaço me parece, reitero num contexto de recursos limitados, um desperdício. Gastam-se milhares de milhões para planear, construir, preparar equipa e lançar um Vai-Vem, mas uma quantia comparativamente menor em explorar o fundo dos nossos Oceanos, que contêm não só inúmeras e curiosas espécies, muito distintas das terrestres e das marinhas que vivem perto da costa ou superfície. Provavelmente existem milhões de espécies de bactérias nos oceanos ainda por descobrir, algumas certamente com sistemas químicos totalmente distintos, que muito nos poderiam ensinar sobre a história da vida na Terra. Mas há quem defenda de alma e coração, no espírito dos descobrimentos e certamente depois de uma overdose de ficção científica, que a próxima fronteira é o espaço. Um certo cinismo da minha parte, não pode deixar de pensar que os produtos militares que resultam da investigação para a exploração espacial, e que a perspectiva de explorar recursos naturais nos planetas mais próximos é o que realmente motiva os que promovem a exploração espacial. A suportar esta hipótese está o facto da NASA já não construir Vai-Vens há vários anos (vai reciclando os antigos) – a nova geração de Vai-vem resulta de investimento privado.

A ficção científica é complementada pela ideia de que a vida na Terra pode ter tido origem extra-terrestre (panspermia), uma ideia promovida por exemplo pelo físico heterodoxo Sir Fred Hoyle. Li sobre esta ideia na altura que lia «Cosmos» e outros livros do Sagan, e sempre me pareceu uma fuga à questão da origem da Terra. Em vez de investigar como pode ter surgido na Terra, atira-se a origem para o Espaço, sob condições totalmente desconhecidas e à escolha do freguês. Isto quando existem hipóteses e investigação muito plausível para responder à questão difícil da Origem da Vida na Terra.

Há esta ideia que se descobrirmos indícios de vida extra-terrestre, não nos sentiremos “sozinhos no universo”. Mas a ser descoberta alguma forma de vida, será certamente de vida, muito possivelmente já extinta, na forma de bactérias, talvez nanobactérias. Eu cá não me sentirei menos sozinho na vastidão do Universo por saber que existiram umas bactérias em Marte ou Úrano. Não iremos certamente descobrir as formas de vida que tipicamente surgem nos filmes de ficção científica, seja na forma de monstros ou antropomorfos falando inglês ou em música (como no “Encontros de Terceiro Grau”). O Universo é tão vasto e o tempo de viagem entre galáxias de uma ordem de grandeza tão grande que, admitindo que exista vida, e que esta seja inteligente, e que nós fossemos capazes de comunicar com ela, a probabilidade de ambas as formas de vida – terrestre e extra-terrestre – é avassaladoramente pequena.

Temos muitas espécies na Terra a descobrir. Temos espécies na Terra conhecidas a desaparecer por actividade antropogénica. Deixemos a vida extra-terrestre [acrescentado a posterior: em particular, vida inteligente] para a ficção científica.

[Notas:
* Na sequência do post “Conhecer a Terra E o Espaço”, publicado no blogue astroPT, como reacção a este texto, a Associação Viver a Ciência decidiu publicar um texto que esclarece a sua posição sobre a matéria.
** O autor deste texto decidiu também publicar um comentário que pretende clarificar a sua opinião. Pode aceder ao mesmo clicando aqui
*** Leia também o texto “Fascinar Darwin e Galileo“, um contributo de Maria Cruz, Zita Martins e Pedro Russo (em colaboração Joana Martins), escrito também na sequência deste post.
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Publicado por André Levy