Ciência e Literatura (8): Raul Brandão, Pascoaes e Jesus Cristo em Lisboa

O excerto que hoje reproduzimos até traz consigo um dos grandes clichés da ciência, quando colocada em oposição rígida absoluta com a religião, mas seria grave deixar em claro neste blogue a referência escrita a duas mãos neste magnífico texto dramatúrgico do início do século XX.

É a reacção de um coro de descontentes após Jesus – que decidira espalhar o seu apelo à humildade e à pobreza em nova visita à humanidade, em Lisboa, no começo do século passado – ter sido novamente crucificado.

«VOZES
Negámos-te como Deus, porque não podemos viver contigo.

OUTRAS VOZES
Obrigaste-nos a olhar para cima, quando tudo nos força a olhar para baixo.

UMA MULHER
Neguei-te, porque deixaste morrer nos meus braços uma filha de três anos. Se tu ouvisses os gritos que ela dava! Qual foi o seu pecado para um castigo tão horrível? Responde-me tu que és Deus! Como é que tu permites que uma criança inocente morra nos braços de sua mãe?

UM RAPAZ
Porque levantaste as ondas do mar, contra o barco que tripulava meu pai? Fiquei na orfandade com cinco irmãos ainda pequenos!

OUTRO HOMEM
Tu que és Deus, responde porque é que eu só posso viver matando? Porque é que viver é matar?

JUDEU
Neguei-te, porque quiseste destruir a riqueza do mundo.

UM SÁBIO
Nego-te em nome da ciência.
»

Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, “Jesus Cristo em Lisboa – tragicomédia em sete actos” (Assírio e Alvim, 2007)

Publicado por Sílvio Mendes

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