Correcção de 2 mitos: Darwin & Mendel e Marx

Há ideias que lemos ou ouvimos e depois propagamos sem verificar a sua validade, dada a autoridade intelectual e sapiência da fonte. Porém todos somos falíveis, e mesmo um autor consagrado pode ser fonte de uma história errada, contribuindo assim para a sua difusão. Ao repetirmos a história juntamo-nos à cadeia de propagação. Se a história é interessante tenderá a propagar-se mais que a sua, mais aborrecida, correcção. Vem isto a propósito de dois mitos, ou histórias incorrectas, que eu próprio tenho repetido e que aqui tenciono corrigir procurando redimir-me.

O primeiro é o mito de que Charles Darwin tinha uma cópia do artigo de Mendel «Versuche über Pflanzenhybriden», descrevendo as suas experiências com cruzamentos de ervilhas. Na verdade, as evidências apontam para que Darwin não tinha o artigo. Não subscrevia a revista no qual o artigo foi publicado e não existe cópia do artigo no espólio de Darwin. Leu alguns livros no final da sua vida que faziam referência à obra de Mendel, mas não em grande detalhe. Mesmo que tivesse o artigo é muito possível que, à semelhança dos seus contemporâneos evolucionistas que o leram, o seu significado não fosse evidente. (ver).
O mais curioso, do ponto de vista da difusão de histórias falsas, é que por vezes, no decurso da sua transmissão, se tornam mais elaboradas: há quem tenha até escrito que Darwin tinha a revista com o artigo de Mendel com as páginas ainda por abrir (livros e revistas antigos eram impressos em folhas grandes maiores que o formato do livro, sendo assim encadernadas e vendidas tendo depois o leitor que as cortar com uma faca ou “abre-cartas”, instrumento agora anacrónico mas que seria habitual em qualquer secretária até meados do século XX). Pois, este detalhe das folhas por cortar não faz sentido, já que a revista onde o artigo de Mendel foi publicado era distribuído já com as páginas separadas.

Já Mendel leu a «Origem das Espécies», tendo nós acesso aos comentários que fez na sua cópia do livro (a marginalia), que indicam que Mendel não compreendeu o significado dos seus resultados para a evolução.

O segundo mito é que Karl Marx escreveu a Darwin pedindo-lhe para lhe dedicar o segundo volume do «Capital». Também esta história parece ser falsa. A origem do erro provém de uma carta de Darwin encontrada entre o espólio de cartas de Marx, na qual Darwin cordialmente recusa o convite confessando não entender nada sobre o assunto. Era hábito na altura que no início das cartas constava apenas “Caro Sr.”, pelo que a carta em si não indica que Darwin respondeu a Marx. O espólio de Marx passou para o cuidado da sua filha Eleanor, companheira do socialista Britânico Edward Aveling. Dois investigadores estabeleceram que fora Aveling que escrevera a Darwin pedindo para lhe dedicar o volume 2, e resposta de Darwin a Aveling ter-se-á misturado entre as cartas do Marx. Curiosamente, Stephen Jay Gould repetiu a falsa história numa das suas primeiras colunas na revista «Natural History», tendo mais tarde rectificado o seu erro. (ver)

Moral: podemos cometer o erro de espalhar inconscientemente e acriticamente uma falsa história (afinal Gould, um historiador, ensaísta e cientista de distinção, fê-lo). Mas estaremos em melhor companhia, se como Gould procurarmos verificar cada detalhe e ter a humildade de reconhecer e corrigir erros cometidos, tentando pôr fim à transmissão de falsas histórias, por muito interessantes que sejam.

 

Publicado por André Levy

One response to “Correcção de 2 mitos: Darwin & Mendel e Marx

  1. há uma curiosidade adicional sobre essa questão darwin/mendel, que s. carroll fala em seu livro “the making of the fittest”: muita gente acha que se darwin tivesse lido o paper de mendel ele poderia ter adicionado uma série de dados à sua construção… mas na verdade, é bem o contrário: o paradigma mendeliano é muito “discretizado”, ou seja, verde ou amarelo, axial ou terminal, liso ou rugoso etc… não há a tênue gradação nos caracteres de que tanto nos fala darwin. assim, a genética mendeliana foi quase que um “problema” para os evolucionistas das décadas de 10 e 20.

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