Author Archives: Ricardo Ramiro

1. Histórias naturais: A orquídea mentirosa e a ejaculação da vespa

Orquídea do género Cryptostylis e polinizador

Orquídea do género Cryptostylis e polinizador

Uma das primeiras coisas que nos apercebemos ao estudar biologia um pouco mais é que, para qualquer regra que tenha sido estabelecida, existem sempre excepções. Por vezes essas excepções são bem mais interessantes do que a regra e o seu estudo pode levar-nos a perceber muito melhor essa mesma regra. Um artigo* recentemente publicado no The American Naturalist mostra, mais uma vez, que a relação justa e fiel entre as flores e os seus insectos polinizadores pode afinal envolver um pouco de mentira. Neste caso, uma dose extrema de mentira. A flor, uma orquídea australiana (género Cryptostylis), atrai machos da vespa Lissopimpla excelsa usando como “isco” algo irresistível para um macho: o cheiro de uma fêmea! A mentira é tão perfeita que leva os machos não só a copular com a flor, como a ejacular. Porque teria a orquídea evoluído tal semelhança? Quais os custos para os machos? Será que estes aprendem a reconhecer a mentira? Estas são algumas das perguntas que os autores tentam responder e que fazem com que ler este artigo se assemelhe a ouvir uma aventura dos nossos avós contrabandistas!

A relação entre plantas e os seus insectos polinizadores é normalmente baseada na “confiança” entre as espécies envolvidas de que a planta fornece de néctar o insecto, e este leva consigo grãos de pólen essenciais para a reprodução da mesma planta. Mas há excepções. Na família das orquídeas as excepções representam quase tantas espécies como a regra. Estas orquídeas não retribuem o esforço dos insectos que as polinizam, usando uma variedade de estratégias para enganar os mesmos. Entre essas estratégias há orquídeas que levam os machos de determinados insectos a copular com as suas flores. Gaskett e os co-autores do artigo “Orchid sexual deceit provokes ejaculation” repararam que após copularem com as flores das orquídeas, alguns destes insectos deixavam uma gota de líquido nas mesmas. A anáslise desse líquido revelou que os insectos estavam a levar essa cópula bastante a sério.

Sabendo que a produção de esperma tem custos para os indivíduos (ex.: massa corporal reduzida), estes cientistas perguntaram o porquê de tal acontecer. Para responder à questão analisaram o sucesso reproductivo de diferentes orquídeas, nas quais a intensidade da actividade sexual entre a planta e o insecto era variável (ex.: alguns copulavam sem ejaculação, outros apenas ficavam momentaneamente presos dentro da flor, etc). A resposta foi clara: plantas que levassem os insectos à ejaculação tinham uma probabilidade maior de serem polinizadas com sucesso. O casal vencedor (ou perdedor): as orquídeas do género Cryptostylis e os machos da vespa Lissopimpla excelsa.

É sabido que as orquideas produzem cheiros muito parecidos com as feromonas** produzidas pelas fêmeas de certos insectos. Os autores acreditam que, no caso das Cryptostylis, o cheiro por elas produzido é tão semelhante ao das fêmeas de Lissopimpla excelsa que estimula não só uma cópula extremamente vigorosa e longa, como um maior número de visitas por parte dos polinizadores, o que por sua vez leva a uma maior e melhor transferência de pólen. Apesar de bem montada… a mentira tem perna curta, com a experiencia os machos vão aprendendo a evitar estas orquídeas, sendo que após serem enganados alguns já nem aterram nestas plantas. Assim sendo como subsiste a mentira? Como são polinizadas estas orquídeas?! Servem-se da inexperiência dos mais jovens, aliada ao estilo de vida solitário destas vespas e ao facto de serem haplodiploides (as fêmeas só necessitam de machos para produzirem mais fêmeas; os machos nascem de ovos não fertilizados). Uma vez que são solitários não se pode dar uma transferência de informação entre gerações, cada indivíduo tem de aprender apenas e só através dos seus próprios erros – o que leva a que os mais jovens sejam também os mais enganados. Todo o sistema faz com que estas orquídeas pareçam mais perversas do que a mais perversa vilã de telenovela. Se não reparem: como no sistema haplodipoide as fêmeas da vespa produzem machos sem necessidade de esperma, está assegurado um fornecimento continuo de jovens machos no auge da sua ingenuidade e das suas capacidades sexuais (o pico de esperma acontece após emergirem). Como estes machos vão perder tempo e esperma em relações com as orquídeas é provavel que acasalem menos com as fêmeas, mas ainda assim o suficiente para estas não desaparecerem. Isto leva no entanto a que haja mais machos do que fêmeas na população, o que por sua vez faz com que haja mais competição entre machos, fazendo com que estes “pensem” menos na hora de escolher uma “fêmea”, e diminuindo o efeito da aprendizagem.

É doentio! Mas, extremamente belo: “Orchids exhibit an almost endless diversity of beautiful adaptations.” ***
* Gaskett, AC, Winnick, CG, Herberstein, ME; 2008; Orchid Sexual Deceit Provokes Ejaculation; The American Naturalist 171(6) pp. E206-E212

** A não ser que exista algo terrivelmente errado nos textos da wikipedia, irei usar frequentemente os links do site em português (ou inglês), para que os leitores possam clarificar alguns termos.

*** Darwin, C. (1862). On the various contrivances by which British and foreign orchids are fertilised by insects, and on the good effects of intercrossing (London: J. Murray).

Publicado por Ricardo Ramiro