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Ciência: o que mais?

“Science: What else?“ foi um encontro de comunicadores de ciência e um ciclo de conversas e debates sobre ciência, promovido pela Universidade do Porto (UP), e divulgado anteriormente aqui no blog

Entre quinta e sexta feira (dias 26 e 27), encontraram-se temas em debate com paineís pluridisciplinares e abertos a todos os interessados na comunicação e divulgação de ciência. Nas belas tardes que se fizeram de sol e gente nova pelos jardins do Palácio de Cristal, houve sempre uma plateia activa no auditório da Biblioteca Almeida Garret. Os participantes foram activos, mas em número ficaram “aquém das expectativas”, assim Paulo Gusmão, da Organização, o exprimiu ao Jornalismo Porto Net. Os temas em discussão foram:

Políticas de Comunicação de Ciência, Ciência e Media e Experiências de Comunicação de Ciência.

 

© Nature Publishing group, Galbraith O'Leary
The Wonder Book of Science, 1922, © Nature Publishing group, Galbraith O’Leary

O “Science: What else?” foi a grande novidade da 7.ª Mostra de Ciência e Tecnologia da UP. A Mostra estabelecida no Pavilhão Rosa Mota ofereceu um amplo mercado de profissões e do conhecimento por onde passaram cerca de catorze mil visitantes, na sua maioria estudantes. Nos diversos stands de Faculdades e Grupos da UP, mais do que uma exposição informativa, foram oferecidas experiências interactivas que envolveram activamente os interessados. Tal como definiu o vice-reitor da UP, António Marques, tudo para a “promoção e divulgação de uma cultura científica “.


Publicado por João Cão

Ciência e Media em discussão no Porto

The Wonder Book of Science, 1922, © Nature Publishing group, Galbraith O'LearyNa tarde do dia 26 de Março esteve em discussão aberta o tema Ciência e Media, no auditório da Biblioteca Almeida Garret, integrada no Encontro “Science: What else?”. O painel foi moderado pelo Professor Manuel Sobrinho Simões (FMUP, IPATIMUP) e contou com a presença dos jornalistas de ciência Vasco Trigo (RTP), Andrea Cunha Freitas (Público e Associação de Repórteres de Ciência e Ambiente), Virgílio de Azevedo (Expresso) e Helena Mendonça (Diário de Notícias).

As comunicações e debate reflectiram as diferentes tensões entre quem faz ciência e quem a reporta, a evolução desta relação e os desafios que se colocam. Como dizia Vasco Trigo, “o cientista está ligado ao conteúdo e o jornalista à forma”. Ao ir ao encontro de um cientista, o jornalista tem que decifrar a informação em função do interesse público e do tempo ou espaço disponível. Contudo, “há um grande esforço do cientista em ir ao encontro da notícia”, afirma Helena Mendonça. A revelação vem pelos resultados da sua tese de mestrado, publicada em 2006, que analisa o processo entre a interacção jornalista-cientista até à notícia escrita. Para os cientistas, “o desejo de aproximação aos media é tal que tendem mesmo a tolerar certas abordagens sensacionalistas e determinados lapsos encontrados nas notícias“. Mas, no fim, ambas as partes “mostram satisfação com os resultados”. Afinal, “cientistas e media sustentam-se em valores idênticos – como a objectividade, a verdade e a autonomia”.

Apesar da aproximação entre os dois campos, Vasco Trigo alerta: “a ciência está a desaparecer da comunicação de prime-time” na TV. E, simultaneamente, temos a “tabloidização dos jornais portugueses”, afirma Sobrinho Simões. A função pública dos media generalistas como educadores está a desaparecer. Quando temas complexos como o Aquecimento global e a Energia Nuclear são abordados, são comuns os argumentos afectivos e convicções dominantes. “É necessário que a ciência invada o ambiente”, defende Virgílio Azevedo. Mas, com a dimensão impressionante de informação científica, serão as redacções capazes de enfrentar o desafio?

“A comunicação científica precisa de ser exemplar!”, sublinha Sobrinho Simões. Poderão os mediadores entre os cientistas e os jornalistas ser uma peça importante deste puzzle? Assessores de imprensa, comunicadores e outros têm “um percurso profissional normalmente diferente dos jornalistas”, diz Virgílio Azevedo. Andrea Cunha Freitas realça que cada um tem os seus interesses mas sublinha a importância dos assessores como ferramenta de trabalho. Vasco Trigo não recomenda o uso de gabinetes externos de comunicação, tal como já tinha advertido recentemente na Conferência Parlamentar sobre Ciência.

De qualquer forma, todas as redacções reconhecem a importância das suas redes de contactos, especialistas crediveís que confirmam factos e agem como fontes exclusivas. Uma evolução que é capaz de perturbar este equilíbrio é o openspace científico, com os “jornais sem revisão de pares que começam a aparecer”. “É apetecível ter veículos rápidos”, reflecte Sobrinho Simões. Contudo, é opinião unânime o perigo em termos de credibilidade que se coloca caso o “mercado do conhecimento” evolua neste sentido…

O futuro passa pelo desenvolvimento de parcerias, que envolvam indivíduos e instituições. Relações honestas de confiança entre diferentes actores em rede. Antigamente, conforme explica Helena Mendonça, o jornalista ia sempre para a rua, directo para os cidadãos. Hoje procura cada vez mais perceber os fenómenos junto de analistas e cientistas. O sentido natural da evolução, qualquer que seja o rumo, será usar a ciência para interpretar a realidade. “O meu sonho”, finaliza Sobrinho Simões, “é que um dia todos sejam capazes de ler um horário de autocarros”.

Publicado por João Cão

Experiências de Comunicação de Ciência em discussão no Porto

The Wonder Book of Science, 1922, © Nature Publishing group, Galbraith O'LearyNa tarde de sexta-feira, dia 27, um painel grande e interventivo fechou o encontro de comunicadores de ciência “Science: what else?”. Segundo o tema Experiências de Comunicação de Ciência, os participantes foram: Júlio Santos do gabinete de comunicação científica do IBMC/INEB do Porto; Filipe Pires do Centro de Astrofísica da UP; António Gomes da Costa do Pavilhão do Conhecimento, Centro Ciência Viva de Lisboa; Carlos Soares do Visionarium, Centro Ciência Viva de Santa Maria da Feira; Filipe Ressureição da Escola Secundária de Arouca e José Azevedo, sociólogo da FEUP. A moderadora foi Sandra Inês Cruz da RTP.

Das diferentes experiências emergiram tópicos de discussão sobre estratégias e finalidade da comunicação de ciência, a literacia (ou falta dela) em Portugal e sobre o perfil profissional do comunicador de ciência.

Centro Ciência não é local de ensino

Os Centros Ciência Viva e a sua filosofia de funcionamento estiveram em destaque. O Pavilhão do Conhecimento e o Visionarium têm, respectivamente, cerca de 250’000 e 100’000 visitantes por ano, na sua maioria estudantes do Ensino Básico e Secundário em visitas guiadas. Carlos Soares, do Centro Ciência “onde o futuro é uma peça de museu” diz que os Centros Ciência têm como objectivo o “despertar de vocações”, opinião partilhada por António Gomes da Costa. Segundo o director executivo do Pavilhão do Conhecimento, “ensinar ciência não acontece num Science Center” . Os visitantes têm, sim, oportunidade de ganhar familiaridade e verificar a utilidade da ciência. A aprendizagem em si fica remetida para a escola.

Nesta discussão sobre onde fica a fronteira entre comunicação e ensino de ciência foi importante a presença do professor Filipe Ressureição. A sua apresentação encheu-se de emoção ao descrever a evolução do seu grupo em oito anos. No princípio, uma sala e uma arrecadação e falta de equipamento. Hoje, os jovens do 10.º ao 12.º ano da Vila de Arouca têm oportunidade de ser envolvidos em investigação científica de excelência (conforme reporta aqui o Ciência Hoje).
O professor descreveu um percurso sinuoso à procura de novos financiamentos, como o da Agência Ciência Viva. A experiência do Professor de Arouca motiva-o a ser crítico dos Centros Ciência portugueses. “O meu problema é com o modelo de módulos disparatamente caros sem rentabilidade”, acrescentou.

Críticas à Ciência Viva

Apesar desta intervenção, a falta de sustentabilidade económica dos Centros Ciência não foi discutida. A referência indirecta ao tema veio quando se falou do voluntariado. Gomes da Costa explicou, desde logo, um princípio básico do voluntariado, que “os voluntários não vêm substituir o trabalho pago” e elogiou os seus voluntários séniores “aproveitados como comunicadores”. Carlos Soares sublinhou a dedicação dos voluntários que fazem parte do Visionarium e a representante do Jardim de Botânico de Lisboa expôs a estratégia equilibrada e elegante para integrar e motivar estudantes e voluntários no dia-a-dia de “um paraíso no coração da cidade”.
Outra crítica dirigida à Ciência Viva foi proferida pelo investigador José Azevedo, que afirmou que a Agência “não se preocupa com a divulgação de resultados, criação de redes” e falha no processo de avaliação. Gomes da Costa, como membro da direcção da Ciência Viva, reconheceu a crítica e referiu “várias tentativas de fazer essa avaliação”. O Fórum Ciência Viva foi criado também na perspectiva de “mostrar exemplos de boas dinâmicas e criar uma rede”, justificou ainda.

Cultura Científica

O sociólogo José Azevedo abordou a cultura científica na sociedade. Segundo um estudo comparativo publicado em 2007 (aqui acessível em inglês), há uma falta de estudantes que queiram seguir uma carreira científica nos países desenvolvidos. O paradoxo elevado a “preocupação política” é que “os inquiridos têm a noção da importância da ciência para a sociedade mas não o querem para si”.
Júlio Santos também promove uma cidadania activa no laboratório associado IBMC/INEB, com cerca de 2’000 alunos por ano a tomar parte das actividades promovidas. A falta de alunos interessados na carreira científica é preocupante, contudo desabafa: “enganar meninos é o que eu não quero”. A promoção do imaginário de ficção científica CSI “não contribui para a cultura científica”, defende.
Esta carência de cultura de ciência está presente “a todos os niveís” afirma o Presidente do Visionarium. Mas qual a solução? A comunicação de ciência “tem que se tornar mais disponível para discutir com o público”, defende o sociólogo. É necessário “criar uma perspectiva de criação de hierarquia horizontal” com o público.
Pragmaticamente, quais as iniciativas a desenvolver? Segundo Azevedo, temos que fomentar uma cultura de avaliação, para permitir uma melhoria nas iniciativas e envolver os novos media na criação de redes. E é importante ter espaços onde pessoas sem formação específica possam intervir e partilhar ciência.
O Centro Ciência pode ser este espaço de partilha, uma “arena óptima” para intervenção social. O Pavilhão do Conhecimento tem promovido estas estruturas não-formais de ciência, com workshops com participantes dos 14 aos 68 anos. Contudo, Gomes da Costa verifica “a dificuldade em criar espaços de discussão que envolvam adultos”.
Realmente, conforme realçou o cientista José Azevedo, preocupam socialmente os adultos e pais com resistência à educação científica. Neste sentido, é importante ter “profissionais de comunicação com formação científica”.

Acreditas no El Dorado?

O perfil do comunicador de ciência foi um último ponto de discórdia nos últimos minutos do “Science: what else?”. Por um lado, foi defendida a criação de uma via de especialização em jornalismo científico. Por outro, conforme afirmou veementemente a moderadora Sandra Cruz, acreditar nas especializações de ciência é “acreditar no El Dorado”. O mercado profissional está saturado, o desemprego abunda e há uma sobrecarga de especializações. Será que há colocações para estes profissionais? Talvez Portugal não esteja assim tão mal cotado na aldeia global. Afinal a ciência e o jornalismo científico de excelência já existem por cá.

Publicado por João Cão