Aproxima-se o final de 2012, um ano extraordinário em termos da descoberta de novas espécies. Tendo começado esta rubrica em finais de Novembro, apesar de vários posts, só foi possível reflectir uma pequena amostra das milhares de novas espécies descobertas. Como reflectido nestes posts, algumas novas espécies eram espécies crípticas cuja singularidade foi reconhecida após estudo molecular, outras foram re-encontradas em museus e finalmente descritas, mas muitas foram descobertas nos seus habitats naturais. É para mim extraordinário que apesar de centenas de anos de expansão da população humana, de expedições e colecções, ainda hajam zonas mal exploradas e pouco conhecidas do planeta, particularmente terrestres, onde habitam espécies de grande/médio porte que ainda não hajam sido descritas pela ciência.
O ano de 2012 foi extraordinário neste sentido, pois descobriram-se três novas espécies de primata, um grupo que poderíamos (erroneamente) presumir já se totalmente descrito, e duas delas no continente africano. Já aqui deixámos registo da nova espécie de loris, Nycticebus kayan, descoberta no Bornéu. Mas já em Janeiro havia sido anunciada a descoberta de uma nova espécie de lémure, no Madagáscar, distribuição endémica da mais de centena de lémures, mais de 40 dos quais descritos na última década. Microcebus gerpi, de 68 gramas, foi visto em 2008 durante estudos em Sahafina, um fragmento de floresta tropical perto do Parque Nacional de Mantadia, a leste da cidade de Antananarivo. (A fragmentação de habitats é uma ameaça o estatuto de conservação de várias espécies no Madagáscar, incluindo os lémures.) Uma análise genética a partir de pequenas biópsias recolhidas durante os estudos vieram a confirmar tratar-se de uma espécie distinta, cujo epíteto específico homenageia um grupo local de estudo de lémures, o GERP (Groupe d’Étude et de Recherche sur les Primates de Madagascar).
Radespiel et al. 2011. First indications of a highland specialist among mouse lemurs (Microcebus spp.) and evidence for a new mouse lemur species from eastern Madagascar. Primates 53 (2): 157-170.
Mas houve ainda mais uma espécie de primata descoberta em 2012, numa floresta tropical massiva, em grande medida ainda por explorar e rica em biodiversidade (onde existem elefantes de floresta, okapis, e onze espécies de primatas, incluindo bonobos, quatro das quais endémicas) situada na confluência de três rios (Tshuapa, Lomami e o Lualaba) na República Democrática do Congo.
John Hart e sua esposa Terese lideram um projecto de criação de um parque nacional na região, o TL2. John Hart notou primeiramente a nova espécie – o lesula, Cercopithecus lomamiensis – em 2007, quando viu um juvenil mantido como animal doméstico pela filha do director de escola da vila remota de Opala. Seis meses depois, John Hart e sua equipa avistaram a nova espécie em ambiente selvagem, numa área conhecida por Obenge. Embora tímida, a espécie parece ser relativamente abundante na região largamente intocada. A sua descoberta reforça a necessidade de conservação desta região do Congo.




