Viver Sustentável – Con(s)ciência de Copenhaga

O Projecto 270 é um espaço que procura novas respostas de sustentabilidade. Na pequena quinta há uma exploração agrícola de permacultura, distribuição de bens alimentares com comércio justo, workshops vários, educação científica e ambiental. Situado na Costa da Caparica é Nuno Belchior quem dá a cara pelo projecto. A Sustentabilidade que falamos é tanto ecológica, como económica e social. Procurando uma acção em rede, Nuno está agora em Copenhaga, no KlimaForum, o encontro de pessoas pelo clima, vizinho do grande COP-15. Na capital dinamarquesa está agora o epicentro das decisões que nos dizem respeito a todos. Como partilhamos as nossas comunidades, como somos como sociedade humana e como vivemos a nossa Ciência.

O Projecto 270 é um projecto de reabilitação de uma parcela de terreno situada na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, junto ao oceano. Desde 2005, entre a Praia da Rainha e a Praia da Riviera, que aqui habitam Nuno Belchior e a sua família. É um espaço que priveligia a diversidade biológica e cultural. Experimenta-se aqui o desenvolvimento local sustentável. Por aqui já passaram algumas intervenções artísticas, como instalações e música ao vivo. É um espaço de educação científica e ambiental. Há formação em permacultura e cultura biológica, com oficinas e actividades de outros saberes, como terapias e massagens. Vendem-se produtos de agricultura biológica e da rede de Comércio Justo. É um espaço transcultural. O desenho e manutenção de um espaço verde sustentável experimenta-se, com diferentes técnicas e espécies em cultivo, fruto da troca de saberes e materiais. Uma diversidade colorida na procura de uma modernidade alternativa com o Projecto 270.

Ao viver a proposta do 270, em diálogo com a Natureza, experimentamos uma forma de estar muito diferente da urbe a poucos quilômetros de distância. Aproximamo-nos de como vivem muitas comunidades no hemisfério sul. Ao viver como a família do Nuno e tantos agricultores familiares do Mundo inteiro podemos aprender sustentabilidade.

Copenhaga, Epicentro de Acção


O modelo de desenvolvimento neo-liberal, uma civilização que cresce exponencialmente e usa os recursos naturais da pequena Terra, é um modelo com fim anunciado há muito. O Nuno está agora em Copenhaga, tal como muitos jovens da Via Campesina e outros que praticam o chamado “ecologismo/ ambientalismo dos pobres”. Discutem e anunciam alternativas sociais, tal como várias organizações agora na capital dinamarquesa.

Nas ruas e no Bella Center, o centro de decisão do momento, muitos activistas manifestam-se em Copenhaga. Há Organizações Não-Governamentais de prestígio ali representadas e muitos movimentos sociais. Uma voz conjunta pede uma mudança de sistema, uma outra ordem social. Comemora os dez anos da manifestação de Seattle, quando a força da massa de gente foi reconhecida. Através da intervenção não violenta querem impor na agenda política a vontade de mudança. O Nuno Belchior participa agora no encontro da sociedade civil global sobre o Clima, o KlimaForum (aqui página em inglês). Este é o maior evento sobre Clima em Copenhaga para além da Conferência das Nações unidas.

A 15.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP-15) ocorre simultaneamente. Hoje no último dia, o COP-15 é a maior conferência diplomática de sempre. Espera-se que a partir do Bella Center saia um pacto mundial e um programa de acção que cumpra medidas de atenuação e de adaptação às alterações climáticas. A diplomacia trabalha tendo como base os relatórios de análise do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O Aquecimento Global, o conjunto de alterações climáticas, é causado pelos gases com efeito de estufa (GEE). Este é um facto reconhecido pela maioria da comunidade científica, apesar dos Climategates que assaltam a opinião pública.

Climategate, ciência sem interesse?

 

 

"With This Flag I Surrender", © Matthew Woodson

 

A comunidade científica foi abalada no final de Novembro pelo que ficou conhecido como Climategate. Piratas informáticos assaltaram o servidor usado por cientistas da Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia. Depois, disponibilizaram on-line e-mail‘s e documentos oficiais, segmentos de informação que punham em causa a boa fé e veracidade do trabalho desenvolvido. Abriu-se espaço ao cepticismo. O conjunto de alterações climáticas conhecido como Aquecimento Global está realmente a acontecer? E se sim, é a actividade humana a real responsável?

Há uma comunidade científica atenta e responsável. Muita da informação oferecida ao público pelo Climategate foi descontextualizada e deturpada. Existe um escalar de alterações climáticas reconhecido. Mais preocupante é o fosso entre o conhecimento científico e a opinião pública…

Conhecer a dúvida na Ciência e Decidir

O desafio de agora é democratizar a Ciência, fazê-la acessível a todos. Tal como a Agência Europeia do Espaço (ESA) nos mostrou na semana passada com “Alterar a tendência” (aqui noticiado pela Ciência Hoje). Mais, é mostrar como a Ciência também tem erros e é um processo. Os GEE são os responsáveis pela aceleração de alterações climáticas no Mundo. Daqui a alguns anos, a compreensão de fenómenos pode-nos dar outras conclusões.

O corpo científico chega a um consenso. Mas continua numa procura constante de respostas em diferentes direcções. O cientista vive com a dúvida. Por vezes, as respostas que encontramos são inesperadas, põe em causa o nosso conhecimento. Porquê? Como um quebra cabeças sem solução, ficamos sem saber. Até aquele momento em que nasce uma nova teoria, que unifique, que explique, que responda.

Thomas Kuhn descrevia em 1962 a evolução do conhecimento científico. Todo este corpo de conhecimento assenta numa verdade consensual, um paradigma. Até que há uma altura em que se encontram novas evidências que trazem incerteza à verdade científica. A partir desse momento, deixa de haver uma ciência normal para haver uma ciência de revolução. ou uma ciência pós-normal, como o põe Silvio Funtowicz e Jerome Ravetz mais recentemente.

 

"And Though You've Loved a Thousand Men", © Matthew Woodson

 

A comunidade científica procura um consenso. Simultaneamente, há questões urgentes que precisam da nossa intervenção. Tem que ser tomada uma decisão. Temos que reformar com urgência a forma como vivemos neste planeta, partilhar recursos e procurar a sustentabilidade. Esta decisão cabe aos governos de cada nação, que hoje tentam um acordo final em Copenhaga. Mas as vozes de tantos como a do Nuno Belchior e projectos de consciência ecológica e social como o Projecto 270 são um alerta. Parte de nós, individualmente e nas nossas comunidades também decidir. Temos que pensar o nosso futuro.

Publicado por João Cão

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