Category Archives: Geração Cientista

Entrevista (com humor)

ImageFicar sem financiamento para a ciência tem graves consequências. Entrevistámos um professor universitário que trabalha em investigação, mas que, devido aos cortes do Governo, ficou sem condições para poder trabalhar. 

 

 

– Boa tarde, professor.
– Boa tarde.
– Antes de mais, obrigado por ter aceitado o convite e nos conceder esta entrevista.
– Ora essa.
– Gostaria de começar por lhe pedir que explicasse para as pessoas lá em casa em que consiste o seu trabalho.
– Com certeza. O meu trabalho consiste em desenvolver moléculas capazes de criar partículas que estão envolvidas na resposta inflamatória.
– Podia ser mais específico, professor?
– Não só podia, como irei sê-lo.
– Óptimo.
– O senhor já teve alguma vez a garganta inflamada?
– Claro que sim.
– Tomou alguma coisa?
– Na maior parte das vezes, não.
– E na menor parte das vezes?
– Tomei anti-inflamatório.
– Ai foi?
– Foi.
– Pois digo-lhe o seguinte. Os anti-inflamatórios que estão aí no mercado são uma autêntica porcaria.
– Porquê?
– Só fazem mal. Você sabia que pode ter uma úlcera no estômago se tomar Brufen? Mas não se preocupe agora com isso. O que eu faço, respondendo à sua pergunta, é pesquisa científica no âmbito de desenvolver um medicamento realmente indicado para combater as inflamações.
– E como estão a correr as coisas?
– Desde que o Governo resolveu fazer estes cortes todos na investigação, não muito bem.
– Tem financiamento para poder ter o material necessário e fazer os devidos ensaios no seu laboratório?
– Na verdade, não.
– E tem financiamento para poder ter uma equipa de investigadores a trabalhar consigo?
– Também não.
– Quer isto dizer que está neste momento a trabalhar com dificuldades?
– Sim, admito que não está a ser fácil. Para você ter uma ideia, a câmara de fluxo laminar avariou no outro dia, e desde então quando quero trabalhar em condições de assepsia, acendo um cigarro ao canto da boca e espero que o fumo afaste as possíveis contaminações das minhas culturas celulares.
– Os microbiólogos costumam trabalhar à chama….
– À chama?! Você já viu o perigo que isso é?!
– Pois… realmente…. Mas pode falar um pouco mais sobre a sua pesquisa?
– O que pretende saber ao certo?
– Quais são as substâncias que o professor está a testar na resposta inflamatória?- Pinnae pullum.
– Nunca ouvi falar. Consegue explicar o que é?
– Ora bem, basicamente é, digamos, pena de galinha.
– Pena de galinha?!
– Sim.
– O facto de usar pena de galinha nas suas pesquisas é uma decisão que tem a ver com os cortes do Governo?
– Não. Na verdade foi uma opção minha. Mas atenção, não pense que é uma pena de galinha qualquer.
– Então?
– É uma pena de galinha que é diluída em água sucessivas vezes.
– Como é que se dilui pena de galinha em água?
– Também não vai querer que eu lhe conte tudo, pois não?
– Sabe, é que sou levado a crer que o professor faz investigação em homeopatia.

(pequena pausa de estupefacção de ambas as partes) 

– Homeopatia?! Você é doido?! Acha que eu ando aqui a nadar em dinheiro? Você sabe a quantidade de água que é preciso ter para fazer investigação em homeopatia? Oiça o seguinte. Nós no laboratório não temos dinheiro para extravagâncias. Pura e simplesmente não temos. Eu apenas estou autorizado a gastar 800 litros de água por dia. Como acha que podia fazer investigação em homeopatia?
– Mas mesmo em condições precárias, consegue ter resultados com a sua pesquisa científica?
– Consigo. Mas não com a pena de galinha na resposta inflamatória. Devido à escassez de fundos, ficámos sem os ratinhos de laboratório. Agora as únicas cobaias a que tenho direito são dois gatos abandonados por semana. Não ajuda lá muito nos ensaios.
– Pois. Então tem tido resultados em quê?
– Astrologia.
– Astrologia?!
– Astrologia. E estou a descobrir coisas fascinantes.
– Quer partilhar connosco, professor?
– Com certeza. Por exemplo, as pessoas que nasceram em Maio têm que ter em conta que as mudanças nem sempre são fáceis, especialmente quando nos habituamos a algo ou alguém. No entanto são por vezes necessárias, para que haja renovação.
– …..
– Não acredita, é?
– Não digo que não acredito, mas é um pouco vago. Não nos quer dar outro exemplo?
– Com certeza. Quem nasceu em Novembro, esta semana pode receber uma informação importante, ou um sinal, e sentirá a energia do movimento a voltar à sua vida.
– Pois…
– O senhor nasceu em que mês?
– Agosto.
– Então posso-lhe dizer que deve confiar na sua sabedoria interior, assim como ouvir os outros, para poder atingir o equilíbrio.
– Obrigado pelo conselho, professor. Além das penas de galinha na resposta inflamatória e da Astrologia, existe mais algum projecto em que esteja envolvido?
– Por enquanto, não. Mas posso-lhe dizer que se o Governo continuar com estes cortes, vou ponderar entrar para a política. Irónico, não é? Mas digo-lhe o seguinte: eu é que ainda vou fazer a diferença. Quer que lhe conte das minhas ideias para dinamizar o nosso país? Sabe, é que eu tenho um primo que é Secretário de Estado e…
– Obrigado, professor, mas estamos sem tempo. Temos que ficar por aqui.
– Se você o diz…
– Obrigado pela entrevista, e até a uma próxima.
– Ora essa. Eu é que agradeço.

Publicado por Pedro Lino

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Ciência em Portugal (sem humor)

ImageRecentemente foram revelados os números que traduzem uma quebra acentuada na atribuição das bolsas de doutoramento no nosso país. Desconfio que, por outro lado, o número de vagas para as jotas do PSD aumentou.
E não é de admirar. Quem é que, nos dias que correm, quer tirar um doutoramento, se pode ter um tacho na autarquia onde o primo-afastado-mas-que-ainda-assim-é-da-família trabalha?

Abaixo a ciência, não precisamos dela. Fechem todos os laboratórios, são supérfluos. Acabem com as universidades, só dão prejuízo. Aplicações e patentes? São inúteis. Eu tenho algumas ideias que penso serem melhores. Ei-las:

– Criar a BV (Bolsa de Vereador), com duração de 4 anos, podendo ser renovável por mais 4. O valor da bolsa corresponde a 1950€ + vales de refeição, que são 6 por dia.

– Inaugurar a FABPN (Fundação Ajudem o Banco Português de Negócios), que se dedica à angariação de fundos para injectar na respectiva identidade bancária.

– Criar o FMIPPAJJ (Fundo Monetário Ilimitado Para as Políticas do Alberto João Jardim), com o objectivo de apoiar a dívida da Região Autónoma da Madeira, assim como o fogo-de-artifício utilizado no Réveillon.

Estas são apenas algumas sugestões. Penso que são políticas como estas que devem andar para a frente, e não questões desnecessárias como «De onde nascem as ideias, a investigação e o desenvolvimento?». Se por acaso surgir algum novo vírus que seja uma ameaça para a saúde humana, aplicamos-lhes um submarino e um estádio de futebol, que fica o problema resolvido.

Publicado por Pedro Lino

Con(s)ciência juvenil

A Associação Juvenil de Ciência (AJC) é a única associação científica em Portugal dirigida e constituída por jovens. Neste momento com mais de 1600 membros espalhados pelo País. Juntos nesta rede cooperativa, investem na divulgação científica e em projectos de investigação e desenvolvimento. Formalizada em 1987, a AJC desenvolve feiras de ciência, debates, fins-de-semana científicos, palestras e encontros que envolvem os “jovens da ciência” e as localidades anfitriãs. Para uma geração com um ensino científico pobre de base, a AJC parece um bom sítio para ganhar con(s)ciência…

A principal actividade desenvolvida pela Associação Juvenil de Ciência (AJC) é o Encontro Juvenil de Ciência (EJC). Funciona como um congresso científico para jovens dos 15 aos 23 anos. Quem participa, vem partilhar o seu conhecimento, apresentando um trabalho de investigação. “Que poderá ser teórico”, acrescenta Francisco Ruivo, membro da Direcção eleito em Outubro passado. Durante 11 dias, na primeira quinzena de Setembro, o EJC é também uma oportunidade de explorar os arredores. O próximo encontro vai ser em Braga. Os cerca de 60 jovens poderão contar com visitas, actividades desportivas e convívio científico com palestras, debates e grupos de trabalho.

Com as mãos na ciência desde 1987, ano em que foi formalizada, a AJC já tem uma tradição na organização de eventos de e para jovens. O Encontro de Jovens Investigadores (EJI) existiu durante 15 anos como uma boa oportunidade para divulgar e comunicar projectos de ciência nas escolas durante alguns dias das férias da Páscoa. O último ocorreu em Santa Comba Dão. Paula Figueira, que fez parte da organização deste encontro, descreve-nos um impacto “bastante positivo”.

O dinamismo desta associação de jovens parte dos grupos regionais espalhados por Portugal. Vários grupos dinamizam actividades em campos diversos. Destacam-se o Grupo de Imagem e Fotografia, o Grupo de Estudo de Recursos Ambientais e o Grupo de Técnicas Aeroespaciais. Este último grupo visita escolas e ajuda na construção de microfoguetes, uma espécie de miniatura dos rockets que partem para o Espaco. “Uma introdução teórica é adaptada ao público alvo”, garante Francisco Ruivo.

Os resultados da recente reunião anual da AJC promete também envolver-nos em novas actividades. “Várias feiras de ciência vão representar a AJC pelo País”, descortina Francisco, o jovem tesoureiro. O apoio destas actividades passa pelo Programa de Apoio Juvenil (PAJ), Instituto Gulbenkian, autarquias locais e outros apoios pontuais.

Os melhores projectos de investigação juvenil tambem têm viajado além fronteiras com a AJC. A feira de ciência I-SWEEEP 2008 em Houston premiou o trabalho “Micropropagation of an endangered plant species” dos jovens Catarina Almeida, Nicole Rodrigues e Pedro Loução da Escola Secundária de Odemira com a medalha de prata. São bons resultados e uma boa representação da ciência dos jovens de Portugal.

Qual a imagem que a sociedade tem dos jovens? Uma falta de interesse crescente pelas ciências básicas, a matemática “à rasca”… “No meu tempo é que era…” diria o velho senhor. Francisco concorda. Hoje em dia “o nível de exigência é tão baixo”, a “carência por parte dos programas é enorme!” Ao transitar para o Ensino Superior, o aluno “embate-se com outra realidade”. E o que falta ao estudante do Secundário? Francisco sublinha as necessidades de método e de pensamento crítico, que podem ter resposta nas actividades da AJC. Quem participa, enriquece e diverte-se, ganha novos contactos e uma consciência renovada.

Mais: Associação Juvenil de Ciência, o sítio | I-SWEEEP 2008, vencedores da olimpíada

Publicado por João Cão

Pontos Cegos “Os Cientistas são humanos”

Na passada sexta-feira, no auditório do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Paulo Pereira e Herwig Turck apresentaram Blindspot (ponto cego). Este projecto investiga a percepção, numa colaboração interdisciplinar. Um estranho método apresenta-se numa intersecção entre o método da ciência e a criatividade da arte. Os objectos em palco são as ciências da visão, os laboratórios e os cientistas. Paulo é cientista e nos objectos que cria com Herwig reflecte sobre o seu papel. Ser cientista enobrece o homem, valoriza a sua palavra na sociedade. Mas não devemos esquecer, diz Herwig, que “os cientistas são humanos”.

No final das “Conversas sobre Cérebro e Arte”, promovidas em Coimbra, foram protagonistas Paulo Pereira, cientista e Herwig Turck, artista. Para uma plateia escassa apresentaram informalmente o projecto no qual têm vindo a colaborar. Desta iniciativa resultaram uma série de exposições de fotografia, performances e instalações artísticas, algumas destas acessiveís em www.theblindspot.org.

O Blindspot / Ponto cego fisiológico é uma área do nosso campo visual que corresponde à falta de células fotoreceptoras do disco óptico da retina. Uma parte do campo de visão do olho não é perceptível, mas é compensado no cérebro pela informação do outro olho. Analogamente, Paulo e Herwig chamam a atenção aos “Novos Invisiveís” com as suas intervenções interdisciplinares. A percepção visual depende das curcunstâncias sociais e culturais e os cientistas não são excepção. Afinal, “os cientistas são humanos”, complementa Herwig. “Eles trabalham no contexto que são educados”.

O Blindspot produz uma sinergia entre arte e ciência. Nas diferentes experiências que fazem parte do projecto, produz-se uma “proto-linguagem”, ou “intermedia” entre arte e ciência. Objectos são descontextualizados, gestos são automatizados, como se falássemos de uma “antropologia do método científico”.

Na instalação blinddate, podemos experienciar esta percepção única dentro dos sons reais que povoam os laboratórios do AIBILI (Association for Innovation and Biomedical Research on Light and Image) de Coimbra. Os materiais de laboratório são isolados, estudados, “para ver como mudam quando no palco”, diz Herwig. “São emancipados de alguma forma” quando vistos por diferentes perspectivas.

A Semana Internacional do Cérebro ocorreu de 16 a 22 de Março com várias actividades assinaladas. O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e o Centro de Neurociências e Biologia Celular promoveram um conjunto de “Conversas sobre Cérebro e Arte”, das quais Herwig Turck e Paulo Pereira foram protagonistas.

Publicado por João Cão

Segundo Episódio do documentário “Geração Cientista” já pode ser visto

O segundo episódio do documentário televisivo “Geração Cientista” que disponibilizamos recorda o trabalho desenvolvido por Hélder Maiato.

(Re)descubra no website da Associação Viver a Ciência os jovens cientistas portugueses. Todas as semanas, sempre à sexta-feira.

«A primeira vez que Hélder Maiato viu uma célula a dividir-se ficou deslumbrado. Desde então dedicou-se ao estudo deste ‘milagre’ biológico. Porque todas as células têm origem em células preexistentes, a divisão celular – que permite a uma célula dar origem a duas – está na base da Vida pré-existente»In “Profissão Cientista: Retratos de uma Geração em Trânsito” (2005)

 

Veja o vídeo e saiba mais aqui.

Associação Viver a Ciência disponibiliza on-line episódios do documentário “Geração Cientista”

A Associação Viver a Ciência disponibiliza on-line os episódios do documentário “Geração Cientista”. A partir de hoje, todas as sextas-feiras há um cientista novo para (re)descobrir.  

O primeiro documentário disponibilizado expõe o percurso profissional da bióloga do desenvolvimento, Isabel Palmeirim, da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho (Braga).

Veja aqui os vídeos e o texto completo.