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Ciência e Media em discussão no Porto

The Wonder Book of Science, 1922, © Nature Publishing group, Galbraith O'LearyNa tarde do dia 26 de Março esteve em discussão aberta o tema Ciência e Media, no auditório da Biblioteca Almeida Garret, integrada no Encontro “Science: What else?”. O painel foi moderado pelo Professor Manuel Sobrinho Simões (FMUP, IPATIMUP) e contou com a presença dos jornalistas de ciência Vasco Trigo (RTP), Andrea Cunha Freitas (Público e Associação de Repórteres de Ciência e Ambiente), Virgílio de Azevedo (Expresso) e Helena Mendonça (Diário de Notícias).

As comunicações e debate reflectiram as diferentes tensões entre quem faz ciência e quem a reporta, a evolução desta relação e os desafios que se colocam. Como dizia Vasco Trigo, “o cientista está ligado ao conteúdo e o jornalista à forma”. Ao ir ao encontro de um cientista, o jornalista tem que decifrar a informação em função do interesse público e do tempo ou espaço disponível. Contudo, “há um grande esforço do cientista em ir ao encontro da notícia”, afirma Helena Mendonça. A revelação vem pelos resultados da sua tese de mestrado, publicada em 2006, que analisa o processo entre a interacção jornalista-cientista até à notícia escrita. Para os cientistas, “o desejo de aproximação aos media é tal que tendem mesmo a tolerar certas abordagens sensacionalistas e determinados lapsos encontrados nas notícias“. Mas, no fim, ambas as partes “mostram satisfação com os resultados”. Afinal, “cientistas e media sustentam-se em valores idênticos – como a objectividade, a verdade e a autonomia”.

Apesar da aproximação entre os dois campos, Vasco Trigo alerta: “a ciência está a desaparecer da comunicação de prime-time” na TV. E, simultaneamente, temos a “tabloidização dos jornais portugueses”, afirma Sobrinho Simões. A função pública dos media generalistas como educadores está a desaparecer. Quando temas complexos como o Aquecimento global e a Energia Nuclear são abordados, são comuns os argumentos afectivos e convicções dominantes. “É necessário que a ciência invada o ambiente”, defende Virgílio Azevedo. Mas, com a dimensão impressionante de informação científica, serão as redacções capazes de enfrentar o desafio?

“A comunicação científica precisa de ser exemplar!”, sublinha Sobrinho Simões. Poderão os mediadores entre os cientistas e os jornalistas ser uma peça importante deste puzzle? Assessores de imprensa, comunicadores e outros têm “um percurso profissional normalmente diferente dos jornalistas”, diz Virgílio Azevedo. Andrea Cunha Freitas realça que cada um tem os seus interesses mas sublinha a importância dos assessores como ferramenta de trabalho. Vasco Trigo não recomenda o uso de gabinetes externos de comunicação, tal como já tinha advertido recentemente na Conferência Parlamentar sobre Ciência.

De qualquer forma, todas as redacções reconhecem a importância das suas redes de contactos, especialistas crediveís que confirmam factos e agem como fontes exclusivas. Uma evolução que é capaz de perturbar este equilíbrio é o openspace científico, com os “jornais sem revisão de pares que começam a aparecer”. “É apetecível ter veículos rápidos”, reflecte Sobrinho Simões. Contudo, é opinião unânime o perigo em termos de credibilidade que se coloca caso o “mercado do conhecimento” evolua neste sentido…

O futuro passa pelo desenvolvimento de parcerias, que envolvam indivíduos e instituições. Relações honestas de confiança entre diferentes actores em rede. Antigamente, conforme explica Helena Mendonça, o jornalista ia sempre para a rua, directo para os cidadãos. Hoje procura cada vez mais perceber os fenómenos junto de analistas e cientistas. O sentido natural da evolução, qualquer que seja o rumo, será usar a ciência para interpretar a realidade. “O meu sonho”, finaliza Sobrinho Simões, “é que um dia todos sejam capazes de ler um horário de autocarros”.

Publicado por João Cão
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