Literatura e Ciência (14): a descoberta da cura para o “vírus da vida” num conto de JP Simões

JP Simões, o aclamado artista português autor do álbum 1970, compõe, canta mas também escreve. O vírus da vida (2007) é uma compilação de contos (escritos em 1996) e conta com ilustrações de André Carrilho. U.P.S. é o conto que aqui transcrevemos, uma incursão do artista pelo mundo da ciência, recorrendo à ironia, ao humor, à ética e à criatividade.

«Algures num laboratório subterrâneo nas imediações de Dallas, Thompson King, destacado investigador de Biologia, descobriu a cura para a mais tortuosa doença que a humanidade conheceu até hoje: o Vírus da Vida.

Depois de 20 anos de trabalho árduo ao serviço da multinacional Up-We-Go Products Society (U.P.S.), depois de perder o cabelo e a cor da pele infligindo experiências biomoleculares a si mesmo, King sentiu o fulgor da descoberta e ligou imediatamente para a comissão administrativa de modo a convocar uma reunião extraordinária.

Reunidos os gestores, num escritório subterrâneo com acesso a um casino em Las Vegas, logo eficazes executivos delinearam estratégias de comercialização. Como a cura para a famigerada doença só estava prevista para dali a dez anos, avançou Bill Software, a melhor coisa a fazer seria ir lançando novos produtos intermédios até chegar à cura, rentabilizando assim a descoberta… e por dez a quinze anos! Para tal, têm de se fornecer pistas desviantes às companhias concorrentes para que não cheguem entretanto ao mesmo resultado; simular experiências falhadas em doentes profundos, provocar explosões nos próprios laboratórios, criar associações de solidariedade de modo a sugerir a falta de confiança nas investigações. Enfim, brindaram ao sucesso da empresa e foram todos divertir-se para a roleta, gastando já o lucro futuro com animado optimismo.

Só uma coisa os afastava do plano perfeito: as minhoquices éticas de Thompson King, que ameaçou deitar tudo a perder em nome da humanidade e de outras patranhas que já ninguém recordava o que significavam. Talvez uma explosãozinha, atalhou um dos gestores. Mas Software, mais hábil e polido, já tinha a solução, «Basta curá-lo!». E a roleta girou.»

Publicado por Sílvio Mendes

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