Category Archives: Blogs de Ciência

Os Sons da Ciência (15): Moby, os números, a velocidade e a convicção que “somos todos feitos de estrelas”


A dica para Os Sons da Ciência de hoje veio de Rafael Soares, biólogo brasileiro que escreveu uma entrada no blogue de ciência RNAm. De lá, roubámos o tema “We are all made of stars”, do norte-americano Moby, que integra o álbum 18 (2002). Sugerimos que vasculhem o referido post no RNAm porque, se o fizeram, econtram lá mais música que se entrelaça neste tema.

Publicado por Sílvio Mendes
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Terra no Espaço

No dia 30 de Julho publiquei neste blog um comentário «Conhecer a Terra ou o Espaço» que gerou alguma controvérsia, incluindo comentários neste mesmo blog, um post e comentários no blog «astro.PT» e um esclarecimento por parte dos moderadores deste blog. Depois da troca de comentários em ambos os blogs, relembro que a questão que pretendia ser a central do post original, aliás indicada pela categoria em que foi inserido, era o financiamento científico.

Permitam-me assim esclarecer e clarificar (se quiserem, corrigir) o comentário original, num espírito de reconciliação académico.

1. Opinar sobre prioridades de financiamento científico não constitui um ataque ao mérito científico das áreas que se possam considerar menos prioritárias. É uma avaliação sobre onde devem ser investidos prioritariamente recursos financeiros e humanos.
Para dar um exemplo diferente do post inicial (mais uma vez uma opinião pessoal, e sem querer travar qualquer analogia com o debate face à Astrobiologia): contraste-se o financiamento da indústria farmacêutica em áreas como a cosmética, retardamento do envelhecimento, obesidade, e desenvolvimento de fármacos para doenças mais típicas de países mais desenvolvidos, com o investimento na investigação de doenças infecciosas que ocorrem primariamente em países menos desenvolvidos e que são responsáveis por milhões de mortos anualmente  (e.g., cólera, disenteria, lepra, malária, etc). Para mim há aqui uma repartição desequilibrada e lastimável de financiamento, o que não equivale a dizer que eu ache que não deva haver investigação sobre doenças cardiovasculares ou que esteja a atacar o financiamento nessa área. É sim, em parte, uma crítica ao critério, neste caso económico, que jaz por de trás deste desequilíbrio. Espero que este exemplo, numa área distinta, ajude a entender que falar sobre prioridades de financiamento não equivale a desvalorizar o mérito científico (ou social) de uma área que se opine ser menos prioritária.

2. Outra clarificação diz respeito à frase final do post original  (que corrigi a posteriori): «Deixemos a vida extra-terrestre para a ficção científica». Essa frase  vinha no seguimento de referências à descoberta de vida inteligente noutros locais do Universo. Admito que a frase não foi suficientemente clara. Não pretendia ser um ataque transversal à Astrobiologia. Permitam-me a correcção: «Deixemos a vida inteligente extra-terrestre para a ficção científica», para assim separar o que entendo ser a componente principal da Astrobiologia – busca de evidência de vida, elementos pré-bióticos, e condições propícias para a evolução de vida (como a existência de água) – de outros esforços, nomeadamente o de encontrar vida inteligente extra-terrestre. Considero a primeira um empreendimento científico interessante, digno de ser seguido e financiado e, como referido no post original, uma área que já tem dado resultados empolgantes. Por contraste, considero o empreendimento de procurar formas de vida inteligente com a qual possamos travar comunicação um esforço pouco prioritário, dada a improbabilidade de tal vir a acontecer. Foi relativamente a este empreendimento que invoquei a ficção científica e a forma como a comunicação social por vezes apresenta a exploração espacial. A minha observação prendia-se com o facto de a exploração espacial poder beneficiar dos sentimentos fomentados por filmes e séries que apresentam cenários irrealistas. Não impliquei a própria Ciência em qualquer conspiração ou manipulação propositada. Não faço qualquer associação entre Astrobiologia e ficção científica, não há qualquer confusão a esse respeito da minha parte e lamento se o texto permitiu essa leitura.

3. Feita esta distinção, reitero: não pretendia atacar a Astrobiologia, que considero ser uma legítima área científica merecedora de ser prosseguida e financiada. Desejava sobretudo chamar a atenção para o nosso desconhecimento da topografia e biologia dos fundos marinhos terrestres que representam 70% da superfície do nosso planeta, onde se estima existirem milhões de espécies de bactérias marinhas desconhecidas pela ciência e que muito poderiam contribuir para o entendimento da origem e evolução da vida terrestre.
Naturalmente que a escolha não é entre financiar a Biologia Marinha e a Astrobiologia. A escolha de financiamento é feita entre todas as áreas (e nem há um único bolo de financiamento, nem são usados apenas critérios científicos). A ponte entre as duas áreas foi feita porque o desconhecimento dos nossos fundos marinhos contrasta com o conhecimento que já possuímos sobre a topografia da Lua e de Marte.

4. Há uma questão, que considero menor, de discórdia sobre a amplitude e definição do campo da Astrobiologia.
A Astrobiologia compreende o estudo da vida no Universo, que inclui naturalmente a Terra mas entendo que a Astrobiologia, enquanto área científica, compreende mais especificamente o estudo de vida extra-terrestre. Não será por acaso que esta também seja referida como Exobiologia.

Se considerarmos ser objecto da Astrobiologia o estudo da vida tanto na Terra como fora dela, então esta seria indistinguível da Biologia, ou in extremis a Biologia seria uma sub-categoria da Astrobiologia, o que não me parece ser muito clarificador.

Naturalmente, há sobreposição entre as duas áreas, mas creio que existem benefícios em utilizar os dois termos para designar áreas de investigação distintas, independentemente das ligações que inequivocamente existem entre elas. Se o estudo sobre extremófilos terrestres está dentro do campo da Biologia (terrestre) ou da Astrobiologia (no sentido mais restrito) parece-me de interesse menor. Ambas as áreas podem aprender muito com o estudo das condições extremas em que é possível existir vida.
Para tentar ser o mais claro possível: considerando a natureza um todo contínuo, as áreas científicas são categorias históricas geradas pelo Homem. Há lugar para a existência de Biologia, Astrobiologia, Astronomia, etc. As áreas têm sobreposições sendo de fomentar a interdisciplinaridade. A delimitação das áreas é uma questão de categorização da ciência. O meu comentário, mais uma vez o repito, tinha como ponto central prioridades de financiamento científico. Usei como instrumento o contraste entre o estudo da Terra versus o do (resto do) Espaço, duas categorias ou áreas de estudo.

5. Relativamente à evocação de Carl Sagan, foi uma nota meramente biográfica sobre o meu percurso intelectual, em que pretendia ilustrar o impacto pessoal que este teve sobre mim enquanto divulgador científico. Acrescentei porém que à medida que o meu interesse e conhecimento pela biologia, pela questão da origem da vida, foi crescendo, comecei a divergir cientificamente das opiniões de Sagan, como seja o esforço em procurar indícios de vida inteligente extra-terrestre, do qual ele foi promotor. Evocando ainda Sagan para voltar à questão das prioridades de financiamento: no seio da NASA, Sagan foi, por exemplo, apologista de mais missões robóticas em oposição ao programa do vaivém e Estação Espacial. Registo isto apenas para ilustrar como opiniões sobre decisões sobre financiamento não implicam “ataques” mas diferenças de opinião sobre prioridades.
Espero com isto ter clarificado o objectivo do post inicial, e espero que as relações entre os comentadores dos dois blogs possam no futuro ser mais positivas, contribuindo para o objectivo comum da divulgação científica.

Publicado por André Levy
Deixemos a vida extra-terrestre [acrescentado a posterior: em particular, vida inteligente] para a ficção científica.

Oito músicos, oito objectivos, um blogue de ciência e um vídeo para ver


Quebramos este longo período de ausência de actividade no blogue com um três em um. Uma de Mistura de Os Sons da Ciência, Vê-se à segunda (quarta!) e de uma Ronda por Blogues de Ciência.

Isto para dar conta que o blogue O único planeta que temos foi o grande vencedor dos Super Blog Awards 2009/2010 na categoria de “Ciência, Ambiente e Energia”. Foi também nesse “espaço que dá voz à Terra!” que encontrámos o vídeo que partilhamos aqui.

8 goals for Africa (8 objectivos para África) é o título de uma canção gravada por 8 músicos africanos que representa os oito objectivos do Milénio. E para que o trocadilho fique completo, é mais que certo que o vídeo será exibido durante o Mundial de Futebol na África do sul. Ei-lo.

8 Goals Away

Música de Jimmy Dludlu
Letra de Eric Wainaina

Verso 1
People working for less than a dollar a day
And there’s no answer to the hunger
And the poverty never seems to go away
They’re asking how much longer?

Verso 2
Let the children go to school
Let there be no reason
They can’t get an education
I see the beautiful minds coming
From miles and miles like butterflies
Let’s feed the thirst in their eyes

Refrão
Time is tick, tick, ticking
It’s ticking away
Hear the call for a through-ball
Yes! A luta continua
There’s no time to delay
The Africa we dream of
Only 8 Goals away.
Africa E!
Africa O!

Verso 3
If we teach a girl to read
A future generation rejoices, rejoices
Put a microphone in the hands of our sisters
Hear their voices, know their choices

Verso 4
We have the power at this very hour
To decide we’re losing no child under five
That they will grow and live to see their eighties
And live to see their babies’ babies

Verso 5
She puts his hand on her stomach
His other hand is on the heart, card in his pocket
Their doctor, knows she’ll make it
As for the baby that both parents created
Sitting at the gateway
They are new parents-to-be
Its a good, good day

Verso 6
We’ve made such major steps
In the right direction
We took the road less traveled by
We’ve pulled hard on the reigns of major sickness
No, we won’t bear the burden of the sadness

Verso 7
Smoke from factories
Killing rivers and trees
The water’s not drinkable
The situation’s unthinkable
We must have somewhere to go when we need to go
Overcrowded spaces
Like a maximum sentence

Verso 8
What we need is opportunity
A world in unity
A level playing field
See where we went wrong
Take a look at the replay
It’s time for fair play

Publicado por Sílvio Mendes

Bons ventos de Espanha: Encontro sobre ciência e comunicação na ressaca da nova Lei (espanhola) da Ciência

De Pamplona, Espanha, chegam-nos os ecos da 5ª edição do Congreso Sobre Comunicación Social de La Ciência, realizada entre 10 e 12 de Março, no Planetário da mesma cidade.
Das conclusões partilhadas no website oficial do evento ressaltam algumas ideias que vale a pena conhecer.

Primeiro, retiradas do texto conclusivo Declaración de Pamplona: Uma nueva cultura que, inicialmente, recupera as premissas que deram origem à iniciativa, em Granda, há onze anos atrás…

«A informação científica é uma fecundíssima semente para o desenvolvimento social, económico e político dos povos. A cumplicidade entre os cientistas e os restantes cidadãos é uma excepcional celebração da democracia. E, para além disso, uma nova cultura contribuiria para reduzir as fraudes mascaradas de ciência, aumentaria a capacidade crítica dos cidadãos, derrubaria medos e superstições, faria os seres humanos mais livres e mais audazes.»

 … e, depois, passa para um lúcido e objectivo resumo do rumo que se pretende para o futuro:

«Defendemos uma nova cultura, integradora e transformadora em todos os sentidos: a interacção com o público, o papel dos media e das novas tecnologias de informação, a necessidade da inovação com critérios científicos, a defesa de uma educação realmente activa na promoção da cultura científica e a abertura de novos espaços e redes de cooperação, assuntos que foram objecto de debate nesta quinta edição do Congreso sobre Comunicación Social de la Ciência.»

A chefe do Departamento de Cultura Científica e da Inovação da Fundação Espanhola para a Ciência e Tecnologia, Rosa Capeáns Garrido, fechou o congresso com palavras de optimismo:

«São muitas as alternativas e vias, todas elas válidas, para fazer chegar a ciência à sociedade. A necessidade é evidente, os métodos variados: desde o teatro à imprensa, desde a banda desenhada aos museus, desde o cinema ao humor, desde as revistas à Internet, apenas necessitamos de manter vivo o entusiasmo pelo nosso trabalho, conscientes de que é um esforço necessário para que consigamos atingir a meta mais ambiciosa de todas: avançar para um mundo melhor.»

Nota: O governo espanhol aprovou este mês uma nova Lei de Ciência (consultar aqui), que promoveu alterações importantes no sistema científico espanhol (mesmo não escapando às críticas da Associações Científicas). É o pretexto ideal para voltarmos à Declaración de Pamplona: Uma nueva cultura:

«Agora constatamos que a comunicação científica está escrita e inscrita nas obrigações do Estado. A nova Lei de Ciência (…) semeia importantes oportunidades e reforça junto de todos os actores do sistema de ciência a necessidade de continuar a apostar na comunicação como um dos agentes de mudança e desenvolvimento social e cultural. Para o conseguirmos, continuamos a necessitar de um maior envolvimento por parte dos poderes públicos.»

 

Este texto integra o dossier especial criado para o Workshop Ciência, Política e os Media (15 de Abril de 2010, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa)

Publicado por Sílvio Mendes

Mais ciência em Alice no País das Maravilhas

Ainda o fumo em torno de Alice no País das Maravilhas, hoje em estreia no grande ecrã numa versão assinada por Tim Burton.

Ontem falámos na Matemática, hoje viramos as agulhas para outros lados. Primeiro, um texto publicado por Luís Azevedo Silva Rodrigues, no blogue Ciência ao Natural, faz o paralelismo entre o Chapeleiro Louco e o canto das aves. Que têm em comum? A resposta está no Mercúrio.

«– Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Março. Visita o que quiseres, ambos são loucos.
– Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu Alice.
– Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.»

O segundo apontamento vai para Câmara Clara, programa da RTP2 conduzido por Paula Moura Pinheiro, que no próximo domingo (7 de Março) parte do universo de Alice no País das Maravilhas e «de muitas outras invenções» para debater a relação entre cérebro, emoções e arte. Afonso Cruz e Mário Simões são os convidados da noite.


E já que tanto falamos em Alice, aqui fica a versão que preenche o meu imaginário (antes que Burton o reconfigure).

Publicado por Sílvio Mendes

Ronda rápida por blogues de ciência (2): Ecosia, o motor de busca mais ecológico do planeta


O novo motor de busca (criado conjuntamente pela Bing, Yahoo e WWF) salva cerca de 2m² de floresta tropical por cada pesquisa Web, isto porque, de acordo com os responsáveis do mesmo, o dinheiro arrecadado pela publicidade reverte na íntegra para o programa de protecção da Amazónia da WWF (Parque Nacional do Jurena).

Os mesmos responsáveis asseguram ainda que, ao contrário do Google, os servidores do Ecosia são alimentados a electricidade de fonte renovável.

Instalei o serviço e em apenas quatro pesquisas já “salvei” quase 40 m² de floresta tropical, como me informa o software do motor de busca. Opinião importante é de Manuela Araújo, uma das autoras do blogue Sustentabilidade é Acção, de onde retirámos esta informação:

«É fácil de instalar e tem um desempenho razoável – tenho usado como motor de base, mas de vez em quando tenho de recorrer ao concorrente Google para certas pesquisas, que aliás, tem acesso rápido a partir da barra do Ecosia. Só começando a ser mais usado este motor poderá ser aperfeiçoado.»

Se tantos números nos confundem a razão, talvez este vídeo de promoção do motor de busca nos possa ser útil para um juízo mais completo.

Publicado por Sílvio Mendes

Ronda rápida por blogues de ciência: Peixes lembram, abelhas reconhecem

Um grupo de investigadores australianos parece (mesmo que involuntariamente) estar empenhado em deixar cair por terra um dos maiores mitos do mundo da ictiologia. O seu estudo, com base no comportamento da perca prateada, não só conclui que os peixes podem lembrar-se dos seus predadores pelo menos durante um ano, como aposta que possuem uma admirável capacidade de aprendizagem.

A informação pode ser lida em qualquer membro do cardume noticioso mundial, mas é justo dizer-se que a encontei no blog PlanetBio. A ciência a fazer a Dory corar de vergonha?

Noutros voos, um estudo publicado no Jornal da Biologia Experimental arrisca que as abelhas podem diferenciar pessoas através da observação do seu rosto, como pode ler-se no blog ÓcioCientífico.

No ar ou no mar, o caminho do conhecimento é longo e a travessia científica não pára de nos surpreender.

Publicado por Sílvio Mendes