Tag Archives: Evolução

Vê-se à segunda (24): Vídeo português explica a Evolução como se tivéssemos 10 anos


Uma parceria entre os comunicadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) deu origem a um vídeo de animação sobre Evolução, direccionado a alunos do 1º e 2º ciclo.

Sinopse Oficial: «Este vídeo de animação sobre a Evolução explora como surgiu toda a diversidade de seres vivos a partir de um antepassado comum. O vídeo apresenta a árvore da vida, em que todos os seres vivos são aparentados, e explica o aparecimento de novas espécies. Fala-se ainda na contribuição dos estudos sobre evolução para outras áreas científicas e para a sociedade.»

Nós, os fantásticos seres vivos: uma breve história sobre Evolução pode ser visto, na íntegra, aqui:

Publicado por Sílvio Mendes

1. Histórias naturais: A orquídea mentirosa e a ejaculação da vespa

Orquídea do género Cryptostylis e polinizador

Orquídea do género Cryptostylis e polinizador

Uma das primeiras coisas que nos apercebemos ao estudar biologia um pouco mais é que, para qualquer regra que tenha sido estabelecida, existem sempre excepções. Por vezes essas excepções são bem mais interessantes do que a regra e o seu estudo pode levar-nos a perceber muito melhor essa mesma regra. Um artigo* recentemente publicado no The American Naturalist mostra, mais uma vez, que a relação justa e fiel entre as flores e os seus insectos polinizadores pode afinal envolver um pouco de mentira. Neste caso, uma dose extrema de mentira. A flor, uma orquídea australiana (género Cryptostylis), atrai machos da vespa Lissopimpla excelsa usando como “isco” algo irresistível para um macho: o cheiro de uma fêmea! A mentira é tão perfeita que leva os machos não só a copular com a flor, como a ejacular. Porque teria a orquídea evoluído tal semelhança? Quais os custos para os machos? Será que estes aprendem a reconhecer a mentira? Estas são algumas das perguntas que os autores tentam responder e que fazem com que ler este artigo se assemelhe a ouvir uma aventura dos nossos avós contrabandistas!

A relação entre plantas e os seus insectos polinizadores é normalmente baseada na “confiança” entre as espécies envolvidas de que a planta fornece de néctar o insecto, e este leva consigo grãos de pólen essenciais para a reprodução da mesma planta. Mas há excepções. Na família das orquídeas as excepções representam quase tantas espécies como a regra. Estas orquídeas não retribuem o esforço dos insectos que as polinizam, usando uma variedade de estratégias para enganar os mesmos. Entre essas estratégias há orquídeas que levam os machos de determinados insectos a copular com as suas flores. Gaskett e os co-autores do artigo “Orchid sexual deceit provokes ejaculation” repararam que após copularem com as flores das orquídeas, alguns destes insectos deixavam uma gota de líquido nas mesmas. A anáslise desse líquido revelou que os insectos estavam a levar essa cópula bastante a sério.

Sabendo que a produção de esperma tem custos para os indivíduos (ex.: massa corporal reduzida), estes cientistas perguntaram o porquê de tal acontecer. Para responder à questão analisaram o sucesso reproductivo de diferentes orquídeas, nas quais a intensidade da actividade sexual entre a planta e o insecto era variável (ex.: alguns copulavam sem ejaculação, outros apenas ficavam momentaneamente presos dentro da flor, etc). A resposta foi clara: plantas que levassem os insectos à ejaculação tinham uma probabilidade maior de serem polinizadas com sucesso. O casal vencedor (ou perdedor): as orquídeas do género Cryptostylis e os machos da vespa Lissopimpla excelsa.

É sabido que as orquideas produzem cheiros muito parecidos com as feromonas** produzidas pelas fêmeas de certos insectos. Os autores acreditam que, no caso das Cryptostylis, o cheiro por elas produzido é tão semelhante ao das fêmeas de Lissopimpla excelsa que estimula não só uma cópula extremamente vigorosa e longa, como um maior número de visitas por parte dos polinizadores, o que por sua vez leva a uma maior e melhor transferência de pólen. Apesar de bem montada… a mentira tem perna curta, com a experiencia os machos vão aprendendo a evitar estas orquídeas, sendo que após serem enganados alguns já nem aterram nestas plantas. Assim sendo como subsiste a mentira? Como são polinizadas estas orquídeas?! Servem-se da inexperiência dos mais jovens, aliada ao estilo de vida solitário destas vespas e ao facto de serem haplodiploides (as fêmeas só necessitam de machos para produzirem mais fêmeas; os machos nascem de ovos não fertilizados). Uma vez que são solitários não se pode dar uma transferência de informação entre gerações, cada indivíduo tem de aprender apenas e só através dos seus próprios erros – o que leva a que os mais jovens sejam também os mais enganados. Todo o sistema faz com que estas orquídeas pareçam mais perversas do que a mais perversa vilã de telenovela. Se não reparem: como no sistema haplodipoide as fêmeas da vespa produzem machos sem necessidade de esperma, está assegurado um fornecimento continuo de jovens machos no auge da sua ingenuidade e das suas capacidades sexuais (o pico de esperma acontece após emergirem). Como estes machos vão perder tempo e esperma em relações com as orquídeas é provavel que acasalem menos com as fêmeas, mas ainda assim o suficiente para estas não desaparecerem. Isto leva no entanto a que haja mais machos do que fêmeas na população, o que por sua vez faz com que haja mais competição entre machos, fazendo com que estes “pensem” menos na hora de escolher uma “fêmea”, e diminuindo o efeito da aprendizagem.

É doentio! Mas, extremamente belo: “Orchids exhibit an almost endless diversity of beautiful adaptations.” ***
* Gaskett, AC, Winnick, CG, Herberstein, ME; 2008; Orchid Sexual Deceit Provokes Ejaculation; The American Naturalist 171(6) pp. E206-E212

** A não ser que exista algo terrivelmente errado nos textos da wikipedia, irei usar frequentemente os links do site em português (ou inglês), para que os leitores possam clarificar alguns termos.

*** Darwin, C. (1862). On the various contrivances by which British and foreign orchids are fertilised by insects, and on the good effects of intercrossing (London: J. Murray).

Publicado por Ricardo Ramiro

127 anos da morte de Darwin

Enterro de Darwin
Tendemos a fazer celebrações quando as efemérides calham em números “redondos”, como 10, 20, 25, 50, 100, 150 anos. (Num aparte, seria interessante entender por que estes números são mais “redondos” do que 69 que, conotações sexuais à parte, me parece muito “redondo”.) Assim, e como é sabido pelos leitores deste blog, este ano comemora-se os bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação da «Origem das Espécies». No passado dia 19 de Abril, passaram 127 anos desde a morte de Darwin, em 1882. Não será número redondo, mas estando nós este ano a celebrar a vida e obra de Darwin, parece-me apropriado assinalar a data. Recordo que depois de toda a controvérsia em torno das suas ideias, Darwin foi enterrado numa cerimónia de Estado em Westminister Abbey, perto de Issac Newton, sendo apenas uma das cinco pessoas não membros da família real a receber tal honra no século XIX. Reproduzo abaixo o obituário de Darwin escrito por Thomas Henry Huxley, seu amigo, admirador e defensor público (o “bulldogue” de Darwin”), mas também o seu crítico no seio da ciência (e.g., Huxley atribuía pouca importância ao mecanismo de selecção natural). O texto foi originalmente publicado na revista Nature, 27 de Abril de 1882.

Muitos poucos, mesmo entre aqueles que tiveram o maior interesse no progresso da revolução do conhecimento natural lançado pela publicação da «Origem das Espécies»; e que têm assistido, não sem admiração, a mudança rápida e completa que ocorreu tanto dentro como fora das fronteiras do mundo científico na atitude das mentes humanas perante as doutrinas expostas nessa grande obra, poderiam estar preparados para a extraordinária manifestação de respeito e afecto para o homem, e de profunda reverência pelo filósofo, que se seguiu ao anúncio, na passada quinta feira, da morte do Sr. Darwin.
Não apenas nestas ilhas, onde tantos sentiram o fascínio do contacto pessoal com um intelecto que não tinha superior, e com um carácter que era ainda mais nobre que o seu intelecto; mas, em todas as partes do mundo civilizado, parece que todos cujo trabalho é tomar o pulso das nações e saber quais os interesses das massas da humanidade, estavam bem cientes que milhares do seus leitores pensariam o mundo mais pobre após a morte de Darwin, e pensariam com ávido interesse sobre cada incidente da sua história. Na França, na Alemanha, na Austro-Hungria, na Itália, nos Estados Unidos, escritores de todo o espectro de opinião, por uma vez unânimes, prestaram de bom grado o seu tributo ao valor no nosso grande conterrâneo, ignorado em vida pelos representantes oficiais do reino, mas enterrado em morte entre os seus pares em Westminister Abbery por vontade da inteligência da nação. Não nos cabe a nós aludir aos sagrados lamentos da casa em luto em Down; mas não é nenhum segredo que, fora do grupo doméstico, existem muitos para os quais a morte do Sr. Darwin é uma perda inteiramente irreparável. Isto não apenas devido à sua natureza admiravelmente genial, simples e generosa; a sua conversa alegre e animada, e a infinita variedade e precisão da sua informação; mas porque quanto mais conhecíamos dele, mais ele aparentava incorporar o ideal do homem de ciência. Incisivos eram os seus poderes de raciocínio, vasto era o seu conhecimento, maravilhoso era a sua tenacidade imparável, sob dificuldades físicas que haveriam convertido nove em cada dez homens em inválidos desnorteados; não era estas qualidades, por grandes que fossem, que mais impressionavam aqueles que eram admitidos na sua intimidade com veneração involuntária, mas uma certa intensa e apaixonada honestidade que irradiava de todos os seus pensamentos e acções, como que através de um fogo central.
Era este mais raro e grandioso dom que mantinha a sua imaginação e grande poder especulativo dentro dos devidos limites; que o compelia a desenvolver trabalhos prodigiosos de investigação original e leitura, sobre os quais se baseiam os seus trabalhos publicados, que o fazia aceitar críticas e sugestões de qualquer um, não apenas sem impaciência, mas com expressões de gratidão e por vezes quais cómicas na sua excessiva valorização; o que o leva a impedir que nem ele nem outros fossem enganados por frases e não poupando tempo nem esforço por forma a obter ideias claras e distintas sobre cada tópico sobre o qual se ocupava.
Não era possível falar com Darwin sem ser lembrado de Sócrates. Havia o mesmo desejo de encontrar alguém mais sábio que ele próprio; a mesma crença na soberania da razão; o mesmo humor; o mesmo interesse simpático em todos os modos e trabalhos do homem. Mas em vez de voltar as costas aos problemas da natureza desesperadamente insolúveis, o nosso moderno filósofo dedicou a sua vida inteira a atacá-los com o espírito de Heraclíto e de Demócrito, com resultados que são a substância do qual as suas especulações eram as sombras antecipatórias.
O devido apreço ou até enumeração destes resultados não é praticável nem desejável neste momento. Há um momento para tudo – um tempo para glorificar as crescentes conquistas sobre o reino da natureza, e um tempo de luto pelos heróis que nos têm conduzido à vitória. Ninguém lutou melhor, e ninguém foi mais afortunado que Charles Darwin. Ele encontrou a grade verdade, espezinhado, vilificado por intolerantes, e ridicularizado por todo o mundo; ele viveu o suficiente para vê-la, sobretudo pelos seus esforços, irrefutavelmente estabelecida na ciência, inseparavelmente incorporada nos entre os pensamentos comuns do homem, e apenas odiado e atemorizado por aqueles que o vilificariam, mas não se atrevem. Que mais pode um homem desejar do que isto?
Mais uma vez a imagem de Sócrates emerge, e a nobre peroração da “Apologia” soa nos nossos ouvidos como se fosse a despedida de Charles Darwin :—
“A hora da nossa despedida chegou, e temos de ir em caminhos separados — eu para morrer e vocês para viver. Qual o melhor, apenas Deus sabe.”
T. H. HUXLEY

Publicado por André Levy