127 anos da morte de Darwin

Enterro de Darwin
Tendemos a fazer celebrações quando as efemérides calham em números “redondos”, como 10, 20, 25, 50, 100, 150 anos. (Num aparte, seria interessante entender por que estes números são mais “redondos” do que 69 que, conotações sexuais à parte, me parece muito “redondo”.) Assim, e como é sabido pelos leitores deste blog, este ano comemora-se os bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação da «Origem das Espécies». No passado dia 19 de Abril, passaram 127 anos desde a morte de Darwin, em 1882. Não será número redondo, mas estando nós este ano a celebrar a vida e obra de Darwin, parece-me apropriado assinalar a data. Recordo que depois de toda a controvérsia em torno das suas ideias, Darwin foi enterrado numa cerimónia de Estado em Westminister Abbey, perto de Issac Newton, sendo apenas uma das cinco pessoas não membros da família real a receber tal honra no século XIX. Reproduzo abaixo o obituário de Darwin escrito por Thomas Henry Huxley, seu amigo, admirador e defensor público (o “bulldogue” de Darwin”), mas também o seu crítico no seio da ciência (e.g., Huxley atribuía pouca importância ao mecanismo de selecção natural). O texto foi originalmente publicado na revista Nature, 27 de Abril de 1882.

Muitos poucos, mesmo entre aqueles que tiveram o maior interesse no progresso da revolução do conhecimento natural lançado pela publicação da «Origem das Espécies»; e que têm assistido, não sem admiração, a mudança rápida e completa que ocorreu tanto dentro como fora das fronteiras do mundo científico na atitude das mentes humanas perante as doutrinas expostas nessa grande obra, poderiam estar preparados para a extraordinária manifestação de respeito e afecto para o homem, e de profunda reverência pelo filósofo, que se seguiu ao anúncio, na passada quinta feira, da morte do Sr. Darwin.
Não apenas nestas ilhas, onde tantos sentiram o fascínio do contacto pessoal com um intelecto que não tinha superior, e com um carácter que era ainda mais nobre que o seu intelecto; mas, em todas as partes do mundo civilizado, parece que todos cujo trabalho é tomar o pulso das nações e saber quais os interesses das massas da humanidade, estavam bem cientes que milhares do seus leitores pensariam o mundo mais pobre após a morte de Darwin, e pensariam com ávido interesse sobre cada incidente da sua história. Na França, na Alemanha, na Austro-Hungria, na Itália, nos Estados Unidos, escritores de todo o espectro de opinião, por uma vez unânimes, prestaram de bom grado o seu tributo ao valor no nosso grande conterrâneo, ignorado em vida pelos representantes oficiais do reino, mas enterrado em morte entre os seus pares em Westminister Abbery por vontade da inteligência da nação. Não nos cabe a nós aludir aos sagrados lamentos da casa em luto em Down; mas não é nenhum segredo que, fora do grupo doméstico, existem muitos para os quais a morte do Sr. Darwin é uma perda inteiramente irreparável. Isto não apenas devido à sua natureza admiravelmente genial, simples e generosa; a sua conversa alegre e animada, e a infinita variedade e precisão da sua informação; mas porque quanto mais conhecíamos dele, mais ele aparentava incorporar o ideal do homem de ciência. Incisivos eram os seus poderes de raciocínio, vasto era o seu conhecimento, maravilhoso era a sua tenacidade imparável, sob dificuldades físicas que haveriam convertido nove em cada dez homens em inválidos desnorteados; não era estas qualidades, por grandes que fossem, que mais impressionavam aqueles que eram admitidos na sua intimidade com veneração involuntária, mas uma certa intensa e apaixonada honestidade que irradiava de todos os seus pensamentos e acções, como que através de um fogo central.
Era este mais raro e grandioso dom que mantinha a sua imaginação e grande poder especulativo dentro dos devidos limites; que o compelia a desenvolver trabalhos prodigiosos de investigação original e leitura, sobre os quais se baseiam os seus trabalhos publicados, que o fazia aceitar críticas e sugestões de qualquer um, não apenas sem impaciência, mas com expressões de gratidão e por vezes quais cómicas na sua excessiva valorização; o que o leva a impedir que nem ele nem outros fossem enganados por frases e não poupando tempo nem esforço por forma a obter ideias claras e distintas sobre cada tópico sobre o qual se ocupava.
Não era possível falar com Darwin sem ser lembrado de Sócrates. Havia o mesmo desejo de encontrar alguém mais sábio que ele próprio; a mesma crença na soberania da razão; o mesmo humor; o mesmo interesse simpático em todos os modos e trabalhos do homem. Mas em vez de voltar as costas aos problemas da natureza desesperadamente insolúveis, o nosso moderno filósofo dedicou a sua vida inteira a atacá-los com o espírito de Heraclíto e de Demócrito, com resultados que são a substância do qual as suas especulações eram as sombras antecipatórias.
O devido apreço ou até enumeração destes resultados não é praticável nem desejável neste momento. Há um momento para tudo – um tempo para glorificar as crescentes conquistas sobre o reino da natureza, e um tempo de luto pelos heróis que nos têm conduzido à vitória. Ninguém lutou melhor, e ninguém foi mais afortunado que Charles Darwin. Ele encontrou a grade verdade, espezinhado, vilificado por intolerantes, e ridicularizado por todo o mundo; ele viveu o suficiente para vê-la, sobretudo pelos seus esforços, irrefutavelmente estabelecida na ciência, inseparavelmente incorporada nos entre os pensamentos comuns do homem, e apenas odiado e atemorizado por aqueles que o vilificariam, mas não se atrevem. Que mais pode um homem desejar do que isto?
Mais uma vez a imagem de Sócrates emerge, e a nobre peroração da “Apologia” soa nos nossos ouvidos como se fosse a despedida de Charles Darwin :—
“A hora da nossa despedida chegou, e temos de ir em caminhos separados — eu para morrer e vocês para viver. Qual o melhor, apenas Deus sabe.”
T. H. HUXLEY

Publicado por André Levy

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