Nova espécie carraça do nariz

O meu orientador de doutoramento tinha uma grande colecção de insectos pessoal. Espécimenes que fora coleccionando perto da universidade e nas suas várias viagens, que havia obtido em troca com outros entomólogos. A colecção era usada na cadeira de Entomologia, durante a qual os estudantes tinham de fazer a sua própria colecção, com espécimenes representando um um número mínimo de ordens e famílias. De repente os alunos começaram a olhar para o meio de forma diferente, olhando à escala pequena, notando diferentes micro-habitats onde pudessem existir diferentes taxa de insectos. Eu próprio senti essa transformação quando fiz essa cadeira de licenciatura. E ainda tenho imenso gozo em cair ao chão e espreitar o micro, levantar uma pedra ou tronco, bater um arbusto com uma rede. E depois cuidadosamente montar o insecto de forma a dar-lhe uma forma viva e deixar os traços diagnósticos bem visíveis. E entre insectos que fui apanhando e outros que herdei tenho já uma colecção respeitável. Mas nada como um dos espécimenes de honra do meu orientador: uma mosca-berneira (Dermatobia hominis; famlia Oestridae). Durante uma visita ao Brasil uma destas moscas havia ovopisitado no seu braço, e após uma semana e pouco já se via a larva a crescer sob a sua pele. Na semana final (o tempo de até à emergência do adulto é cerca de 30 dias) foi aguentado o incómodo para poder colectar o adulto, amarrando um pequeno frasco ao braço para o efeito.

Esta experiência não é inédita (assim como investigadores se auto-infectarem) e recentemente o bio-patologista Tony Golberg descobriu uma nova espécie no seu nariz. Ao regressar de uma estadia a observar chimpanzés  no Uganda, Golberg sentia uma impressão e com o uso de um espelho e lanterna pode encontrar,  no interior do nariz, onde a cartilagem encontra o osso, uma carraça já inchada de sangue. Sendo patologista sabia que teria de ter cuidado ao remover a carraça para evitar que esta ejectasse saliva potencialmente infecciosa. Com o uso de material de laboratório conseguiu remover a carraça.

Já não era a primeira vez que tivera uma carraça no nariz, mas desta vez conseguira removê-la  sem a danificar. Era pouco mais que um estômago distendido (do diâmetro de um lápis), um probóscis e pequenas pernas. Parte do espécimen foi usado para análise de DNA, e resultou não haver correspondência com sequências já existentes nas bases de dados, indicando que poderia ser uma espécie nova para a ciência.

Um seu colega que havia estudado fotografias de alta-resolução de chimpanzés descobrira que muitos tinham carraças no interior do nariz, uma fenómeno que não havia ainda sido descrito. Tudo indicava que a espécie que infectara Golberg havia evoluído para ‘colonizar’ os narizes dos chimpanzés, bem no interior, onde a remoção com uma unha se torna difícil.

Golberg pretende agora voltar e colher mais espécimenes para confirmar a identidade da nova espécie e estudá-la. No seu relato ao Guardian, ele confessou que “O desconforto e repulsa que passou foi razoavelmente compensado. Sinto-me genuinamente agradecido por ter sido escolhido como hospedeiro pela carraça.”

[Este artigo faz parte de uma série dedicada à biodiversidade e descoberta de novas espécies.]

Publicado por André Levy

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