
É certo que já passaram uns dias desde a inauguração do maior telescópio em funcionamento do país, no Centro Ciência Viva de Constância, mas não podia deixar passar em claro um indicador que o Presidente da República, Cavaco Silva, deixou transparecer durante a cerimónia de inauguração, na passada sexta-feira.
É certo que muito provavelmente o comentário também traz atrelada uma crítica implícita aos anunciados investimentos públicos planeados pelo actual governo (novo aeroporto, TGV, nova ponte sobre o Tejo…), mas não deixa de ser um exercício interessante considerar honestas algumas declarações dos actores políticos. E, no que à ciência diz respeito, são elas:
«é fundamental que neste tempo que é difícil para o país, que é difícil para todos os países da Europa e não só, que as decisões que são tomadas, ponderadas, que esperemos todas correctas, não vão hipotecar de facto o futuro desenvolvimento do país»;
ideia complementada com:
«A aposta no conhecimento e na Ciência deveria ser um desígnio nacional, porque é isso que vai ficar depois da crise, quando passar o sub-prime e a instabilidade dos mercados financeiros internacionais».
Os portugueses ouviram e registaram. Mais difícil é apurar se tais declarações traduzem uma real consciência da importância do investimento no «conhecimento e na ciência» ou se são apenas floreados de circunstância.
Mas há, pelo menos, uma conclusão que não podemos ignorar: a julgar pelas declarações “oficiais” dos deputados do Parlamento, durante a Conferência Parlamentar Sobre Ciência, este tipo de discurso já é reincidente. E cá estamos para ‘fiscalizar’ o processo de transformação de palavras em actos ou para, em última instância, relembrarmos aos políticos tudo o que nos disseram.

