Novas espécies de mamíferos

Diversidade na classe MammaliaA classe Mammalia, os mamíferos, inclui cerca de 5 mil espécies. Os grupos mais abundantes (ver abaixo) são os roedores (Rodentia) e os morcegos (Chiroptera). Em termos relativos, representa uma diversidade inferior às restantes classes de vertebrados: repteis (quase 8 mil espécies), anfíbios (5400 espécies), aves (cerca de 10 mil espécies), ou os peixes ósseos (cerca de 28 mil espécies). Mas é neste grupo que encontramos várias espécies carismáticas e emblemáticas do seu habitat. O Koala e Canguru evocam a Austrália. O Leão, Zebra, Girafa e o Hipopótamo (os 4 amigos da série animada Madagascar) evocam África. O Leão marinho, Baleia Azul e Golfinho evocam o mistério e inteligência do meio marinho. Class_Mammal_OrdersPelo seu encanto têm despertado muito interesse, e são um grupo bastante bem estudado. Mas apesar disso, continuam a ser encontradas novas espécies de mamíferos. Muitas das novas espécies pertencem aos Rodentia e Chiroptera, o que se entende por serem os grupos mais diversos e por muitas das suas espécies serem de menor tamanho, difíceis de capturar, ou viverem em habitats remotos.  (Ver aqui lista de novos mamíferos descobertos no século XXI.) Mas o ano passado tivemos oportunidade de registar aqui neste blogue a descoberta de várias espécies novas de primatas, uma ordem de mamífero particularmente bem estudado, entre outros motivos por ser a ordem à qual pertencemos.

Desta feita destacamos a descoberta, no final deste ano, de várias espécies de mamíferos de outras ordens. Julian Kerbis Peterhans anunciou 4 novas espécies  (2 morcegos e 2 musaranhos, da ordem Soricomorpha), descobertas em 2007 durante uma visita de menos de 30 dias à florestas na República Democrática do Congo, cuja riqueza comentámos o ano passado.

Uma das novas espécies de morcego, Rhinolophus willardi, e foto do seu habitat na República Democrática do Congo, no Rio Kilicha

Uma das novas espécies de morcego, Rhinolophus willardi, e foto do seu habitat na República Democrática do Congo, no Rio Kilicha.

Nas últimas semanas foi publicada a descoberta de uma nova espécie de Tapir, Tapirus kabomani, proveniente da floresta Amazónica, o primeiro novo Perissodactyla em mais de cem anos. Já eram conhecido exemplares, mas sempre haviam sido erroneamente classificados pelos cientistas como sendo da espécie irmã T. terrestris. As tribos nativas já a reconheciam como uma espécie distinta, mas a sua classificação havia sido ignorada. Mas esse reconhecimento foi a base para um estudo morfológico e molecular mais aprofundado que veio a confirmar a existência de uma espécie distinta. Embora este tapir nocturno seja dos tapirs mais pequenos, trata-se de um dos maiores animais da América do Sul. Infelizmente, como já vem sendo recorrente, esta nova espécie encontra-se ameaçada devido ao desbaste da floresta Amazónica.

Tapirus kabomani

Tapirus kabomani

Dadas as características do estudo dos mamíferos, várias descobertas de novas espécies são apenas o reconhecimento de que uma espécie são na verdade duas, isto é, que sob o mesmo nome co-existiam grupos reprodutivamente isolados. Essa realização só é alcançada com maior estudo, com o desvendar de diferenças morfológicas, ecológicas, comportamentais antes desapercebidas, ou através do uso de informação molecular que revela existirem grupos algo separados. Por essa razão, muitos dos anúncios da descoberta de novas espécies são fruto de anos de trabalho minucioso. Foi o caso com o T. kabomani e também o do reconhecimento da existência de uma nova espécie de golfinho corcunda (do género Sousa).

Existem cerca de 37 espécies na família Delphinidae, incluindo espécies de água doce e água salgada. Mendez et al. analisaram 24 características craniais de 180 espécimenes, e dados moleculares de 235 indivíduos de género Sousa, distribuídos nos oceanos Atlântico e Indo-Pacífico, para melhor compreenderem a sua estrutura populacional. Os resultados concordantes das várias fontes de dados indicam existirem 4 espécies; S. teuszii na costa Atlântica de África; S. plumbea no Oceano Índico ocidental e central; S. chinensis no Índico Oriental e Pacífico Ocidental; e uma espécie ainda sem nome a norte da Austrália. O reconhecimento de uma nova espécie, em particular um mamífero, não é inconsequente ou de interesse meramente académico. A ‘espécie’, a bem ou mal, é a unidade de conservação. Pelo que o reconhecimento desta nova espécie no norte da Austrália, acciona novas necessidades em termos de conservação daquela população.

Para terminar, a descoberta de uma espécie tropical que não está ameaçada, o olinguito Bassaricyon neblina,  membro da família Procyonidae, que também inclui os guaxinins. Trata-se do primeiro carnívoro descoberto nas Américas nos últimos 35 anos.  Esta espécie solitária e nocturna, pesando menos de um quilo, habita as florestas nebulosas e densas da Colômbia e Equador.

Bassaricyon neblina

Bassaricyon neblina

Kristofer Helgen, curador do Field Museum em Chicago, estudava espécimenes de museu, em 2003, quando notou que alguns eram mais pequenos, com dentes mais pequenos e longos, e pelo mais denso. Os apontamentos que acompanhavam os espécimenes indicavam terem sido capturados há décadas nos Andes, a 1500-2700 métros de altitude, muito acima dos olingos conhecidos há data. Subsequentes idas ao local e analise de amostras confirmou tratar-se de uma nova espécie e possivelmente esta estar estruturada em 4 sub-espécies.

Recentemente foi fotografado uma cria de olinguito. A nossa reacção visceral ao vermos a cria de qualquer mamífero é sinal de um instinto profundo, de ternura e afecto, o instinto de um adulto que vê uma cria da sua espécie e a protege. A nossa reacção é comum a outras crias de mamíferos pois todas partilham características comuns: olhos proporcionalmente grandes, cabeça mais redonda e proporcionalmente maior (para mais ver este artigo, que refere a explicação de Stephan Jay Gould para a transformção do Mickey Mouse).

Baby-Olinguito1-600x781

Kerbis Peterhans et al. (2013) Bats (Chiroptera) from the Albertine Rift, eastern Democratic Republic of Congo, with the description of two new species of the Rhinolophus maclaudi group. Bonn zoological Bulletin 62 (2): 186-202.
Cozzuol et al. (2013) A new species of tapir from the Amazon. Journal of Mammalogy, 94(6):1331-1345.
Mendez et al. (2013) Integrating multiple lines of evidence to better understand the evolutionary divergence of humpback dolphins along their entire distribution range: a new dolphin species in Australian waters? Molecular Ecology 22 (23). 5936–5948.
Helgen et al. (2013) Taxonomic revision of the olingos (Bassaricyon), with description of a new species, the Olinguito. ZooKeys 324: 1–83, doi: 10.3897/zookeys.324.5827

[Este artigo faz parte de uma série dedicada à biodiversidade e descoberta de novas espécies.]

Publicado por André Levy

One response to “Novas espécies de mamíferos

  1. Pingback: 29 novas espécies de Aves (2013) Parte I | Blogue VAC

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s