Literatura e Ciência (24): Raul Brandão, um instinto naturalista e uma ode às aves


A citação é longa, o que obriga poupança na descrição. Em 1923, Raul Brandão publicava uma arrebatadora descrição da costa portuguesa e da vida que se desenvolve em torno do mar. Os pescadores é poesia, é antropologia, é jornalismo, é amor a um povo e a todas as suas contradições.
Aqui, deixamos um excerto que descreve, com alma naturalista, alguns hábitos das aves que «fazem ninho nos areais despovoados» e chocam num buraco os ovos pintalgados». Sem mais palavras, eis o pedaço de mar.

«Ao fim da tarde, sento-me no paredão do farolim. O mar calmo, a Outra Banda verde, a costa perdida em bruma violeta e o cabedelo entre o rio azul e o mar azul. Atrás de mim acende-se o farol, e na areia um bando de gaivotas aninhadas grasna baixinho.

A felicidade é aquilo. Mergulham, patinham na água e levantam voo de repente, embebendo-se no azul para caírem a prumo sobre as mantas de petinga. As mais novas, as grazinas, nadam numa poça, outras desfolham-se em revoadas sobre a onda e outras andam à tripa na restinga. Tenho visto muitos ninhos, mas nunca encontrei pedras nem ninhos de gaivota…

Ei-las outra vez que se juntam num grasnido insolente, com os pés metidos no azul… Um bando de maçaricos-reais voa ao lume de água. Do mar cresce o pó verde. A capelinha do Senhor da Pedra, lá ao longe, ainda reluz. Mas os ninhos… Só mais tarde, muito tarde, é que descobri que as gaivotas, os borrelhos e o alguivão, fazem ninho nos areais despovoados, chocando num buraco os ovos pintalgados. Fazem-nos também, e principalmente, nas Berlengas. Aquilo é delas e do céu. É um espectáculo enternecedor vê-las de pé sobre uma pedra e à roda os pequenos grotescos a nadar. Por um hábito secular, têm como inviolável esse asilo. Quase não fogem ao homem, e ninguém devia ter o direito de lhes tocar nessa época de ternura.

Uma das mulheres mais ricas dos Estados Unidos, Madame Russell Sage, comprou na Luisiana a rocha de March Island para lugar de nidificação das aves perseguidas. É um refúgio no mundo. Daqui saúdo Madame Russell, ou a sua sombra, se já não existe. Se eu fosse rico, comprava também ao Estado as Berlengas para as aves marinhas fazerem os seus ninhos, livres da ferocidade humana, que não tem limites, e que até lá as vai procurar para lhes destruir a criação.

Entre todas estas aves, há porém umas, que vi no Baleal, que me interessaram extraordinariamente. São as galhetas, que começam a passar em Setembro. Ao escurecer ouvia entre o barulho da ressaca vozes baixinhas e agourentas de bruxedo. Eram as galhetas, que andam sempre aos bandos e pousam nas pedras, ao rés de água, para dormir. Como senhoras vizinhas, antes de fecharem o olho, conversam de pouso para pouso. Rumor mais alto, mais baixo… Uma risada.
– Que é? Que é? – ouve-se distintamente.
– Quem é? – E logo outra: – Matou-a! Matou-a! – Uma risada sarcástica e depois um coro: – Olá! Olá! – É noite – calou-se tudo, menos o mar, que fala sempre.»

Publicado por Sílvio Mendes

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s