Ciência e Literatura (13): a memória de Luis Buñuel

Em “O Meu Último Suspiro”, livro semibiográfico, Luis Buñuel viaja pelas memórias de uma vida recheada de episódios, encontros e desencontros: Llorca, Breton, Dali, Hollywood, a sua infância em Espanha, o amor, os sonhos e o surrealismo, entre outros.

Relevante e curioso é o facto de Buñuel dedicar um capítulo para falar da memória, e da sua fiabilidade ou falsidade.

Tendo em conta o constante recurso à imaginação e ao devaneio nas suas criações artísticas, poder-se-ía pensar que este seria para Buñuel um terreno pantanoso, e por isso, a evitar.
Mas logo de ínicio, antes de começar a evocar o passado, Buñuel adverte o leitor para a possibilidade de haverem falsas recordações evocadas nas páginas seguintes:

” (…) Uma vida sem memória não seria vida. (…) A nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, a nossa acção, o nosso sentimento. Sem ela, não somos nada.
(…) Indispensável e omnipotente, a memória é também frágil e ameaçada. Ameaçada não só pelo esquecimento, o seu velho inimigo, mas também pelas falsas recordações que a invadem dia após dia. Um exemplo: durante muito tempo contei aos meus amigos o casamento de Paul Nizan. Via perfeitamente a igreja de Saint-Germain-de-Prés, a assistência de que eu fazia parte, o altar, o padre, Jean-Paul Sartre enquanto testemunha do noivo. Um dia, pensei bruscamente: mas é impossível! Nunca o Paul Nizan, marxista convicto e a mulher, que pertencia a uma família de agnósticos, casariam pela Igreja! Era absolutamente impensável! Teria então transformado uma recordação? Tratar-se-ía de uma recordação inventada? De uma confusão? Ainda hoje não sei.
A memória é constantemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, a assim como existe a tentação de acreditar na realidade do imaginário, acabamos por fazer da nossa mentira uma verdade. O que é, aliás, de uma importância relativa, já que uma e outra são igualmente vividas e pessoais.
(…) Sou composto pelos meus erros e dúvidas, a par das minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a quaisquer apontamentos ou a qualquer livro. O retrato que aqui proponho será sempre o meu, com as minhas afirmações, hesitações, repetições a lacunas, com as minhas verdades e as minhas mentiras, numa palavra: a minha memória.”

Publicado por Pedro Falcão
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One response to “Ciência e Literatura (13): a memória de Luis Buñuel

  1. As memórias são geralmente marcas acontecimentos relevantes para o ser. Novas interpretações, leituras podem ser feitas. Isso é o que nos salva.

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