Author Archives: pedrofalcao

Interpretar visualmente o mundo natural


Se estiver em Barcelona, pode, até amanhã dia 7 de Janeiro, ver os magníficos
trabalhos do artista Americano Dan Funderburgh. Este propõe-nos interpretações visuais da popular série de 25 livros “Life Science Library”, publicados pela Time-Life entre 1964 e 1967, sobre os grandes tópicos mundo natural.

«O trabalho científico baseia-se na convicção de que a natureza é, basicamente, ordenada. A evidência para apoiar este hipótese, pode constatar-se no desenho de um favo ou da concha de um molusco; mas os cientistas procuram e descobrem padrões a todos os níveis da existência.»
The Scientist, Henry Margenau

Esta exposição está patente na loja/galeria Vallery, pertencente ao estúdio de design gráfico VASAVA, em Barcelona.

Publicado por Pedro Falcão

Ciência e Literatura (13): a memória de Luis Buñuel

Em “O Meu Último Suspiro”, livro semibiográfico, Luis Buñuel viaja pelas memórias de uma vida recheada de episódios, encontros e desencontros: Llorca, Breton, Dali, Hollywood, a sua infância em Espanha, o amor, os sonhos e o surrealismo, entre outros.

Relevante e curioso é o facto de Buñuel dedicar um capítulo para falar da memória, e da sua fiabilidade ou falsidade.

Tendo em conta o constante recurso à imaginação e ao devaneio nas suas criações artísticas, poder-se-ía pensar que este seria para Buñuel um terreno pantanoso, e por isso, a evitar.
Mas logo de ínicio, antes de começar a evocar o passado, Buñuel adverte o leitor para a possibilidade de haverem falsas recordações evocadas nas páginas seguintes:

” (…) Uma vida sem memória não seria vida. (…) A nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, a nossa acção, o nosso sentimento. Sem ela, não somos nada.
(…) Indispensável e omnipotente, a memória é também frágil e ameaçada. Ameaçada não só pelo esquecimento, o seu velho inimigo, mas também pelas falsas recordações que a invadem dia após dia. Um exemplo: durante muito tempo contei aos meus amigos o casamento de Paul Nizan. Via perfeitamente a igreja de Saint-Germain-de-Prés, a assistência de que eu fazia parte, o altar, o padre, Jean-Paul Sartre enquanto testemunha do noivo. Um dia, pensei bruscamente: mas é impossível! Nunca o Paul Nizan, marxista convicto e a mulher, que pertencia a uma família de agnósticos, casariam pela Igreja! Era absolutamente impensável! Teria então transformado uma recordação? Tratar-se-ía de uma recordação inventada? De uma confusão? Ainda hoje não sei.
A memória é constantemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, a assim como existe a tentação de acreditar na realidade do imaginário, acabamos por fazer da nossa mentira uma verdade. O que é, aliás, de uma importância relativa, já que uma e outra são igualmente vividas e pessoais.
(…) Sou composto pelos meus erros e dúvidas, a par das minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a quaisquer apontamentos ou a qualquer livro. O retrato que aqui proponho será sempre o meu, com as minhas afirmações, hesitações, repetições a lacunas, com as minhas verdades e as minhas mentiras, numa palavra: a minha memória.”

Publicado por Pedro Falcão

Sir David Attenborough explica a evolução das espécies

Este vídeo é parte integrante no projecto Tree of Life, desenvolvido pela Welcome Trust. No site do projecto pode-se encontrar, para além deste vídeo, uma simulação interactiva da árvore da vida e, para cada espécie explorar-se simulações 3d, diversas imagens, textos, links, etc.

Publicado por Pedro Falcão

O mapa das ciências, ou dos seus paradigmas

MAP OF SCIENCE created by Sandian Kevin Boyack with collaborators Richard Klavans and Brad Paley

A ciência é provavelmente a actividade humana que mais conexões pode gerar e é talvez essa a razão para haver tamanha proliferação de sistemas de mapeamento sobre temáticas científicas.
Já num post anterior referi o site visualcomplexity.com, gerido pelo designer português Manuel Lima, que compila mais de 700 projectos de mapping.
De facto, os profissionais e “amantes” de mapas têm à sua disposição cada vez mais fontes de conhecimento e discussão através de websites e bibliografia sobre o tema  (a propósito, recomendo vivamente o livro “The Visual Display of Quantitive Information” de Edward Tufte, um autor imprescindível para os estudiosos de sistemas de informação).
Nesse post, não referi qualquer mapa em particular, até porque me era difícil escolher um entre tantos que valeria a pena mostrar. Mas eis que me chamaram a atenção para o mapa que vos mostro em cima.

Aqui fica uma descrição do projecto por parte dos autores:

«The map represents 800,000 scientific papers (shown as white dots) and shows relationships between them and different scientific disciplines. The “filaments” are common words unique to each “scientific paradigm” — the 776 red circular nodes or clusters of papers. Each node contains papers that are commonly cited together. Larger nodes have more papers. Nodes are connected with lines of various lengths and thicknesses, denoting the strength of the citation linkages between the nodes. Layout of the nodes was done using Sandia’s VxOrd clustering algorithm. Chemistry papers are found in the right-hand peninsula while astrophysics is located at the top. Medicine covers the large region at the lower left.»

Podem ver uma nova versão deste mesmo mapa, que mantém a mesma estrutura e lógica, mas possui uma representação gráfica diferente aqui.

Publicado por Pedro Falcão

Ciclo “Cinema e Ambiente” na Cinemateca

“Entre Setembro de 2009 e Julho de 2010, ao ritmo de uma sessão mensal, a Cinemateca Portuguesa e a Fundação Calouste Gulbenkian colaboram na organização de um Ciclo centrado em temáticas ambientais. Cada sessão é comentada por um convidado ou uma convidada, numa escolha (dos filmes e dos comentadores) presidida pela vontade de diversificar ao máximo os temas e as abordagens.

Já no dia 9 de Março (Sala Dr. Félix Ribeiro, às 21:30), numa sessão comentada por Paula Moura Pinheiro, mostra-se INTO THE WILD, de Sean Penn, que nos conta “o percurso do jovem Christopher McCandless (uma notável interpretação de Emile Hirsch) que após se licenciar na universidade de Emory, resolve desfazer-se de todos os símbolos da civilização, dando aos amigos os seus haveres e as suas economias (24.000 dólares) para obras de caridade, partindo, em seguida, à boleia, para o Alasca para viver a “vida selvagem”.

Publicado por Pedro Falcão

Mapas: onde a ciência e a arte se reúnem

O cérebro humano continua a ser alvo de inúmeros estudos e tentativas de visualização que conduzam a um melhor entendimento da sua vasta rede de interligações e impulsos nervosos.
Esta é apenas uma das áreas de interesse actual para quem faz mapas, ou para quem, como Manuel Lima, se dedica a compilar no site visualcomplexity.com projectos de visualização de redes complexas. São mais de 700 projectos de mapping, entre os quais 50 de Biologia.

São representações gráficas de dados, simplificadas na maior parte das vezes, mas todas graficamente muito apelativas, e permitem uma leitura alternativa sobre as matérias abordadas.
O objectivo deste site é, nas palavras do seu criador, “estimular um olhar crítico sobre diferentes métodos de visualização” em áreas tão diversas como a Biologia, as Redes Sociais ou Política.

Manuel Lima é um designer açoriano a viver em Londres e foi eleito pela famosa revista “Creativity” como uma das 50 mentes mais criativas e influentes de 2009. Reparte esta distinção com o realizador David Fincher, o fundador e CEO da Amazon.com, Jeff Bezos, o estratega da campanha presidencial de Barack Obama, David Axelrod, o humorista Stephen Colbert, entre outros.
Esta lista distingue pessoas que “impuseram uma marca significativa na consciência criativa da nossa indústria e cultura”, fazendo-nos “pensar de um modo diferente sobre um determinado método instituído”.

Publicado por Pedro Falcão

Ciência e Literatura (9): Almada Negreiros em Nome de Guerra

Capa original da 2ªedição de "Nome de Guerra"

“O leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo.”

José de Almada Negreiros, “Nome de Guerra”

Publicado por Pedro Falcão

Literatura e Ciência (7): “Confissão”, de Bulhão Pato

«Fui na infância católico exaltado;
Tudo era para mim edificante,
Ver o altar, ver o trono cintilante,
Ouvir na igreja a voz do órgão sagrado!

Foi-se apagando o amor arrebatado,
E a ciência levou-me num instante,
Com o sopro glacial e penetrante,
O edifício de luz do meu passado!

Deitei-me aos pés dos grandes missionários,
Na eloquência e na fé extraordinários;
Nenhum deles me deu sombras d’esp’rança!

Ó crenças infantis, talvez agora,
Volteis a mim, ardentes como outrora:
Diz-se que um velho torna a ser criança!… »

Bulhão Pato — Bilbau, Espanha, 1829-1912

Publicado por Pedro Falcão

Literatura e Ciência (6): Alberto Caeiro e a metafísica

«Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso eu do mundo?
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentando, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.»

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos / V

Publicado por Pedro Falcão

Ciência e Literatura (4): Gabriel Garcia Marquéz na década de 60 e a internet

“Em Março voltaram os ciganos. Desta vez levavam um óculo de longo alcance (…) como última descoberta dos judeus de Amesterdão. Sentaram uma cigana no extremo da aldeia e instalaram o óculo à entrada da tenda. Mediante o pagamento de cinco reais, quem quisesse olhava pelo óculo e via a cigana ao alcance da mão. «A ciência eliminou as distâncias», apregoava Melquíades. «Em breve o homem poderá ver o que se passa em qualquer lugar da Terra , sem sair de sua casa.»
Gabriel Garcia Marquéz, Cem Anos de Solidão, Dom Quixote, 2005, p.10

Publicado por Pedro Falcão