Aquivos por Autor: bealloret

Diálogo intercultural entre investigadores e profissionais

covermed[1]Recentemente realizou-se no ISCTE o Colóquio intitulado “Diálogo Intercultural: Barreiras e Oportunidades”.  Este evento permitiu apresentar diferentes perspectivas e formas de agir perante as diferenças culturais (a dos investigadores e a dos profissionais) é bem verdade.  Mas não é menos verdade que foram as disparidades entre o meio científico e o profissional-aplicado, uma das diferenças mais evidentes. Entendendo cultura como um conjunto de costumes, instituições e obras,  as diferenças entre a comunidade científica e os profissionais revelaram-se em si mesmas diferenças interculturais.  Os investigadores apresentaram os seus estudos e algumas reflexões acerca das suas implicações,  como é seu costume. Os profissionais descreveram a forma como trabalham em contextos de interculturalidade, focando o modo como são resolvidos os problemas que dela derivam; falaram em nome das suas instituições. Pois bem, nem uns nem outros se propuseram a utilizar o diálogo para averiguar de que forma a investigação científica poderia servir os profissionais presentes no evento ou os profissionais poderiam aplicar a investigação científica ali apresentada.

Nas mesas temáticas produziram-se informações sobejamente ricas e interessantes, que no entanto pecaram precisamente pela falta de diálogo intercultural! Os membros das mesas não perderam tempo a encontrar pontos de contacto entre os conteúdos que apresentavam, em criar pontes entre os resultados que os cientistas descreviam e as dificuldades que os profissionais denunciavam. O distanciamento entre os códigos e critérios do mundo da ciência e do da intervenção constitui um obstáculo muitas vezes difícil de transpor. Nesta ocasião, como em tantas outras, chegaram a dar-se choques entre o pensamento fundamental de alguns investigadores e as ideias ancoradas na prática dos profissionais. Aconteceu à volta da temática escola-educação. Os pressupostos teóricos da integração comprometiam os investigadores com a defesa de turmas interculturais e a rejeição da segregação dos alunos de acordo com a sua cultura de origem.  Contrariamente, as pessoas que desenvolviam actividades dentro das escola, descreviam o importante papel das turmas exclusivamente formadas por crianças estrangeiras/imigrantes na aprendizagem da língua portuguesa com posteriores beneficios para integração destas crianças.

Publicado por Beatriz Lloret

Aventuras e desventuras de um psicólogo experimental

Por si só o título pode ser revelador para alguns: a psicologia pode ser experimental! Mais do que isso, muitos psicólogos desenvolvem as suas experiências exclusivamente em laboratório. Acontece que, tal como um biólogo testa a resistência de bactérias a determinadas substâncias fazendo ensaios em laboratório e medindo as suas reacções, o psicólogo pode testar a forma como as pessoas se relacionam com indivíduos de outras etnias analisando as suas respostas a estímulos criados em laboratório. As actividades destes dois cientistas são em tudo semelhantes, ambos vão para o laboratório estudar as características de uma entidade viva expondo-a a diferentes elementos, substâncias químicas no caso do biólogo, estímulos sociais no caso do psicólogo.

Há no entanto um aspecto fundamental que coloca os psicólogos em maus lençóis por comparação aos biólogos: as bactérias não têm vontade própria, não lhes é dada a capacidade de decidir se querem ou não ser expostas a essas substâncias que são potencialmente letais (caso assim fosse provavelmente nunca aceitariam), pelo contrário às pessoas sim. Dificilmente um psicólogo realiza uma experiência sem o consentimento expresso dos seus participantes, muito menos os coloca em qualquer tipo de perigo. As pessoas têm que ir realizar a experiência pelo seu próprio pé. Muitas vezes isto torna o trabalho experimental de um psicólogo uma autêntica aventura, uma corrida de obstáculos em que sucessivamente se vão ultrapassando diversas dificuldades para reunir o número de participantes necessário para alcançar um determinado grau de certeza nas conclusões retiradas. Para reunir digamos uns 100 casos, é preciso servir-se das mais variadas estratégias para atrair potenciais participantes. Apela-se por exemplo à bondade natural do ser humano, ou ao companheirismo entre universitários numa lógica de “amanhã serás tu a precisar”, quando o financiamento não permite aliciar as pessoas através de vales de desconto ou outros prémios.

Eis a desventura: na verdade nem o magnetismo dos pequenos vales chegam para resolver a situação, existe um desinteresse e um descrédito enorme entre as pessoas quando são chamadas a colaborar em estudos de psicologia. O que está então a acontecer? A Psicologia não é ainda vista como uma ciência séria que estuda fenómenos que podem ser do interesse geral da população? A julgar pela elevada taxa de abstenção que atravessa os actos eleitorais em Portugal, o problema não está apenas na Psicologia, talvez as pessoas não gostem mesmo de responder a perguntas, sejam lá da natureza que forem…

Publicado por Beatriz Lloret