Átomo, poesia, memória: um Lucrécio perdido no livro de Química

10013651~Titus-Lucretius-Carus-Roman-Poet-and-Philosopher-PostersA primeira vez que me aconteceu alguma coisa semelhante foi quando, aos 20 anos, descobri uns poemas de Cecília Meireles no meu livro de Português da Escola Primária. A paixão pela sua poesia ainda era recente e acabava de descobrir, por linhas inesperadas, que afinal já a havia lido (ou alguém a lera por mim) uma década antes. Um choque.

No fim-de-semana passado, enquanto desfolhava o meu livro de Química do 8º ano, eis que surge mais um ajuste de contas com o passado. Então não é que na fase de todas as borbulhas deixei passar em claro o poema de Lucrécio (Titus Lucretius Carus) no qual, em pleno século I a. C., o poeta romano já abordava a constituição atómica da matéria – ideia que só veio a ter aceitação no século XIX.

Eis o que encontrei:

«… átomo algum interrompe jamais o seu movimento no vácuo, antes se move sem cessar, empurrando e sendo empurrado
Em várias direcções, e as suas colisões provocam,
Consoante o caso, maior ou menor ressalto.
Quando combinamos da forma mais densa,
A intervalos muito próximos, com o espaço entre si
Mais obstruído pelo entrelaçado da figura,
Dão-nos a rocha, o diamante, o ferro,
Coisas dessa natureza. (Não existem muitas espécies de átomos
Que errem, pequenos e solitários, através do vácuo.)

Apesar de se encontrarem em constante movimento,
O seu todo aparenta absoluta quietude,
Salvo, aqui e ali, alguma oscilação particular.
A sua natureza está além do alcance dos nossos sentidos,
Muito, muito além. Já que não somos capazes de ver
As coisas como são na realidade, elas são obrigadas a esconder-nos os seus movimentos,
Especialmente porque, mesmo as que conseguimos ver, muitas vezes
Nos ocultam também os seus movimentos, quando à distância.
Tomemos por exemplo um rebanho a pastar
Numa encosta; sabemos que esses animais de caracóis de lã
Se movimentam para onde quer que os atraia a bela erva,
Em qualquer lugar onde esta se encontre, ainda cravejada de jóias de orvalho cintilantes, e que os cordeiros,
Já saciados, saltam e brincam, brilhando ao sol.
Tudo isto, porém, visto á distância, é apenas uma mancha azulada
Esbranquiçada, repousando numa colina verde.
…»

O excerto é retirado do poema De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas), o único livro escrito por Lucrécio. O título de poema serviu também de inspiração a um dos mais competentes blogues portugueses de ciência, precisamente o De Rerum Natura. Nos arquivos do mesmo blogue encontram-se explicações bem mais completas sobre Lucrécio, em particular, e sobre a origem do atomismo, mais a fundo.

Publicado por Sílvio Mendes

4 responses to “Átomo, poesia, memória: um Lucrécio perdido no livro de Química

  1. adorei tudo esta de parabéns..

  2. Douglas Lucrécio Magnus

    Interesante e Cultural.
    Mas gostaria de Saber se sou Descendente Dele!

  3. Caro Douglas,

    é bem possível. Não tenho, infelizmente, dados suficientes nem conhecimentos técnicos que me permitam confirmar essa sua pergunta. :)

  4. Lucrécio foi o único pensador com a coragem de negar a existência mesma de ‘natureza’ (seja a própria natureza das coisas ou a natureza (corpo físico, seja um princípio, um estado primordial de tudo), nomeando ‘natureza’ apenas as coisas que estão por áí. Vide Clément Rosset, A AntiNatureza. Grato pelo espaço.

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