Nova espécie de Leão

Com a generalização das técnicas de sequenciação de ADN, tornou-se relativamente fácil comparar geneticamente indivíduos, populações de uma espécie, espécies, e por aí adiante, cobrindo os vários níveis taxonómicos. A comparação destas sequências constituiu uma fonte de informação para a inferência do relacionamento entre taxa, a reconstrução da árvore da vida.

[De momento debate-se se a árvore será a melhor metáfora para descrever as relações entre taxa. Um dos argumentos é que os relacionamento histórico entre taxa não é sempre bifurcante. Sugere-se a metáfora de teia, rede, anel. Há razões apelativas para repensar um novo paradigma sobre a forma do relacionamento de linhagens, devido a hibridações,  transferências horizontais, etc.). Mas penso que abandonar a a metáfora da árvore é desnecessário. Basta pensar num figo estrangulador :)]

Mas voltando à comparação de sequências de ADN: a comparação de ADN de diferentes populações de uma espécie tem por vezes revelado a existência de diferenças profundas entre populações, diferenças de uma tal ordem que são comparáveis às diferenças que geralmente se verificam entre espécies, e que sugerem que populações antes consideradas de uma mesma espécie podem na verdade constituir espécies diferentes, que não eram reconhecidas como tal pela mera consideração superficial das suas características morfológicas. Este reconhecimento pode ter importância do ponto de vista da conservação da biodiversidade. Por exemplo, o uso de dados moleculares permitiu a membros da Unidade de Investigação de Eco-etologia do ISPA, na qual estou integrado, suspeitar que duas populações de peixe de água doce (bogas; género Chondrostoma) de rios Portugueses eram espécies diferentes, facto confirmado com dados morfológicos [Robalo, J., Almada, V., Santos, C., Moreira, M.I. and Doadrio, I. 2005. Chondrostoma occidentale, a new species of the genus Chondrostoma Agassiz, 1832 (Actynopterigii, Cyprinidae) from western Portugal. Graellsia 61(1): 19-29. ]

Um estudo recente de 15 leões do Jardim Zoológico de Addis Ababa, na Etiópia, usando dez loci de micro-satélites (regiões do ADN muito variáveis), concluiu que esta população em cativeiro é bastante diferente geneticamente das restantes populações de leão (Panthera leo), podendo constituir um espécie diferente. Já antes estes leões eram notáveis pela sua juba grande e negra.

“Leão de Juba Negra”

A população do Jardim Zoológico foi fundada em 1948, a partir de sete  indivíduos capturados no sudoeste da Etiópia. Desde então o número de leões diminuiu drasticamente na Etiópia, sendo possível que existam apenas algumas centenas de indivíduos, em cativeiro e em liberdade. É portanto possível que esta nova “espécie” já não exista na natureza.

Por este motivo, os investigadores estão a fazer pressão para que os leões do zoo de Addis Ababa sejam considerados como vulneráveis por forma a accionar programas de conservação. Um programa de reprodução em cativeiro já está a ser conduzido.

O estudo encontra-se publicado em:
Bruche, S. et al.  2012. A genetically distinct lion (Panthera leo) population from Ethiopia. European Journal of Wildlife Research

[Este artigo faz parte de uma série dedicada à biodiversidade e descoberta de novas espécies.]
Publicado por André Levy

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