Bíblia nas Escolas Públicas Portuguesas

É bem conhecida a batalha sobre o ensino de Evolução vs. Criacionismo, que tem o seu maior palco nos EUA, mas que já assume frentes na Europa, em particular na Turquia, França, Suíça, Bélgica, Polónia, Rússia, Itália, Grã-Bretanha, Sérvia, Holanda e Alemanha (ver Relatório Europeu). Não esquecer que existe em Mafra, Portugal, o único Museu Europeu dedicado ao Criacionismo.

Vem isto a propósito de um fenómeno que me chegou recentemente à atenção. Não encontrando talvez espaço ou condições para actualmente batalhar para igual representação do criacionismo (vs. evolucionismo) nas aulas de ciências, os movimentos cristãos encontraram espaço nas aulas de Inglês (!), nomeadamente através do ensino da Bíblia. Tal faz parte de um movimento internacional (ver blog), com presença em Portugal (ver), que recebe destaque nos sítios de algumas escolas (ver por exemplo um dos projectos da Escola Secundária D. Dinis ou uma referência a um poster sobre o projecto, desta escola, no sítio do Ministério da Educação). Não é de espantar que no blog Português do movimento Across the Bible – PT (ATB-PT) surja uma referência ao Museu de Criacionismo em Mafra. O mesmo blog informa que o ATB-PT tem actividade há 7 anos, com alunos da primária ao secundário! Numa cadeira obrigatória: o Inglês.

Ora, para o currículo das aulas de inglês há inúmeras obras de literatura inglesa (que não é o caso da Bíblia) que melhor servirão objectivos pedagógicos do ensino de inglês. Esta é mais uma demonstração da ferocidade e criatividade (honra lhes seja feita) do movimento cristão de introduzir a Bíblia de qualquer forma na escola laica. Se este falhar, certamente tentarão introduzir a Bíblia nas aulas de Matemática, Educação Física, ou Educação Manual (afinal Jesus era carpinteiro). Mas esta capacidade serpentina do movimento Cristão exige uma defensa firme da escola pública laica. É lamentável que o Ministério da Educação (ME) tenha permitido esta intromissão mascarada mas transparente. Não tendo o ME intervido quando devia, cabe à cidadania intervir e exigir que as escolas públicas Portuguesas não adiram a este programa. Não deixa de ser irónico que esta situação tenha lugar quando se comemora o Centenário da I República, que tanto fez pela escolaridade pública laica.

A Constituição da República Portuguesa (CRP) garante a liberdade de religião (Art 41) e estipula (no Art. 42) que o “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.” (ponto 2) e que “O ensino público não será confessional.” (ponto 3). Só um evangelismo militante explica este atropelo à CRP.

Leiam e assinem a petição «Pela Escola Pública Portuguesa Laica»

Extracto de texto maior na Jangada de Pedra.

Publicado por André Levy

6 responses to “Bíblia nas Escolas Públicas Portuguesas

  1. Os conceitos evolucionistas existem há bem menos tempo que o criacionismo. No mínimo milênios. Talvez depois desse tempo decorrido de “evolução” e entendimento poderão estar ombro a ombro com o conceito criacionista. Todos nós sabemos que a raiz do criacinismo também é uma espécie de dogma, deve-se aceitar que tal teoria é verdade com “métodos científicos”. Portanto, é preciso que seja desmascarado esse grupo que quer defender a qualquer custo a queda do cristianismo ou outras religiões tradicionais para introduzir o “ateísmo”, que também é uma crença. Em prol de interesses obscuros.

  2. Joaquim, devo assumir que não percebi o seu comentário. Primeiro não consegui perceber a sua posição.

    “Todos nós sabemos que a raiz do criacinismo também é uma espécie de dogma, deve-se aceitar que tal teoria é verdade com “métodos científicos” ”

    Ham?
    A raíz do criacionismo é, de facto um dogma e não uma espécie de.
    A raíz do Evolucionismo, pelo contrário, é a observação empírica de factos. Após a observação e posterior documentação (num livro bastante bom chamado “A Origem das Espécies”) um senhor conseguiu chegar a uma determinada conclusão. Como qualquer boa teoria científica, tem vindo a ver cada vez mais provas a seu favor, não foi encontrada qualquer prova que a falsificasse e consegue fazer previsões. Consequentemente, é obrigatório considerar o Evolucionismo como uma teoria e não como dogma.

    Finalmente, o dever dos cientistas que defendem o Evolucionismo é somente essa defesa. O evolucionismo não pretende ser antagonista de qualquer religião, nem trabalhar simplesmente para contrariar a génese defendida por diferentes credos. Pretende explicar, isso sim, a realidade, da maneira como a ciência a vê (sem paranormalidades).

    Finalmente, creio que está a fazer uma confusão grave entre ateísmo e laicidade. O ateísmo é a opinião suportada por algumas pessoas que não crêem na existência de Deus ou de qualquer outra entidade superior. A laicidade está relacionada com a separação entre religião e Estado. A Laicidade é o único método que permite a prática de todas as religiões, com respeito, dentro de uma nação. Mas isso, claro, envolve alguns custos para os religiosos, nomeadamente a proibição de ensinar credos nas escolas públicas em aulas que não sejam explicitamente de Religião e Moral. Substituem-se os credos e as opiniões religiosas altamente subjectivas por informações que mais se aproximem de factos objectivos.

    E é a favor desta separação Estad/religião que esta petição aparece.

  3. Não vejo nenhum problema com relação a adoção da Literatura Bíblica nas escolas públicas de Laíca ou em qualquer outra escola do país. O problema que vejo, está na mente dos opositores a essa idéia que se baseiam no seu próprio egoísmo, querendo distorcer o que está escrito. O que devemos aprender é que as palavras da Bíblia, produzem conhecimento e sabedoria a seus ouvintes, não devendo ser restrita somente aos templos onde é mais pregada. Além disto, para aqueles que buscam verdadeiramente seus ensinamentos, ocorrem sentimentos de fé, amor, paz, respeito e lealdade a Deus e a todos os homens tão em falta nos dias de hoje. Pesquisas nos mostram que, onde ela é lida e entendedida, a esperança e a harmonia prevalece e portanto sendo adotada não só beneficiará os alunos e a Instituição que a adotou como também comunidade e sociedade juntas.

    • “O que devemos aprender é que as palavras da Bíblia, produzem conhecimento e sabedoria a seus ouvintes, não devendo ser restrita somente aos templos onde é mais pregada.”

      O único conhecimento que se pode obter a partir da leitura da Bíblia é … bem, passar a conhecer a Bíblia. Da mesma maneira que obtemos conhecimento ao ler qualquer outro livro, uma vez que passamos a conhecer a obra. Até aí, concordo consigo. Agora, se estiver a dizer que o conhecimento que se adquire é graças àquilo que a Bíblia ensina, devo discordar. É uma questão de opinião, obviamente.

      “Além disto, para aqueles que buscam verdadeiramente seus ensinamentos, ocorrem sentimentos de fé, amor, paz, respeito e lealdade a Deus e a todos os homens tão em falta nos dias de hoje.”

      Eu busco verdadeiramente conhecimentos. E, acredite, é impossível encontrá-los na Bíblia. Eu não procuro conhecer dogmas e regras a seguir, simplesmente porque sim. Eu quero conhecimentos práticos e objectivos. As opiniões que sustento baseio-as em argumentos desenvolvidos por mim, e não por meia dúzia de apóstolos. Viva a opinião própria! Mas sim, busco também amor e paz. Fé e respeito a Deus são, mais uma vez, extremamente discutíveis. Não acreditando em Deus, não lhe devo qualquer respeito. Seria ridículo da minha parte respeitar ou desrespeitar algo em que não acredito. Já agora, porque é que o respeito a Deus faz falta nos dias de hoje? Quer-me parecer que o respeito que faz falta é às outras pessoas, não a nenhuma entidade que, segundo consta, é omnipotente, e que portanto se pode perfeitamente defender sozinha.

      “Pesquisas nos mostram (…) ”

      Quais?

  4. Ana Maria — como refiro no meu texto completo, na “Jangada de Pedra”, até veria interesse numa cadeira de história das religiões, em que ensinasse a Bília, o Tora, o Corão, Confucios, o Mahabarata, só para referir algumas das maiores religiões. Mas ensinar SÒ a Bíblia parece-me inapropriado numa escola laica (muito bem quem distinguiu entre laicismo e ateismo), isto uma escola que por obrigação constitucional não pode ser confessional e se deve equidistante quanto a todas as religiões.
    Mas acresce que neste caso concreto, se trata de usar a Bíblia nas aulas de Inglês. Primeiro são obrigatórias, dada a um não cristão ou não cristão (e católicos romanos, tenham atenção que este movimento de certeza tem raízes protestantes). Segundo, numa aula de Inglês … a Bíblia. Um texto que chegou até nós por via de traduções do grego e árabe. Não texto escritos originalmente em Inglês, com fins ou tradição pedagógica no seu ensino? Um Shakespeare, um Harry Potter, qualquer coisa escrita em Inglês. Em absurdo, porque não o “Livro de Mormon”, ao menos esse foi escrito originalmente em inglês, pela alegada recente reencarnação de Messias na figura de Joseph Smith.
    Mas mais importante, Ana Maria, é que nada do que aqui foi escrito, é anti-Bíblia, ou anti-religião. É apenas um reflexo de que cada tipo de ensino tem o seu lugar. A constituição prevê a liberdade de culto. Existem inúmeras igrejas em Portugal. Porque não hão de os interessados aprender a Bíblia nas igrejas, com pessoal formado nesse sentido, em vez de na escola pública, sobretudo numa cadeira obrigatória. Deixe que os interessados, curiosos, abertos procurem a igreja. Não use os instrumentos dos estado como forma de proselitismo, em exclusividade.

  5. Há medida que a religião se imiscui com a educação num determinado país, ocorre lenta e inexoravelmente um atraso científico prejudicial ao avanço social, tecnológico, económico, etc. Um exemplo flagrante foi o caso dos EUA, cujos cidadãos apenas tomaram verdadeiramente consciência das consequências do julgamento de Scopes quando, em 1957, a Rússia lançou o Sputnik. A partir dessa época, tiveram que desenvolver um novo currículo científico e expurgar o criacionismo e a pseudo-ciência das escolas para recuperar o atraso científico.
    No nosso país a produção científica está a aumentar consideravelmente. Este ímpeto não pode ser parado por barbaridades intelectuais como a exploração da Bíblia numa escola pública. O espaço para essa actividade é no interior de uma Igreja.

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