Aquivos por Autor: andrelevy

Peixe Lázaro


Louis Agassiz descreveu um fóssil de Celacanto (em referências aos raios ocos da cauda) em 1839, reconhecendo tratar-se de um sarcopterígio, peixes de barbatanas lobadas, juntamente com os peixes pulmonados (os dipnóicos) e os tetrápodes. Nos cem anos que se lhe seguiram foram encontrados mais de cem fósseis de celacanto. Era assumido que o peixe estava extinto desde o final do Cretácico (aproximadamente 65 Milhões de anos [Ma]).  Foi portanto uma grande surpresa quando, em 1938, entre a apanha de um pescador local, na costa este da África do Sul, uma curadora de museu, Majorie Courtenay-Latimer, identificou um espécimen vivo de celacanto (que passou a assumir o nome Latimeria chalumnae). Por se ter pensado extinto, e ter sido descoberto como ainda existente, o celacanto é um dos melhores exemplos de taxon Lázaro.
Igualmente surpreendente: o espécimen vivo era quase idêntico às formas fósseis com mais de 65 Ma, isto é, era como se esta linhagem não tivesse evoluído durante todo esse tempo. Especímenes  foram entretanto encontrados na costa oriental Africana, chegando ao Quénia.

Nova surpresa sucedeu em 1997. Mark Erdmann encontrava-se na Indonésia na sua lua de mel, com a sua esposa Arnaz. Durante a passagem pelo mercado, Arnaz notou um peixe de enorme tamanho e aspecto peculiar a ser transportado numa carroça. Erdmann reconheceu de imediato o peixe, fotografou-o, mas este foi comprado por outro cliente, antes que ele o pudesse adquirir. Erdmann voltou meses mais tarde de Menado, na Sulawesi Norte, e depois de entrevistar mais de 200 pescadores, encontrou uns que ocasionalmente viam a raja laut (“O rei do mar”). Em 1998, Erdmann conseguiu finalmente pescar um segundo celacanto da Sulawesi. Uma equipa Indonésia e Francesa (liderada por Laurent Pouyaud) descreveu o espécimen como uma nova espécie de celacanto, Latimeria menadoensis.

Mais de 70 anos depois da redescoberta do celacanto, uma nova descoberta foi anunciada no Journal of Vertebrate Paleontology. Foi descrito um fóssil de celacanto, na Columbia Britânica (Canada) do género Rebellatrix, com cerca de 240 Ma, que se distingue pela barbatana caudal bifurcada (como um atum). Tal contrasta com os celacantos vivos, que têm uma barbatana caudal larga e tri-lobada, sendo animais de movimento lento. O Rebellatrix era provavelmente capaz de movimentos rápidos, típicos de um predador, como um tubarão.

Publicado por André Levy

Domesticação do Gado Bovino (1)

A vaca, o touro e o boi –macho castrado– pertencem à espécie Bos taurus, uma das espécies bovinas domesticadas com sucesso, e aquela que presentemente se encontra mais distribuída pelo mundo e tem maior importância económica. Inicialmente terá sido usada como fonte de leite e animal de carga e transporte, sendo apenas usada como fonte de carne (e couro) após o seu falecimento. O aproveitamento do animal é extenso, chegando-se a aproveitar os pêlos das orelhas para pincéis especializados.

Pensa-se que descende do auroque (Bos primigenius), um bovino extinto no século XVII que se encontrava distribuído na Euroásia e norte de África. A domesticação terá ocorrido no Médio Oriente, há cerca de 10 mil anos. Neste momento, existem mais de 800 raças desta espécie, fruto da domesticação, especializadas para diferentes funções (por exemplo, produção de leite ou carne) ou mais bem adaptadas para diferentes climas.

Macho adulto da raça Ramo Grande, raça autóctone da ilha Terceira, Açores (Feira Agrícola 2010, Angra do Heroísmo.

Entre estas existem 11 raças autóctones portuguesas, muitas das quais estão extintas ou em extinção, fruto da globalização e favorecimento de raças mais produtivas.

Um estudo, publicado este mês na revista Molecular Biology and Evolution (doi: 10.1093/molbev/mss092; ver resumo aqui), de Ruth Bollongino e colaboradores, analisou DNA de espécimenes actuais e DNA extraído dos ossos de 15 indivíduos de gado domesticado do Irão, datado do Neolítico à Idade do Ferro. Concluíram que a população de auroques inicialmente domesticada teria sido constituída por apenas 80 fêmeas. O número relativamente reduzido é consistente com dados arqueológicos que indicam que a domesticação inicial teve lugar numa região restrita e que o processo de domesticação e gestão sustentada dos ancestrais selvagens terá sido difícil.

Publicado por André Levy

Domesticação animal

Gostaria com este ensaio dar inicio a uma série sobre plantas e animais domesticados, sua origem e história, suas variedades, e sua importância na história humana. Havendo que começar por alguma ponta, inicio com o universo mais restrito dos animais domesticados.

Antes de tratar de qualquer espécie em particular, a frase anterior sugere a pergunta: porquê a nossa espécie domesticou um número relativamente pequeno de espécies? Jared Diamond, no seu livro «Armas, Germes e Aço», no qual aborda factores ecológicos que possam ter dado vantagem histórica a umas civilizações versus outras, aborda precisamente esta questão. Por domesticação considera-se não o mero amansar de alguns indivíduos ou a manutenção em cativeiro de animais capturados, mas a criação de gerações consecutivas e a eventual selecção de características desejáveis.

Ele considera o conjunto de mamíferos herbívoros ou omnívoros, com peso médio superior a 45 kg, disponíveis para domesticação pelos humanos. Estas condições restringem o conjunto a 148 espécies candidatas. A sua maioria localiza-se na Euroásia (72), seguido pela África subsariana (51), Américas (24) e Austrália (apenas o Canguru-vermelho). Estes números reflectem a perda por extinção de espécies, particularmente nas Américas e Austrália, correlacionadas com a colonização pela nossa espécie, e as áreas relativas e diversidade ecológica.

O elande, gunga ou cefo (Taurotragus oryx), bovídeo Africano.

Diamond assinala como deste conjunto de 148 espécies apenas 14 foram domesticadas com sucesso, a sua maioria na Eurásia (13) e uma nas Américas (a lama). Nenhum dos mamíferos na África subsariana ou Austrália foram domesticados. Tal não se deveu à falta de tentativas, incluindo modernas, como a falta de sucesso de domesticar o elande em África, que dada a sua resistência às doenças locais e tolerância ao clima traria vantagens face às espécies originárias da Eurásia.

Diamond reparte as 14 espécies entre as 5 principais (ovelha, cabra, vaca, porco e cavalo), que são criadas por grande parte do mundo, e as nove menores, mais restritas em distribuição (duas espécies de camelo – de uma e duas bossas, lama, burro, rena, e quatro espécies de bovino: búfalo-asiático, iaque, banteng, e gauro).

Diamond aponta um conjunto de condições necessárias à domesticação que permitiram a domesticação destas 14 espécies, e o falhanço entre os restantes candidatos:

1) uma dieta pouco específica e economicamente viável;
2) uma taxa de crescimento individual e populacional relativamente rápida;
3) condições de acasalamento simples e pouco exigentes;
4) disposição amena;
5) baixo nível de nervosismo;
6) estrutura social de dominância hierárquica (de forma a que o domesticador humano possa ocupar a posição de alfa).

Publicado por André Levy

Dia Darwin

Darwin em 1874, foto de Leonard Darwin

Assinala-se hoje o nascimento de Charles Robert Darwin (1809-1882). Um naturalista exímio – descreveu novas espécies actuais e fósseis, e previu a existência de um polinizador para uma orquídea com um nectário invulgarmente comprido –, um sistemata atencioso – 8 anos a compilar a taxonomia de referências dos Cirripedia (cracas) –, experimentalista paciente – 30 anos a estudar o desenvolvimento do solo e biótico em torno de uma pesada pedra circular – Darwin seria um biólogo no cânone da história apenas por estas razões. Embora não tenha sido o primeiro a propor a ideia de evolução biológica – foi precedido por Lamarck, Erasmus Darwin, Robert Chambers, entre outros –, Darwin foi o pensador que mais convincentemente expôs variados elementos a favor da evolução – paleontologia, biogeografia, anatomia comparada, órgãos vestigiais, etc – e, usando a analogia com a domesticação, avançou um mecanismo natural capaz de explicar as adaptações dos seres vivos: a selecção natural. O seu trabalho constitui a base da moderna Teoria de Evolução, uma área de activa investigação e crescente importância para diferentes áreas de actividade (e.g., saúde, economia, conservação), e fonte de inspiração para novas áreas de investigação fora da biologia (e.g., nas ciências da computação, na economia).

Sinal da importância e atractividade da vida e obra de Darwin, a exposição “A Evolução de Darwin”, organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, teve mais de 200 mil visitantes em Lisboa – a exposição da Gulbenkian com maior número de visitantes. Após a sua presença em Lisboa, esta exposição passou por várias cidades europeias, tendo regressado a Portugal, nas instalações da antiga casa da Sofia de Mello Breyner, no Porto. O plano original previa a constituição de um museu da ciência em Oeiras, mas disputas entre a FCG e a CM Oeiras estão infelizmente a por em dúvida esse futuro. [ver]
Em Portugal, a área de Biologia Evolutiva tem vindo a expandir-se, com um número crescente de investigadores e laboratórios a trabalhar na área, e um número significativo de publicações. Desde 2005, os biólogos evolutivos portugueses (trabalhando em Portugal e no estrangeiro) têm realizado encontros anuais, fomentando a formação de uma efectiva comunidade científica. Fruto deste processo, em Dezembro de 2011, fundou-se a Associação Portuguesa de Biologia Evolutiva (APBE), que tem como missões:
a) promover o conhecimento e divulgação de conhecimentos na área da Biologia Evolutiva;
b) fomentar o intercâmbio nacional e internacional no domínio da investigação e ensino na Biologia Evolutiva;
c) colaborar com quaisquer entidades, oficiais ou privadas, nacionais, estrangeiras ou internacionais, no campo das suas competências técnicas e científicas.

Publicado por André Levy

A língua da Ciência

Não sei quão alastrada é esta opinião, mas já a tenho ouvido por parte de vários cientistas: “a ciência faz-se em Inglês”. Creio que há aqui uma confusão, grave, entre a língua franca na comunidade científica actual e a língua em que a ciência se faz. De facto, hoje para se publicar numa revista indexada, prestigiada, lida por outros membros da comunidade internacional; para se fazer uma apresentação nos congressos internacionais relevantes; para acompanhar a literatura especializada, i.e., para se fazer curriculum, há que ler e escrever em Inglês. Há vários exemplos de livros pivôs que não tendo sido originalmente publicados em inglês foram por isso desconhecidos pela generalidade da comunidade científica internacional, e só mais tarde “descobertos”. Na Geologia, há o caso do livro de Alfred Wegener, Die Entstehung der Kontinente und Ozeane, que lançou os fundamentos da tectónica de placas. Na Biologia, há o caso de Willi Henning, o pai da cladistica moderna, que escreveu fundamentalmente em alemão. Podemos até recuar até mais tarde, para uma época em que o Inglês ainda não era a língua franca que é presentemente: a obra de Gregor Mendel sobre genética, Verhandlungen des naturforschenden Vereins Brünn, publicada em 1866, só foi redescoberta no início do século XX, tendo eventualmente a sua língua original contribuído para a sua obscuridade.

Mas a ciência não se faz em qualquer língua específica, melhor faz-se em qualquer língua. Não é a língua usada que faz com que seja ciência. Aliás, a história demonstra que já existiram até várias línguas francas científicas, sendo o Latim o caso mais óbvio. Mas dependendo da área científica, o francês e o alemão já constituíram línguas francas. Um zoólogo vez-se aflito se não souber alemão para aceder a discrição original de muitas espécies. Aliás, por essa razão, no meu programa doutoral, nos EUA, um dos requerimento era um domínio mínimo de uma língua diferente do Inglês. (E os meus exemplos restringem-se à minha área, a Biologia, mas haverão certamente casos noutras línguas.)

Não pretendo refutar as vantagens de existir uma língua franca, embora isso crie desigualdades. Um investigador, que tendo todo o mérito enquanto cientista, pode ver as portas da comunidade científica semi-cerradas por falta de um domínio da língua franca. Os revisores das revistas científicas são, infelizmente, um pouco snobs a este respeito. Eu próprio, que sou bilingue e posso, com humildade, dizer que domino o Inglês, já recebi a sugestão de um revisor para ter o meu manuscrito revisto por alguém cuja primeira língua fosse o Inglês, opinião meramente sustentada no facto da minha instituição ser Portuguesa, e não na qualidade da minha prosa em Inglês, garanto-vos.

Levanto esta questão sobretudo porque comunicar ciência não se resume a comunicar no interior da comunidade cientifica. Os jornalistas das secções de ciência escrevem na língua do seu país. Os professores no básico e secundário ensinam nas suas línguas nacionais. Muitas vezes recorrem a estrangeirismos ou (más) traduções, porque desconhecem (ou não existem) termos nas suas línguas nacionais para termos que encontram na literatura científica em Inglês. É responsabilidade das comunidades nacionais desenvolverem uma forma de comunicar ciência na sua língua, para que esta possa ser usada pelos jornalistas e outros divulgadores, pelos professores, pelos políticos, etc.

Confrontei-me com esta questão quando primeiro leccionei, ao nível do ensino superior em Portugal (mas aí menos mal, pois esses alunos precisam de apreender certos termos em Inglês; no entanto frustrava-me não ter as palavras Portuguesas) e na tradução de textos científicos para Português, no âmbito da divulgação. O maior choque e discussão sobre o tema, porém, deu-se no âmbito dos Encontros Nacionais de Biologia Evolutiva, encontros para os quais contribuí quando regressei a Portugal com o objectivo de reunir os Portugueses (em Portugal e no estrangeiro) que trabalham na área – sendo que me confrontei com uma comunidade que vem ganhando massa crítica mas se encontrava muito fragmentada. Num dos encontros, no Instituto Gulbenkian Ciência, onde trabalham muitos estrangeiros, levantou-se a questão de qual deveria ser a língua dos trabalhos, já que muitos dos estrangeiros não entendiam português. Tenho insistido nestes encontros, que podendo haver alguma flexibilidade, até porque a maior parte dos Portugueses entendem Inglês, que a língua oficial deveria ser o Português. Não por pretender excluir os estrangeiros (que, diga-se, estando em Portugal, também podem fazer um esforço para aprender a língua do seu país hospedeiro). Mas porque se tratando de um Encontro Nacional, particularmente dirigido a Portugueses, parece-me que esses são os encontros onde a comunidade científica desta área pode, colectivamente, desenvolver como falar da sua área em Português, e assim desenvolver uma linguagem para a comunicação mais geral da sua área científica. Abundam os encontros científicos onde se fala Inglês. Não me parece despropositadamente patriótico reservar um encontro, explicitamente nacional, onde a língua oficial seja a língua de trabalho. Nem é tal ideia inédita. Outros encontros nacionais científicos realizam-se nas línguas nacionais. Nos encontros mais recentes tem-se optado por um regime misto, deixando ao orador ou apresentador do poster a opção de escolher a língua. Mas o debate dentro da comunidade prossegue. Continuo resolutamente a defender que a ciência não tem língua. Só o pode afirmar de forma tão taxativa quem concebe a ciência como isolada na sua torre de marfim. E, para mim, a ciência é uma construção humana que deve ser acessível a todos.

Sessão de Homenagem a Carlos AlmaçaAproveito para informar que o VI Encontro Nacional de Biologia Evolutiva terá lugar no dia 22 de Dezembro, na Faculdade de Ciências de Lisboa, e incluirá uma sessão aberta de homenagem ao distinto biólogo e professor, Carlos Almaça, falecido este ano, que por sinal escreveu sobretudo em Português.

Publicado por André Levy

Forma de vida com forma diferente de DNA

(Não quero repetir discussões sobre a definição de Astrobiologia, mas a ANSA está de parabéns pelo o seu departamento de relações públicas.)

Lago Mono

Lago Mono

Segundo entendi da conferência de imprensa da NASA, foi encontrado no Lago Mono na Califórnia (na Terra, portanto), micro-organismos que não só sobrevivem na ausência de fósforo (P) e presença de arsénio (As) . Mais, o arsénio substitui o P na coluna vertebral do DNA.

Isto é de facto incrível e um descoberta relevante. Sem dúvida. Abre as portas sobre possíveis estruturas de DNA e sobre a possibilidade de existência de bio-moléculas e vida, noutros planetas, com condições diferentes (o que uma oradora referiu como ampliar o conceito de condições propícias para o aparecimento de vida, ou habitabilidade), mas não consiste em prova concreta da existência de vida extra-terrestre. Para mim, sobretudo, acrescenta a conceito da diversidade da vida na Terra.

Como biólogo da vida na Terra, a pergunta mais interessante, é saber se isto implica uma segunda raíz da vida, ou uma ramo da árvore da vida conhecida que evoluiu, em condições particulares, para ter uma molécula de DNA diferente? A cientista da NASA, Felisa Wolfe-Simon, terminou a sua apresentação indicou que estas bactérias fazem parte da mesmo, única, árvore da vida na Terra.

Publicado por André Levy

Terra no Espaço

No dia 30 de Julho publiquei neste blog um comentário «Conhecer a Terra ou o Espaço» que gerou alguma controvérsia, incluindo comentários neste mesmo blog, um post e comentários no blog «astro.PT» e um esclarecimento por parte dos moderadores deste blog. Depois da troca de comentários em ambos os blogs, relembro que a questão que pretendia ser a central do post original, aliás indicada pela categoria em que foi inserido, era o financiamento científico.

Permitam-me assim esclarecer e clarificar (se quiserem, corrigir) o comentário original, num espírito de reconciliação académico.

1. Opinar sobre prioridades de financiamento científico não constitui um ataque ao mérito científico das áreas que se possam considerar menos prioritárias. É uma avaliação sobre onde devem ser investidos prioritariamente recursos financeiros e humanos.
Para dar um exemplo diferente do post inicial (mais uma vez uma opinião pessoal, e sem querer travar qualquer analogia com o debate face à Astrobiologia): contraste-se o financiamento da indústria farmacêutica em áreas como a cosmética, retardamento do envelhecimento, obesidade, e desenvolvimento de fármacos para doenças mais típicas de países mais desenvolvidos, com o investimento na investigação de doenças infecciosas que ocorrem primariamente em países menos desenvolvidos e que são responsáveis por milhões de mortos anualmente  (e.g., cólera, disenteria, lepra, malária, etc). Para mim há aqui uma repartição desequilibrada e lastimável de financiamento, o que não equivale a dizer que eu ache que não deva haver investigação sobre doenças cardiovasculares ou que esteja a atacar o financiamento nessa área. É sim, em parte, uma crítica ao critério, neste caso económico, que jaz por de trás deste desequilíbrio. Espero que este exemplo, numa área distinta, ajude a entender que falar sobre prioridades de financiamento não equivale a desvalorizar o mérito científico (ou social) de uma área que se opine ser menos prioritária.

2. Outra clarificação diz respeito à frase final do post original  (que corrigi a posteriori): «Deixemos a vida extra-terrestre para a ficção científica». Essa frase  vinha no seguimento de referências à descoberta de vida inteligente noutros locais do Universo. Admito que a frase não foi suficientemente clara. Não pretendia ser um ataque transversal à Astrobiologia. Permitam-me a correcção: «Deixemos a vida inteligente extra-terrestre para a ficção científica», para assim separar o que entendo ser a componente principal da Astrobiologia – busca de evidência de vida, elementos pré-bióticos, e condições propícias para a evolução de vida (como a existência de água) – de outros esforços, nomeadamente o de encontrar vida inteligente extra-terrestre. Considero a primeira um empreendimento científico interessante, digno de ser seguido e financiado e, como referido no post original, uma área que já tem dado resultados empolgantes. Por contraste, considero o empreendimento de procurar formas de vida inteligente com a qual possamos travar comunicação um esforço pouco prioritário, dada a improbabilidade de tal vir a acontecer. Foi relativamente a este empreendimento que invoquei a ficção científica e a forma como a comunicação social por vezes apresenta a exploração espacial. A minha observação prendia-se com o facto de a exploração espacial poder beneficiar dos sentimentos fomentados por filmes e séries que apresentam cenários irrealistas. Não impliquei a própria Ciência em qualquer conspiração ou manipulação propositada. Não faço qualquer associação entre Astrobiologia e ficção científica, não há qualquer confusão a esse respeito da minha parte e lamento se o texto permitiu essa leitura.

3. Feita esta distinção, reitero: não pretendia atacar a Astrobiologia, que considero ser uma legítima área científica merecedora de ser prosseguida e financiada. Desejava sobretudo chamar a atenção para o nosso desconhecimento da topografia e biologia dos fundos marinhos terrestres que representam 70% da superfície do nosso planeta, onde se estima existirem milhões de espécies de bactérias marinhas desconhecidas pela ciência e que muito poderiam contribuir para o entendimento da origem e evolução da vida terrestre.
Naturalmente que a escolha não é entre financiar a Biologia Marinha e a Astrobiologia. A escolha de financiamento é feita entre todas as áreas (e nem há um único bolo de financiamento, nem são usados apenas critérios científicos). A ponte entre as duas áreas foi feita porque o desconhecimento dos nossos fundos marinhos contrasta com o conhecimento que já possuímos sobre a topografia da Lua e de Marte.

4. Há uma questão, que considero menor, de discórdia sobre a amplitude e definição do campo da Astrobiologia.
A Astrobiologia compreende o estudo da vida no Universo, que inclui naturalmente a Terra mas entendo que a Astrobiologia, enquanto área científica, compreende mais especificamente o estudo de vida extra-terrestre. Não será por acaso que esta também seja referida como Exobiologia.

Se considerarmos ser objecto da Astrobiologia o estudo da vida tanto na Terra como fora dela, então esta seria indistinguível da Biologia, ou in extremis a Biologia seria uma sub-categoria da Astrobiologia, o que não me parece ser muito clarificador.

Naturalmente, há sobreposição entre as duas áreas, mas creio que existem benefícios em utilizar os dois termos para designar áreas de investigação distintas, independentemente das ligações que inequivocamente existem entre elas. Se o estudo sobre extremófilos terrestres está dentro do campo da Biologia (terrestre) ou da Astrobiologia (no sentido mais restrito) parece-me de interesse menor. Ambas as áreas podem aprender muito com o estudo das condições extremas em que é possível existir vida.
Para tentar ser o mais claro possível: considerando a natureza um todo contínuo, as áreas científicas são categorias históricas geradas pelo Homem. Há lugar para a existência de Biologia, Astrobiologia, Astronomia, etc. As áreas têm sobreposições sendo de fomentar a interdisciplinaridade. A delimitação das áreas é uma questão de categorização da ciência. O meu comentário, mais uma vez o repito, tinha como ponto central prioridades de financiamento científico. Usei como instrumento o contraste entre o estudo da Terra versus o do (resto do) Espaço, duas categorias ou áreas de estudo.

5. Relativamente à evocação de Carl Sagan, foi uma nota meramente biográfica sobre o meu percurso intelectual, em que pretendia ilustrar o impacto pessoal que este teve sobre mim enquanto divulgador científico. Acrescentei porém que à medida que o meu interesse e conhecimento pela biologia, pela questão da origem da vida, foi crescendo, comecei a divergir cientificamente das opiniões de Sagan, como seja o esforço em procurar indícios de vida inteligente extra-terrestre, do qual ele foi promotor. Evocando ainda Sagan para voltar à questão das prioridades de financiamento: no seio da NASA, Sagan foi, por exemplo, apologista de mais missões robóticas em oposição ao programa do vaivém e Estação Espacial. Registo isto apenas para ilustrar como opiniões sobre decisões sobre financiamento não implicam “ataques” mas diferenças de opinião sobre prioridades.
Espero com isto ter clarificado o objectivo do post inicial, e espero que as relações entre os comentadores dos dois blogs possam no futuro ser mais positivas, contribuindo para o objectivo comum da divulgação científica.

Publicado por André Levy
Deixemos a vida extra-terrestre [acrescentado a posterior: em particular, vida inteligente] para a ficção científica.

Conhecer a Terra ou o espaço

O Carl Sagan foi quem despertou meu interesse pela ciência, já lá vão muitos anos. A leitura de verão d’ «O Contacto» levou-me a ler «Cosmos» e por daí em diante. Primeiro muita física (de astronomia à das partículas) e eventualmente muito mais biologia (onde me vim a especializar). Há hoje uma área que pretende fundir os dois campos, a Astrobiologia, que em parte se preocupa com a descoberta de formas de vida noutros planetas. Não me parece uma área de estudo demasiado descabida. Admito que suscite alguma curiosidade. Mas num contexto de recursos financeiros e humanos limitados, parece-me um enorme desperdício de tempo e dinheiro, que não me entusiasma particularmente e por vezes chego a considerar uma aberração.

Como é que se admite que se conheça melhor a superfície da Lua e Marte que a do fundo dos oceanos na Terra (que como Arthur C. Clarke disse apropriadamente, dada a percentagem de coberto oceânico do nosso planeta, se devia chamar antes Mar)?

Como é que se admite que havendo ainda tanta espécie de vida, macro- e, sobretudo, microscópica no nosso planeta se invista dinheiro na vã tentativa de descobrir indícios de vida noutros planetas?

É certo que as missões espaciais não têm como principal objectivo a descoberta de vida, mas sim a exploração do espaço. Os instrumentos de detecção de vida vão à boleia. Mas mesmo esse esforço de exploração do espaço me parece, reitero num contexto de recursos limitados, um desperdício. Gastam-se milhares de milhões para planear, construir, preparar equipa e lançar um Vai-Vem, mas uma quantia comparativamente menor em explorar o fundo dos nossos Oceanos, que contêm não só inúmeras e curiosas espécies, muito distintas das terrestres e das marinhas que vivem perto da costa ou superfície. Provavelmente existem milhões de espécies de bactérias nos oceanos ainda por descobrir, algumas certamente com sistemas químicos totalmente distintos, que muito nos poderiam ensinar sobre a história da vida na Terra. Mas há quem defenda de alma e coração, no espírito dos descobrimentos e certamente depois de uma overdose de ficção científica, que a próxima fronteira é o espaço. Um certo cinismo da minha parte, não pode deixar de pensar que os produtos militares que resultam da investigação para a exploração espacial, e que a perspectiva de explorar recursos naturais nos planetas mais próximos é o que realmente motiva os que promovem a exploração espacial. A suportar esta hipótese está o facto da NASA já não construir Vai-Vens há vários anos (vai reciclando os antigos) – a nova geração de Vai-vem resulta de investimento privado.

A ficção científica é complementada pela ideia de que a vida na Terra pode ter tido origem extra-terrestre (panspermia), uma ideia promovida por exemplo pelo físico heterodoxo Sir Fred Hoyle. Li sobre esta ideia na altura que lia «Cosmos» e outros livros do Sagan, e sempre me pareceu uma fuga à questão da origem da Terra. Em vez de investigar como pode ter surgido na Terra, atira-se a origem para o Espaço, sob condições totalmente desconhecidas e à escolha do freguês. Isto quando existem hipóteses e investigação muito plausível para responder à questão difícil da Origem da Vida na Terra.

Há esta ideia que se descobrirmos indícios de vida extra-terrestre, não nos sentiremos “sozinhos no universo”. Mas a ser descoberta alguma forma de vida, será certamente de vida, muito possivelmente já extinta, na forma de bactérias, talvez nanobactérias. Eu cá não me sentirei menos sozinho na vastidão do Universo por saber que existiram umas bactérias em Marte ou Úrano. Não iremos certamente descobrir as formas de vida que tipicamente surgem nos filmes de ficção científica, seja na forma de monstros ou antropomorfos falando inglês ou em música (como no “Encontros de Terceiro Grau”). O Universo é tão vasto e o tempo de viagem entre galáxias de uma ordem de grandeza tão grande que, admitindo que exista vida, e que esta seja inteligente, e que nós fossemos capazes de comunicar com ela, a probabilidade de ambas as formas de vida – terrestre e extra-terrestre – é avassaladoramente pequena.

Temos muitas espécies na Terra a descobrir. Temos espécies na Terra conhecidas a desaparecer por actividade antropogénica. Deixemos a vida extra-terrestre [acrescentado a posterior: em particular, vida inteligente] para a ficção científica.

[Notas:
* Na sequência do post “Conhecer a Terra E o Espaço”, publicado no blogue astroPT, como reacção a este texto, a Associação Viver a Ciência decidiu publicar um texto que esclarece a sua posição sobre a matéria.
** O autor deste texto decidiu também publicar um comentário que pretende clarificar a sua opinião. Pode aceder ao mesmo clicando aqui
*** Leia também o texto "Fascinar Darwin e Galileo", um contributo de Maria Cruz, Zita Martins e Pedro Russo (em colaboração Joana Martins), escrito também na sequência deste post.
]

Publicado por André Levy

Bíblia nas Escolas Públicas Portuguesas

É bem conhecida a batalha sobre o ensino de Evolução vs. Criacionismo, que tem o seu maior palco nos EUA, mas que já assume frentes na Europa, em particular na Turquia, França, Suíça, Bélgica, Polónia, Rússia, Itália, Grã-Bretanha, Sérvia, Holanda e Alemanha (ver Relatório Europeu). Não esquecer que existe em Mafra, Portugal, o único Museu Europeu dedicado ao Criacionismo.

Vem isto a propósito de um fenómeno que me chegou recentemente à atenção. Não encontrando talvez espaço ou condições para actualmente batalhar para igual representação do criacionismo (vs. evolucionismo) nas aulas de ciências, os movimentos cristãos encontraram espaço nas aulas de Inglês (!), nomeadamente através do ensino da Bíblia. Tal faz parte de um movimento internacional (ver blog), com presença em Portugal (ver), que recebe destaque nos sítios de algumas escolas (ver por exemplo um dos projectos da Escola Secundária D. Dinis ou uma referência a um poster sobre o projecto, desta escola, no sítio do Ministério da Educação). Não é de espantar que no blog Português do movimento Across the Bible – PT (ATB-PT) surja uma referência ao Museu de Criacionismo em Mafra. O mesmo blog informa que o ATB-PT tem actividade há 7 anos, com alunos da primária ao secundário! Numa cadeira obrigatória: o Inglês.

Ora, para o currículo das aulas de inglês há inúmeras obras de literatura inglesa (que não é o caso da Bíblia) que melhor servirão objectivos pedagógicos do ensino de inglês. Esta é mais uma demonstração da ferocidade e criatividade (honra lhes seja feita) do movimento cristão de introduzir a Bíblia de qualquer forma na escola laica. Se este falhar, certamente tentarão introduzir a Bíblia nas aulas de Matemática, Educação Física, ou Educação Manual (afinal Jesus era carpinteiro). Mas esta capacidade serpentina do movimento Cristão exige uma defensa firme da escola pública laica. É lamentável que o Ministério da Educação (ME) tenha permitido esta intromissão mascarada mas transparente. Não tendo o ME intervido quando devia, cabe à cidadania intervir e exigir que as escolas públicas Portuguesas não adiram a este programa. Não deixa de ser irónico que esta situação tenha lugar quando se comemora o Centenário da I República, que tanto fez pela escolaridade pública laica.

A Constituição da República Portuguesa (CRP) garante a liberdade de religião (Art 41) e estipula (no Art. 42) que o “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.” (ponto 2) e que “O ensino público não será confessional.” (ponto 3). Só um evangelismo militante explica este atropelo à CRP.

Leiam e assinem a petição «Pela Escola Pública Portuguesa Laica»

Extracto de texto maior na Jangada de Pedra.

Publicado por André Levy

Tragédia na Madeira, ou porque vale a pena ver a RTP2

Publicado por André Levy