Tag Archives: Mostra de Ciencia e Cinema 2009

Crónicas da Corunha (1): A editora de livros de ciência que se atreve a perguntar “por que não?”

Pormenor da Domus (la Casa del hombre), um dos Museus de Ciência da Corunha. Foto: Joana Barros

A Mostra de Ciencia e Cinema da Corunha vai na III Edição (termina amanhã, 30 de Outubro) e é uma verdadeira montra do dinamismo que se concentra à volta da divulgação científica nesta cidade galega. Exemplos disso são os três (!) Museus de Ciência que a cidade possui, das quais já vos falei no ano passado.

Mas as surpresas não ficam por aqui. Na edição deste ano ficámos a conhecer melhor Julio Casal, economista de formação e profissão (a “ciência obscura”, como ele diz ser costume catalogá-la), e um profundo apaixonado pela ciência em geral, abraçando por isso a Asociación de Amigos da Casa das Ciências e as exigências da organização da Mostra.

Elementos que, por si só, já dariam uma boa história. Mas a que vos quero contar aqui é outra: Julio, que não se cansa de questionar o mundo, é o criador (2007) da editora de divulgação científica “le pourquoi-pas?” (por que não?), sediada, lá está, na Corunha.

A le pourquoi-pas? coloca no mercado uma “colecção de volumes de divulgação científica escritos por autores espanhóis de reconhecido prestígio”, como são os casos de Ramón Núñez, director do Museo Nacional de Ciencia y Tecnologia, Manuel Toharia e Miguel Barral.

Uma série de livros que tem como objectivo “dar respostas a questões da actualidade sob um ponto de vista da ciência mas também do censo comum”, com um estilo “multidisciplinar que demonstre as inesgotáveis conexões que [a ciência] tem com outros âmbitos”.

Julio Casal até nem precisava de ser economista para perceber que um negócio destes assenta mais numa ideia romântica e numa vontade de servir o público do que numa real possibilidade de lucro. Mas, com a sua iniciativa, garante mais ‘três pontos’ de admiração para o impressionante ‘Deportivo Cientifico de La Coruña’ (para que não suscite dúvidas: a expressão é mesmo invenção minha).

Porquê o nome “le pourquoi-pas?”? Julio conta aqui a história melhor que eu o faria.

Publicado por Sílvio Mendes

Vê-se à segunda (12): Naturally Obsessed, vida intensa num laboratório de biologia estrutural


Humor, drama e um profundo realismo na descrição da vida de um investigador em laboratório, tal como ela é. Naturally Obsessed (2009), de Richard Rifkind e Carole Rifkind, acompanha a carreira de três jovens investigadores que procuram descobrir os mecanismos que controlam o apetite no corpo humano.

O filme foi um dos vencedores da Mostra de Ciência e Cinema da Corunha 2009 e foi seleccionado para o Atlanta Film Festival 2009, o International Science Film Festival (Atenas, 2009) e o 2009 World Science Festival (Nova Iorque). Está agora disponível on-line (na íntegra) e é de visionamento obrigatório.

Trailer:

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Publicado por Sílvio Mendes

Cinema e Ciência na Corunha (3): Três, de Museus de Ciência

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Exposição "Hominídios e Hominidas", no Domus.

 A probabilidade de encontrarmos três Museus de Ciência numa cidade “periférica” (os galegos há-de desculpar-me o termo) com cerca de 250 mil habitantes é, certamente, muito baixa. Mas aceitemos um exercício: personifiquemos as probabilidades (de acordo com as suas especificidades). Necessitam, certamente, de uma casa e esta vive na Corunha. E atenção: cruzando as palavras “Museu” e “Corunha”, é possível fazer trocadilhos com isto: (=mc2). Ainda que sejam três – os museus – Einstein de certeza que não se importará. (=mc2) é mesmo o logótipo perfeito usado para promover esta trilogia.

Na Casa de las Ciencias, primeiro a ser construído, pode ser apreciado um planetário digital e o pêndulo de Foucoult. É o refúgio da física e da astronomia. No Acuario Finisterrae quem manda são as espécies marinhas, com especial destaque para as da costa galega. O Aquário cumpre a sua missão e mete água por todo o lado: 4,4 milhões de litros. E no Domus (la Casa del hombre) é apresentada a espécie humana em toda a sua dimensão, numa reflexão interactiva que permite ao visitante conhecer melhor as suas origens, a evolução histórica e as características específicas do ser humano.

Para ajudar na gestão e manutenção destes museus, existe a Asociación de Amigos de la Casa de las Ciencias, responsável também pelo Prémio Luis Freire, que promove anualmente a criatividade científica junto do público escolar e pelo Dia de la Ciencia en la Calle, festival que, no primeiro sábado de Maio de cada ano, enche as ruas da Corunha com milhares de curiosos em torno de actividades de experimentação e divulgação de ciência.

E para quê tudo isto? O website dos Museus resume esta vocação da seguinte forma: «Sin ciencia no hay cultura y que, por lo tanto, el analfabetismo científico es pura y sencillamente analfabetismo». Alguém já viu uma cidade assim?

Publicado por Sílvio Mendes

Cinema e Ciência na Corunha (2): A ciência da poesia

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Rosalía de Castro, grande poeta galega do séc. XIX

«A universalidade é um local sem paredes». Isso: Miguel Torga, bem português, também foi mencionado na noite de terça-feira, que a II Edição da Mostra de Ciencia e Cinema da Corunha dedicou à poesia. Intercalada por uma onírica actuação musical de Gaudi Galego, Guilhermo Fernández e Xabier Díaz – na retina fica o ajustadíssimo refrão de uma das canções: «Eu, astronauta lírico em terra/ indo ao teu lado, leve, pensativo» -, o recital “Poesia + Ciencia” fez a justa ponte de beleza entre as duas “artes”.

Os nomes, dos autores dos textos, não consegui fixar, nem estou certo que as frases, a métrica e lágrima tenham sido mesmo as que aqui apresento, mas aqui ficam misturadas pela universalidade e o anonimato. Porque «a arte, a filosofia e a ciência são cordas da mesma harpa». E, se a poesia é «o maior milagre do mundo», também Einstein terá tido como maior pretensão «cavar uma teoria elegante».  «Não somos mais que uma gota de luz», alguém recita. E aí vem a montanha russa da História, pela mão de Sófocles: «No Universo há muitas coisas estranhas, mas a mais estranha é o ser humano».

No palco do belo Teatro Rosalía de Castro estiveram os poetas galegos Marica Campo, Emma Couceiro, Estibaliz Espinosa, Alfredo Ferreiro, Manuel Rivas e Xavier Seoane. Lucía Aldao apresentou a sessão.

Mais: Mostra de Cinema e Ciencia 2009

Publicado por Sílvio Mendes

Cinema e Ciência na Corunha (1): O dia de Barbara Hammer

Lover%20Other_0002Barbara Hammer é uma verdadeira sobrevivente – do cinema experimental, que diz correr sérios riscos de extinção (por culpa do “novo mundo da desordem”) e do cancro nos ovários que, recentemente, colocou a sua vida em risco. Sobreviveu à doença e colocou a sua experiência na tela com assombrosa beleza, num imprevisível diário autobiográfico registado durante o processo de tratamento de uma doença oncológica. “A horse is not a metaphor” (2008) já foi exibido duas vezes na Corunha e é um dos grandes filmes propostos pela Mostra de Cinema e Ciencia, em curso na cidade até dia 31 de Outubro. Sobreviverá também no cinema.

A realizadora marcou, ontem, presença na Galiza, conduzindo uma conferência intitulada “A ciência nos filmes experimentais de Barbara Hammer”. Sem que tenha sido um exercício consciente – «nunca pensei muito em ciência para os meus filmes, tenho que confessar, mas apercebi-me que há, de facto, muitos temas de ciência neles», admitiu – a sua longa carreira no mundo do cinema experimental já a levou a abordar um considerável leque de questões científicas. Animais e questões sociológicas nos Galápagos, os mistérios dos Tempo e o corpo humano são alguns dos temas que foram despertando a sua curiosidade. E Hammer tem o dom de a partilhar com fascínio e lucidez e de tornar ainda mais especial aquele que era, provavelmente, o momento mais aguardado da Mostra.

Filmes da realizadora mencionados na palestra:

Endangered (1988)
Pond and waterfall (1982)
Bent Time (1983)
Dr. Watson’s X-rays (1991)
A horse is not a metaphor (2008)

Mais: Mostra de Cinema e Ciencia 2009

 

Publicado por Sílvio Mendes