9. Os longos dias de York

No laboratório de biologia estrutural de York

Cedo no meu doutoramento, o que precisava de fazer era muito simples de dizer e mais difícil de fazer. Trabalho com proteínas, mas a história das proteínas começa no ADN. O ADN são os planos para construir proteínas. Assim à bruta, é isto.

Um gene não é mais do que uma porção de ADN, com uma sequência específica de quatro bases (Adenina, Timina, Guanina e Citosina), que são como peças de lego. Há um sinal de começar o gene, que é uma sequência específica de três bases (ATG). Cada três bases seguintes significam um determinado aminoácido. Por exemplo, GGC é uma glicina, o aminoácido mais simples que existe. Uma proteína é constituída por uma série de aminoácidos ligados uns aos outros. A alanina, outro aminoácido, escreve-se no ADN como GCC.

Uma proteína tem um número variável de aminoácidos. As que eu estudo têm cerca de 300. Assim, no ADN estão codificadas em genes com cerca de 900 bases. No final, há um sinal para parar (TGA), como quem diz “o gene acaba aqui, não há mais aminoácidos para esta proteína”.

Por exemplo, a sequência de ADN:

ATGGGCGCCGGCTGA

Traduz-se por:

Começar – glicina – alanina – glicina – terminar

Claro que isto seria uma proteína com três aminoácidos. O que não é propriamente uma proteína. Mas a ideia é esta. E na realidade o sinal de começar também corresponde a um aminoácido, que é uma metionina. É a esta correspondência entre trios bases de ADN e aminoácidos que constituem proteínas que se chama código genético.

Era precisamente isto que me levava a York. Fazer corte e costura com ADN. Uma actividade a que as pessoas normalmente chamam biologia molecular ou (mais em desuso) engenharia genética.

Uma pipeta multicanal. Serve para medir e dispensar oito pequenos volumes ao mesmo tempo, usando oito pontas descartáveis.

Não fui sozinho para York, fui com uma colega portuguesa, e estávamos interessados em proteínas de duas bactérias patogénicas. Campylobacter jejuni (causa diarreias) e Klebsiella pneumoniae (infecções hospitalares). E estávamos interessados em muitas!

A ideia era “cortar” o ADN que codificava as proteínas que nos interessavam e inseri-lo noutra bactéria mais simpática para os cientistas, que se chama Escherichia coli (mas podem chamar-lhe E. coli). Na realidade não inserimos o ADN original, inserimos um cópia da parte que nos interessa. E depois fazemos com que o objectivo da vida dessas bactérias seja produzir uma proteína que não é delas.

E assim se passavam os dias em York. Entre pipetas multicanal, muitos tubinhos pequeninos, tantos que não nos podíamos dar ao luxo de os numerar e apenas os conseguíamos identificar pela posição no suporte, numa lógica batalha naval. Começavam cedo, com um pequeno almoço insano, um almoço frugal (em geral uma sandes de queijo com tomate), uma corrida para o jantar (a cantina fechava muito cedo) e terminava também cedo com uma pint num pub. Era tudo cedo!

Publicado por David Marçal

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