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Ainda a Conferência Parlamentar Sobre Ciência

Mais dois breves apontamentos sobre a Conferência Parlamentar Sobre Ciência, do passado dia 3 de Março.

Primeiro: uma crónica da autoria de Margarida Trindade (PhD da Unidade de Comunicação e Formação o Instituto de Medicina Molecular), publicada no site da Associação Viver a Ciência.

Segundo: depois de alguns problemas técnicos, já é possível ouvir na íntegra as intervenções de todos os painéis que integraram a Conferência, no site do Parlamento.

Publicado por Sílvio Mendes

«O compromisso com a ciência é uma política de longo prazo?»

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Conferência Parlamentar Sobre Ciência: 1º PAINEL – A Ciencia em Portugal: Realidade e perspectivas

O primeiro painel da Conferência Parlamentar Sobre Ciência, que se realizou no Auditório do Edifício Novo da Assembleia da República, no dia 3 de Março, reuniu João Santieiro (Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia), Lino Fernandes (Presidente da Agência de Inovação) e Ana Noronha (Directora Executiva do Ciência Viva).

Os dois primeiros oradores estiveram em quase plena sintonia, e as suas intervenções quase se podem resumir numa só ideia: o reforço do orçamento para a ciência tem sido grande nos últimos anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

João Santieiro defende que «pela primeira vez temos empresas privadas a financiarem de forma significativa a actividade científica». O motivo: «O investimento público teve um efeito de alavanca para o investimento privado».Mas o presidente da FCT deixou também algumas interrogações: «O compromisso com a ciência é uma política de longo prazo? É possível encontrar na sociedade portuguesa um consenso que permita essa estabilidade? Nós, na comunidade científica, sabemos que se assim não for é difícil continuar». «Temos que nos aliar, internacionalizar e fazer parte da comunidade internacional», apontou.

O presidente da Agência de Inovação, Lino Fernandes, pintou um cenário totalmente optimista: Portugal apresenta hoje uma massa crítica mais recente, mais actualizada e mais internacionalizada, e é já um produtor de tecnologia com capacidade de exportação. «Estamos ainda atrasados, é verdade, mas temos recuperado». Resultados práticos para um ano delicado? «É a primeira grande crise que a economia portuguesa atravessa em que não tem o atraso científico dos anos 30. Estamos melhor preparados para superar problemas complexos e a crise também pode significar uma oportunidade», defende.

Ana Noronha destacou a importância vital das acções de divulgação de ciência – «para haver desenvolvimento científico, é preciso que o público compreenda o mundo científico» – sobretudo no público mais jovem. «O futuro está nas mãos dos mais novos, espero que com cultura científica», concluiu.

A deputada independente Luísa Mesquita havia inaugurado o painel. Desta forma: «A comunidade científica é maioritária nesta plateia, que faz sentir ao parlamento que vê nas questões de ciência uma questão muito importante para o país»

Publicado por Sílvio Mendes

«As pessoas têm tudo a ganhar se a ciência estiver no processo de decisão política»

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Conferência Parlamentar Sobre Ciência: 2º PAINEL – A Ciência em Portugal: Da produção à Divulgação

O 2º Painel da Conferência Parlamentar Sobre Ciência, reuniu, no dia 3, Luís Portela (Presidente da BIAL), António Coutinho (Director do Instituto Gulbenkian da Ciência) e Vasco Trigo (jornalista da RTP).

«Sem uma raiz profunda na sociedade real, qualquer acção é inútil». António Coutinho, director do IGC (Oeiras), defendeu o uso de princípios de evolução biológica numa instituição e aproveitou a sua intervenção para deixar bem claro qual o caminho que acha correcto para a evolução da ciência em Portugal. Um: «90% do investimento europeu é feito dentro do próprio país. Enquanto o dinheiro não for distribuído a nível europeu, não saímos da cepa torta». Dois: «A divulgação científica tem que ser feita a partir da escola. Precisamos de melhores programas de educação de ciência». Três: «Instituições demasiado grandes perdem densidade interactiva. Não percebo como é que em Portugal há tendência para a fusão de instituições. São as mais ineficientes». Quatro: «Há uma incompatibilidade definitiva e irreversível entre uma instituição lucrativa e o espírito académico».

O director da primeira instituição portuguesa a profissionalizar a investigação científica a tempo inteiro e criar um gabinete de comunicação de ciência, demonstrou ainda a sua incompreensão pelo facto da área da investigação em saúde receber apenas 10% do orçamento distribuído pela FCT. «O sistema de distribuição por áreas não é revisto há mais de vinte anos», aponta.

Vasco Trigo, jornalista responsável pelo recentemente extinto “2010”, defende que «as pessoas têm tudo a ganhar se a ciência estiver no processo de decisão política». Por isso mesmo seguiu o caminho do jornalismo de ciência, para «ajudar a elevar o nível da cultura científica das pessoas e elevar o nível de cidadania». «Quando um cidadão que vê as verbas para a ciência não percebe para que servem, todo o processo se torna mais difícil», aprofunda.

Considera que a divulgação científica é fundamental na actividade dos cientistas mas não recomenda que os mesmos recorram a gabinetes externos de comunicação. É também defensor do jornalismo especializado e deixa um alerta a todos os comunicadores: «Temos que tornar interessante aquilo que é importante, e não o contrário».

O presidente da BIAL, Luis Portela, considera que a situação orçamental da saúde na Europa é complicada. Situação que se complica mais em Portugal por apresentar um fraco investimento de empresas privadas. «Tradicionalmente, na Europa, cerca de dois terços do investimentos em ciência faz-se por empresas privadas, em Portugal ainda estamos longe desse número», explica.
Ainda assim, Portela considera que Portugal tem condições para apostar forte na saúde  e ter bons resultados. «Podemos cruzar interesses e oferecer ao país alguma riqueza durante os próximos anos», afirma. E garante estar a fazer por isso. A BIAL tem em desenvolvimento seis medicamentos que podem vir a ser os primeiros de raiz portuguesa a serem comercializados no mercado mundial.

Publicado por Sílvio Mendes

«Todas estas alterações muito rápidas criam instabilidades»

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Conferência Parlamentar Sobre Ciência: 3º PAINEL – A Ciência em Portugal: A rede pública de Unidades de Investigação

O terceiro painel da Conferência Parlamentar Sobre Ciência reuniu Alexandre Quintanilha (Secretário do Conselho dos Laboratórios Associados), Jorge Braga de Macedo (Presidente do Instituto de Investigação Científica e Tropical) e Carlos Penha Gonçalves (Chefe do Laboratório de Defesa Biológica do Exército).

«Portugal pode servir de muitas maneiras como um exemplo de sucesso extraordinário, mas todas estas alterações muito rápidas criam instabilidades. Aumentam de forma crítica e dramática as fragilidades do sistema criado». Alexandre Quintanilha mostrou-se preocupado com o cenário actual de financiamento da ciência em Portugal. «A irregularidade dos mecanismos de financiamento das investigações impede-as de fazer planos para mais de três anos, porque não sabem quando os novos concursos vão abrir. Abrimos lugares, prometemos que podem ir até cinco anos, e depois não sabemos se o podemos cumprir ou não», aprofunda.

O presidente do IICT, Jorge Braga de Macedo, defendeu a criação de um fórum dos representantes dos laboratórios de Estado, à imagem do que acontece com os Laboratórios Associados. «Agora com os consórcios é uma ocasião única para fazer esse fórum. É um ideia que está à espera de padrinho e/ou madrinha. Deixo-a aqui», desafiou.

Carlos Gonçalves, em representação do Laboratório de Defesa Biológica do Exército, expôs as dificuldades de quem começa do nada. O objectivo do laboratório passa por criar respostas baseadas em evidências científicas para cenário de terrorismo de armas não convencionais, acidentes e catástrofes nacionais. «Sabemos o que queremos, precisamos é de alguém que o queira fazer connosco», declarou. Deixou ainda uma sugestão: Por que não ser criada uma linha de financiamento para que, sem situações como a sua, se possa encomendar uma investigação a outra instituição?

Publicado por Sílvio Mendes

«Falta uma estrutura forte que nos permita liderar projectos europeus»

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Conferência Parlamentar Sobre Ciência: 4º PAINEL – A Ciência em Portugal: A dimensão internacional

O quarto e último painel da Conferência Parlamentar Sobre Ciência contou com o contributo de Rui Reis (Director do Grupo 3B’s da Universidade do Minho), Pedro Russo (Responsável da UNESCO pelo Ano Internacional da Astronomia) e Ricardo Serrão Santos (Director do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores). Depois dos painéis, foi a vez dos deputados Bravo Nico e António José Seguro concluírem a Conferência.

«O que nos falta ainda é a capacidade de liderar projectos, em vez de só participar. É preciso trazer as coisas para cá
e exportar o que fazemos». A receita é de Rui Reis, director do Grupo 3B’s da Universidade do Minho, com laboratório nas Caldas das Taipas. «O governo português põe mais dinheiro nos programas europeus do que é capaz de ir buscar, porque não temos grupos competitivos que o possam trazer», complementa.
Rui Reis chamou ainda a atenção para a necessidade de se clarificar a legislação sobre células estaminais. «Que seja claro o que se pode ou não fazer com células estaminais embrionárias», advogou.

Depois de Pedro Russo apresentar algumas das actividades do Ano Internacional da Astronomia e de expor a “época de ouro” vivida pela astronomia (em pouco mais de uma década passamos de oito para mais de três centenas de planetas conhecidos), foi a vez de Ricardo Serrão Santos apresentar o seu trabalho. «Neste momento Portugal faz parte do clube com capacidade de investigação em oceano profundo», realçou. Contudo, «falta uma estrutura forte que permita observar o impacto das políticas administrativas e financeiras que permita liderar projectos europeus», lamenta.

A concluir a sessão, o deputado Bravo Nico, deputado relator para a Ciência, reconheceu ser absolutamente necessário pensar-se na «possibilidade de criar uma carreira profissional de gestores de ciência», ter consciência que há uma «volatilidade laboral dos bolseiros no início de carreira» e achar que ninguém hoje tem «conhecimento total do que é o mapa da rede científica em Portugal». «Se há sector que pode dar um impulso grande para o país, é este. Se nós falharmos, o país falhará», vaticinou.

António José Seguro, Presidente da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, defendeu também que «a ciência é uma prioridade para a Comissão e deve ocupar um lugar cada vez mais importante no trabalho parlamentar». «Ainda trabalhamos em condomínios semi-fechados em áreas que deviam trabalhar em rede», apontou, antes de terminar o seu discurso com uma garantia: «não queremos fazer um relatório burocrático, mas que o mesmo seja um contributo vital para todos os que fazem ciência e se preocupam com a ciência em Portugal».

Publicado por Sílvio Mendes

Conferência Parlamentar sobre Ciência: A burocracia

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Se há tema que tenha gerado consenso durante a Conferência Parlamentar sobre Ciência, no dia 3 de Março, foi o ódio declarado à burocracia.

João Santieiro, presidente da FCT, considera que a burocracia tem sido o grande entrave do progresso da ciência em Portugal, realçando a dificuldade que os cientistas têm em usar o financiamento para os fins para que esse foi atribuído. Alexandre Quintanilha, Secretário do Conselho dos Laboratórios Associados, chegou mesmo a concretizar um pedido: «ajudem-nos a diminuir a burocracia. Nós damos todas as explicações de como o dinheiro é gasto, mas por favor reduzam o papel necessário para o obter». «Todo o processo de financiamento da ciência não pode ser tratado como o financiamento de obras públicas. É um perfeito purgatório: os laboratórios enfrentam diariamente regras que o conhecimento não devia ser obrigado enfrentar», concluiu.

Da plateia choveram ainda expressões como «delírio burocrático» e «falta de razoabilidade» e até os deputados presentes se demonstraram desagrados com a situação. Mas, afinal, se toda a gente está de acordo, a quem atribuímos as responsabilidades?

Publicado por Sílvio Mendes

Conferência Parlamentar sobre Ciência

Depois de ter efectuado visitas a instituições de Ensino Superior e Unidades de Investigação, a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência apresenta, no dia 3 de Março, a partir das 9h30, a Conferência Parlamentar Sobre Ciência, no Edifício Novo da Assembleia da República.

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Publicado por Sílvio Mendes