Literatura e Ciência (22): Gonçalo M. Tavares (d)escreve Goldstein, o cego «que trazia sempre a tabela periódica de Mendeleev» no bolso


A literatura feroz de Gonçalo M. Tavares há muito que anda a insinuar-se para fazer parte desta rubrica (se me permitem inverter a ordem e a lógica das coisas). Para sustentar essa afirmação basta lembrar a obra Breves Notas Sobre Ciência (Relógio de Água, 2006), que só pelo título já justificaria presença assídua na rubrica Literatura e Ciência. É então chegada a hora de lhe fazermos a vontade, ainda que recorrendo às páginas de outro livro.

Fomos à seiva de Matteo perdeu o emprego (Porto Editora, Outubro de 2010) e encontrámos um universo infinito de possíveis citações: Greenfield (uma personagem) que se ocupa com experiências científicas com chimpanzés, uma tabela periódica em que os elementos químicos dão lugar a nomes e abreviaturas de cidades, e uma valiosa citação de Robert Musil – «Uma ideia que se mantém mais de cinco minutos é já uma ideia fixa. Excepto na ciência.» -, logo diagnosticada pelo próprio Tavares: «não estamos preparados para saber tudo logo de início, por isso mesmo continuamos e fazemos perguntas».

Aqui, deixamos a história de Goldstein, cego, rico, que dedica os seus dias à busca de «uma das substâncias mais raras do universo»:

«Passara já dos cinquenta anos e ficara cego aos vinte e dois com um acidente. Para além de uma enorme fortuna que herdara e de em tempos ter frequentado o bordel de Einhorn – Goldstein andava à procura de Escândio, uma das substâncias mais raras do universo.
No bolso, Goldstein trazia sempre a tabela periódica de Mendeleev. Por vezes, confundindo-se com um turista que desenrolasse o mapa da cidade, Goldstein tirava do bolso um papel grosso e desdobrava-o várias vezes revelando a famosa tabela periódica dos elementos químicos. Tabela que Goldstein, sendo cego, não poderia ver, mas que com os seus olhos vazios fixava quase demencialmente – como alguém que, perdido há muitas horas, fixa de novo, esperançado, a bússola e o mapa.

Goldstein repetia vezes sem conta a história de que no funeral de Mendeleev, em São Petersburgo, dois homens levavam à frente do seu caixão, como se fosse a bandeira de um país ou de um partido, a tabela periódica dos elementos que ele inventara.

A ambição de Goldstein não era a de acrescentar um elemento a essa tabela, mas apenas a de encontrar, concentrados, milhares de gramas de Escândio. (Ele próprio não o procurava. Como era milionário, comprava Escândio. Parecia querer compensar a sua cegueira com a aquisição desta substância minúscula e muito rara.)

Nos seus devaneios, Goldstein pensava no interior do próprio caixão: o corpo rodeado de milhares de gramas de Escândio, essa substância rara. A utopia de Goldstein: que no seu caixão pudesse ir tanta quantidade de Escândio como a que existia no resto do mundo.»

Gonçalo M. Tavares, “Matteo perdeu o emprego” (Porto Editora, Outubro de 2010), pp. 65-66

Publicado por Sílvio Mendes

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