Experiências de Comunicação de Ciência em discussão no Porto

The Wonder Book of Science, 1922, © Nature Publishing group, Galbraith O'LearyNa tarde de sexta-feira, dia 27, um painel grande e interventivo fechou o encontro de comunicadores de ciência “Science: what else?”. Segundo o tema Experiências de Comunicação de Ciência, os participantes foram: Júlio Santos do gabinete de comunicação científica do IBMC/INEB do Porto; Filipe Pires do Centro de Astrofísica da UP; António Gomes da Costa do Pavilhão do Conhecimento, Centro Ciência Viva de Lisboa; Carlos Soares do Visionarium, Centro Ciência Viva de Santa Maria da Feira; Filipe Ressureição da Escola Secundária de Arouca e José Azevedo, sociólogo da FEUP. A moderadora foi Sandra Inês Cruz da RTP.

Das diferentes experiências emergiram tópicos de discussão sobre estratégias e finalidade da comunicação de ciência, a literacia (ou falta dela) em Portugal e sobre o perfil profissional do comunicador de ciência.

Centro Ciência não é local de ensino

Os Centros Ciência Viva e a sua filosofia de funcionamento estiveram em destaque. O Pavilhão do Conhecimento e o Visionarium têm, respectivamente, cerca de 250’000 e 100’000 visitantes por ano, na sua maioria estudantes do Ensino Básico e Secundário em visitas guiadas. Carlos Soares, do Centro Ciência “onde o futuro é uma peça de museu” diz que os Centros Ciência têm como objectivo o “despertar de vocações”, opinião partilhada por António Gomes da Costa. Segundo o director executivo do Pavilhão do Conhecimento, “ensinar ciência não acontece num Science Center” . Os visitantes têm, sim, oportunidade de ganhar familiaridade e verificar a utilidade da ciência. A aprendizagem em si fica remetida para a escola.

Nesta discussão sobre onde fica a fronteira entre comunicação e ensino de ciência foi importante a presença do professor Filipe Ressureição. A sua apresentação encheu-se de emoção ao descrever a evolução do seu grupo em oito anos. No princípio, uma sala e uma arrecadação e falta de equipamento. Hoje, os jovens do 10.º ao 12.º ano da Vila de Arouca têm oportunidade de ser envolvidos em investigação científica de excelência (conforme reporta aqui o Ciência Hoje).
O professor descreveu um percurso sinuoso à procura de novos financiamentos, como o da Agência Ciência Viva. A experiência do Professor de Arouca motiva-o a ser crítico dos Centros Ciência portugueses. “O meu problema é com o modelo de módulos disparatamente caros sem rentabilidade”, acrescentou.

Críticas à Ciência Viva

Apesar desta intervenção, a falta de sustentabilidade económica dos Centros Ciência não foi discutida. A referência indirecta ao tema veio quando se falou do voluntariado. Gomes da Costa explicou, desde logo, um princípio básico do voluntariado, que “os voluntários não vêm substituir o trabalho pago” e elogiou os seus voluntários séniores “aproveitados como comunicadores”. Carlos Soares sublinhou a dedicação dos voluntários que fazem parte do Visionarium e a representante do Jardim de Botânico de Lisboa expôs a estratégia equilibrada e elegante para integrar e motivar estudantes e voluntários no dia-a-dia de “um paraíso no coração da cidade”.
Outra crítica dirigida à Ciência Viva foi proferida pelo investigador José Azevedo, que afirmou que a Agência “não se preocupa com a divulgação de resultados, criação de redes” e falha no processo de avaliação. Gomes da Costa, como membro da direcção da Ciência Viva, reconheceu a crítica e referiu “várias tentativas de fazer essa avaliação”. O Fórum Ciência Viva foi criado também na perspectiva de “mostrar exemplos de boas dinâmicas e criar uma rede”, justificou ainda.

Cultura Científica

O sociólogo José Azevedo abordou a cultura científica na sociedade. Segundo um estudo comparativo publicado em 2007 (aqui acessível em inglês), há uma falta de estudantes que queiram seguir uma carreira científica nos países desenvolvidos. O paradoxo elevado a “preocupação política” é que “os inquiridos têm a noção da importância da ciência para a sociedade mas não o querem para si”.
Júlio Santos também promove uma cidadania activa no laboratório associado IBMC/INEB, com cerca de 2’000 alunos por ano a tomar parte das actividades promovidas. A falta de alunos interessados na carreira científica é preocupante, contudo desabafa: “enganar meninos é o que eu não quero”. A promoção do imaginário de ficção científica CSI “não contribui para a cultura científica”, defende.
Esta carência de cultura de ciência está presente “a todos os niveís” afirma o Presidente do Visionarium. Mas qual a solução? A comunicação de ciência “tem que se tornar mais disponível para discutir com o público”, defende o sociólogo. É necessário “criar uma perspectiva de criação de hierarquia horizontal” com o público.
Pragmaticamente, quais as iniciativas a desenvolver? Segundo Azevedo, temos que fomentar uma cultura de avaliação, para permitir uma melhoria nas iniciativas e envolver os novos media na criação de redes. E é importante ter espaços onde pessoas sem formação específica possam intervir e partilhar ciência.
O Centro Ciência pode ser este espaço de partilha, uma “arena óptima” para intervenção social. O Pavilhão do Conhecimento tem promovido estas estruturas não-formais de ciência, com workshops com participantes dos 14 aos 68 anos. Contudo, Gomes da Costa verifica “a dificuldade em criar espaços de discussão que envolvam adultos”.
Realmente, conforme realçou o cientista José Azevedo, preocupam socialmente os adultos e pais com resistência à educação científica. Neste sentido, é importante ter “profissionais de comunicação com formação científica”.

Acreditas no El Dorado?

O perfil do comunicador de ciência foi um último ponto de discórdia nos últimos minutos do “Science: what else?”. Por um lado, foi defendida a criação de uma via de especialização em jornalismo científico. Por outro, conforme afirmou veementemente a moderadora Sandra Cruz, acreditar nas especializações de ciência é “acreditar no El Dorado”. O mercado profissional está saturado, o desemprego abunda e há uma sobrecarga de especializações. Será que há colocações para estes profissionais? Talvez Portugal não esteja assim tão mal cotado na aldeia global. Afinal a ciência e o jornalismo científico de excelência já existem por cá.

Publicado por João Cão

2 responses to “Experiências de Comunicação de Ciência em discussão no Porto

  1. Ola. Meu nome e Lucas Mello e sou professor de geografia em Belo Horizonte/Brasil. Ajudei a fundar o Nucleo de Apoio a Divulgacao Cientifica da Universidade Federal de Minas Gerais (cujo site esta em construcao) e coordeno um projeto proprio voltado para a geografia (www.cantacantos.com.br). Gostaria muito que voces da Viver a Ciencia visitassem o meu trabalho e conhecessem a minha ideia de divulgacao cientifica. Queria tambem ter acesso ao material desse encontro do Porto. E muito bom saber que tem gente em outro pais com preocupacoes parecidas com as nossas! []s Lucas Mello

  2. Oi Lucas! Seu Canta Cantos parece bem interessante, vou depois navegar um pouco mais, muitos colaboradores, nao?
    Quanto ao Science What else, só tenho mesmo o que foi reportado aqui no blog, o texto e as hiperligações lá ligadas..
    Posso ainda recomendar a voce as reportagens de um jornal electrónico do porto, o Jornalismo Porto Net. Mas fiquei com a impressão que você quer mesmo é algum material das comunicações, talvez o possa ajudar a arranjar contacto de algum orador?
    grande abraço deste lado do atlantico :) joao

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