Arquivo de etiquetas: Ciência e Literatura

Literatura e Ciência (19): Jorge Sousa Braga e uma crença “cada vez mais ténue” nas ciências tradicionais


«Deixara de acreditar nas ciências tradicionais, desde que se sentara em frente de uma montanha e gritara morango e a montanha lhe devolvera cinquenta alperces, e ele gritava vermelho e a montanha lhe devolvera rosa rosa rosa, uma rosa cada vez mais ténue.»

Jorge Sousa Braga, O poeta nu [poesia reunida]

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (16): surrealismo de Cesariny atira Newton para um buraco negro


SOMBRA DE ALMAGRE

Buraco-negro-com-barba-postiça-de-Newton
ou pirâmide de De?

A pirâmide de De
com saltos altos e rara elegância de meios
caminha um mililímetro por segundo
em direcção a Maar

O qual em movimento inverso se expande
(tahafut-ul-tahafut) à razão
de 2 tri-leões por sebe. Por
outro lado

Se houvermos por verídico o retrato
que Blake fez de Newton
este NÃO TINHA BARBA (relativamente) (nenhuma)
e assim

Não haverá
qualquer porção
de almagre

o espaço come porém não altera
que os poços escaleres
possam nunca afastar-se
(ou precipitar-se)

de De
ou de Maar »

Mário Cesariny, in Pena Capital

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (15): Sérgio Godinho «nunca tinha visto a lua tão perto de Vénus»

Sérgio Godinho começa a ser um caso sério neste blogue. Já o apresentámos em versão vídeo, em versão letrista de fado, e agora voltamos à carga com um poema, retirado do livro O Sangue Por um Fio (Assírio e Alvim, 2009).

«Noite de estrelas e planetas

Noite de estrelas e planetas
não estava previsto.
O certo é que tinha estafado os olhos
numa tarde ensanguentada
e agora quero ver como é por dentro:

Constelações alinhadas ao sol poente
por ordem do caos sem nome
prontas a aprumar-se ao mínimo clarim
por ordem da sua entrada
nos desenhos do universo
(ao sol poente
desce o sangue a outra morte, está previsto
e desenhado).

Nunca tinha visto a lua tão perto de Vénus
por cima de Júpiter já foge, a hora é fugaz –
ao sentimento fugaz desce a noite antiga
segue o rumo.

Avisei, durante o dia, para a noite e o seu tamanho
e já portanto
não há surpresa que escureça
a incandescência
(vês por dentro? são estrelas ou planetas?).
Luz própria é mensageira
luz reflexa quem a sorve.

Ou está tudo
os recados
por abrir?»

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (14): a descoberta da cura para o “vírus da vida” num conto de JP Simões

JP Simões, o aclamado artista português autor do álbum 1970, compõe, canta mas também escreve. O vírus da vida (2007) é uma compilação de contos (escritos em 1996) e conta com ilustrações de André Carrilho. U.P.S. é o conto que aqui transcrevemos, uma incursão do artista pelo mundo da ciência, recorrendo à ironia, ao humor, à ética e à criatividade.

«Algures num laboratório subterrâneo nas imediações de Dallas, Thompson King, destacado investigador de Biologia, descobriu a cura para a mais tortuosa doença que a humanidade conheceu até hoje: o Vírus da Vida.

Depois de 20 anos de trabalho árduo ao serviço da multinacional Up-We-Go Products Society (U.P.S.), depois de perder o cabelo e a cor da pele infligindo experiências biomoleculares a si mesmo, King sentiu o fulgor da descoberta e ligou imediatamente para a comissão administrativa de modo a convocar uma reunião extraordinária.

Reunidos os gestores, num escritório subterrâneo com acesso a um casino em Las Vegas, logo eficazes executivos delinearam estratégias de comercialização. Como a cura para a famigerada doença só estava prevista para dali a dez anos, avançou Bill Software, a melhor coisa a fazer seria ir lançando novos produtos intermédios até chegar à cura, rentabilizando assim a descoberta… e por dez a quinze anos! Para tal, têm de se fornecer pistas desviantes às companhias concorrentes para que não cheguem entretanto ao mesmo resultado; simular experiências falhadas em doentes profundos, provocar explosões nos próprios laboratórios, criar associações de solidariedade de modo a sugerir a falta de confiança nas investigações. Enfim, brindaram ao sucesso da empresa e foram todos divertir-se para a roleta, gastando já o lucro futuro com animado optimismo.

Só uma coisa os afastava do plano perfeito: as minhoquices éticas de Thompson King, que ameaçou deitar tudo a perder em nome da humanidade e de outras patranhas que já ninguém recordava o que significavam. Talvez uma explosãozinha, atalhou um dos gestores. Mas Software, mais hábil e polido, já tinha a solução, «Basta curá-lo!». E a roleta girou.»

Publicado por Sílvio Mendes

Ciência e Literatura (12): (Outra vez) Cardoso Pires, O Delfim e o cosmonauta Edwin Aldrin

«Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço.»

Voltamos à obra-prima de José Cardoso Pires. Não há muito que possa ser dito sobre um livro em que cada página é um tesouro, aqui desviado para os nossos interesses de Ciência e Literatura.
Na Gafeira (localidade imaginária onde se desenrola a narrativa d’ O Delfim), em véspera de dia de caça, o narrador abre um jornal. E reflecte, baralha e partilha tudo. O excerto (ainda que amputado) ainda é grande, mas a Obra justifica-o. Aqui vem, ele entre aspas.

«Só agora, dezoito horas catorze minutos, chegam os jornais da tarde, e faço votos que com notícias de bom tempo. Oxalá. Para honra e glória do melhor ganso da época, é indispensável que a criadita me traga um bom Diário de Lisboa ou um bom Diário Popular que não me falem de chuva nem vento forte e ainda menos de trovoada.
(…)
Estendo-me na cama a ler o jornal.
(…)
Este, em particular, vem exausto. Mensageiro maltratado mas convencido (em artigos de fundo e notas do dia) do seu Valiosíssimo Papel de Órgão de Informação nas Estruturas Nacionais, chegou à Gafeira muito composto de bom senso e com a autoridade de ter preenchido as vinte e quatro páginas que lhe competem. Chegou cansado; sem voz, pode dizer-se. Abre-se e pouco adianta, a não ser para os desconfiados leitores das entrelinhas. Mas, vá lá, mal ou bem sempre faz um prometedor boletim meteorológico. Esperemos que não falhe. Que, ao menos, não seja tão desastrado como certas previsões da NASA – lembro-me eu, deparando com a fotografia de Edwin Aldrin a sorrir a duas colunas na primeira página.

UM LAVRADOR FESTEJOU O NASCIMENTO DE UM FILHO VARÃO

Beja, 30 – Mais de 500 convidados festejaram no Monte de Santa Eulália, propriedade do Sr. Patrício Melchior, o nascimento do primeiro filho varão daquele lavrador.
Consumiram-se, entre outras iguarias, doze perus, vinte e quatro cabritos, quinze leitões, trinta e um frangos e cem quilos de borrego. Beberam-se cem litros de vinho, quatrocentas cervejas, duzentas garrafas de whisky…

… e isto, parecendo que não, é um desafio ao sorriso de Edwin Aldrin. Ri-te cosmonauta inacessível, das vitórias que se ganham cá em baixo, e não te espantes. Conheço, meã culpa, vários cidadãos de lavoura-e-cabaré capazes de pensar como o nosso lavrador e, aqui entre nós, nem reparo. Sei como é fundo neles, e constante, e magoado, o sonho de fazerem um homem à sua maneira, ensinando-lhe o mundo e mulheres. Desejo-lhes, portanto: Salute ed figli maschi – que é como brindam (diz-se) os napolitanos legítimos.

Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço. Está cheio de guerra e de publicidade, mas é um cosmonauta – nunca esquecer. É um homem confiante nos milagres que os outros homens vão descobrindo porque se põem à prova neles, e nessa qualidade merecer tudo, quer se chame Edwin, Gagarine ou tenha o nome de código de Major Alfa Zero.
(…)
Um homem que confia, um cosmonauta, leva fios invisíveis de humanidade em esfuziante propulsão. Com ele viaja o nosso velho universo – com lábios assim tão gelados e com escafandros tão tenebrosos. Sinceramente. Falo com a mão na consciência, porque, modéstia à parte, muitos dos meus avós portugueses também foram bons cientistas de descobrir mundo. Excelentes, não exagero.
(…)

Outra vez o sorriso branco: Enquanto as moscas passeiam, o caminhante do espaço permanece suspenso na primeira página do meu jornal. Se lhe descrevessem as fabulosas aventuras dos portugueses que foram, antes dele, navegadores do impossível, talvez não acreditasse.
Também, pouco adiantaria que acreditasse ou não. Acenar com os padrões dos nossos descobridores como resposta às façanhas de um cosmonauta é o argumento dos olvidados, e já enjoa. Estamos fartos de ouvir nos discursos de academia e nas crónicas oficiais. Aldrin nunca teria tempo para isso. Anda excessivamente atarefado com o futuro para poder dar atenção aos desprezados dos século XX…»

José Cardoso Pires, O Delfim, (pp. 106/110)

Publicado por Sílvio Mendes

B Fachada, o músico em ascensão que trocou o estudo da Física pelas aulas de Literatura

(c) Foto de Vera Marmelo

Em entrevista publicada na edição de Dezembro da revista Aula Magna, o músico da Flor Caveira explica por que razão abdicou de uma Licenciatura em Física para poder dedicar-se ao estudo da Literatura. As razões são mais de ordem afectiva e B Fachada até sustenta que a sua passagem pela universidade não tem em vista uma profissão, mas ainda assim vale a pena conferir o que diz sobre o assunto um dos mais promissores músicos da nova vaga nacional.

«Por que razão escolheste o curso de Literatura?
Estive em Física primeiro, no Instituto Superior Técnico, e só mudei para Literatura, já na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, passados dois anos e meio.

Foi uma mudança drástica.
Era o que fazia sentido. E devia ter ido para Literatura desde o início. Mas acabei por decidir só a meio. Escolhi a Universidade Nova de Lisboa por causa do [poeta e ensaísta] Alberto Pimenta.

Como foi a experiência de física?
Curta, mas boa. Estar numa universidade a sério, que funciona bem, em que nunca se está mais de 10 minutos na fila para a secretaria, ter colegas que percebem do que se está a estudar, é algo que nunca se esquece. É uma experiência que se deve ter pelo menos uma vez na vida.

O que te interessou inicialmente na física?
Segui Ciências [no secundário] e dentro dessa área a única coisa que fazia sentido para mim era Física, sobretudo a parte experimental e de laboratório. Era algo de que gostava muito. Na altura a minha perspectiva era estudar por estudar e, nesse sentido, fui para Física. A minha passagem pela universidade nunca teve em vista uma profissão. O mesmo se passa agora com a licenciatura em Literatura. Apenas quero passar uns tempos a estudar e esticar esse período o mais possível.»

Publicado por Sílvio Mendes

Ciência e Literatura (11): O Delfim, José Cardoso Pires e a Ciência na Gafeira


«(…)
«Marido e Mulher discutem Domingos, o criado. Não é apenas o mestiço ágil que eu tinha visto a manobrar os cães no terreiro da igreja, mas – como vou saber dentro de instantes – o homem que gastara a infância no cais do Mindelo, conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável. Isso era o passado, declara o Engenheiro. A inteligência de que a natureza o dotou para sobreviver.
«E o passado não conta nas pessoas?», pergunta Maria das Mercês. «Pois olhe, eu acho que basta um tipo ter sido criado numa ilha para ganhar uma maneira de ser especial. Pelo menos precisa de imaginação para suportar aquela pasmaceira.»
Tomás Manuel pisca-me o olho:
«Influência do factor geográfico no comportamento das espécies.»
«Oh, não goze», implora ela, pegando no tricot.
E o marido, uma vez mais para mim:
«É isto. A sociologia chegou à Gafeira.»
(…)»

O Delifm, José Cardoso Pires, Publicações Dom Quixote (1987)

Publicado por Sílvio Mendes

Ciência e Literatura (9): Almada Negreiros em Nome de Guerra

Capa original da 2ªedição de "Nome de Guerra"

“O leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo.”

José de Almada Negreiros, “Nome de Guerra”

Publicado por Pedro Falcão

Ciência e Literatura (8): Raul Brandão, Pascoaes e Jesus Cristo em Lisboa

O excerto que hoje reproduzimos até traz consigo um dos grandes clichés da ciência, quando colocada em oposição rígida absoluta com a religião, mas seria grave deixar em claro neste blogue a referência escrita a duas mãos neste magnífico texto dramatúrgico do início do século XX.

É a reacção de um coro de descontentes após Jesus – que decidira espalhar o seu apelo à humildade e à pobreza em nova visita à humanidade, em Lisboa, no começo do século passado – ter sido novamente crucificado.

«VOZES
Negámos-te como Deus, porque não podemos viver contigo.

OUTRAS VOZES
Obrigaste-nos a olhar para cima, quando tudo nos força a olhar para baixo.

UMA MULHER
Neguei-te, porque deixaste morrer nos meus braços uma filha de três anos. Se tu ouvisses os gritos que ela dava! Qual foi o seu pecado para um castigo tão horrível? Responde-me tu que és Deus! Como é que tu permites que uma criança inocente morra nos braços de sua mãe?

UM RAPAZ
Porque levantaste as ondas do mar, contra o barco que tripulava meu pai? Fiquei na orfandade com cinco irmãos ainda pequenos!

OUTRO HOMEM
Tu que és Deus, responde porque é que eu só posso viver matando? Porque é que viver é matar?

JUDEU
Neguei-te, porque quiseste destruir a riqueza do mundo.

UM SÁBIO
Nego-te em nome da ciência.
»

Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, “Jesus Cristo em Lisboa – tragicomédia em sete actos” (Assírio e Alvim, 2007)

Publicado por Sílvio Mendes

Literatura e Ciência (7): “Confissão”, de Bulhão Pato

«Fui na infância católico exaltado;
Tudo era para mim edificante,
Ver o altar, ver o trono cintilante,
Ouvir na igreja a voz do órgão sagrado!

Foi-se apagando o amor arrebatado,
E a ciência levou-me num instante,
Com o sopro glacial e penetrante,
O edifício de luz do meu passado!

Deitei-me aos pés dos grandes missionários,
Na eloquência e na fé extraordinários;
Nenhum deles me deu sombras d’esp’rança!

Ó crenças infantis, talvez agora,
Volteis a mim, ardentes como outrora:
Diz-se que um velho torna a ser criança!… »

Bulhão Pato — Bilbau, Espanha, 1829-1912

Publicado por Pedro Falcão