O excerto que hoje reproduzimos até traz consigo um dos grandes clichés da ciência, quando colocada em oposição rígida absoluta com a religião, mas seria grave deixar em claro neste blogue a referência escrita a duas mãos neste magnífico texto dramatúrgico do início do século XX.
É a reacção de um coro de descontentes após Jesus – que decidira espalhar o seu apelo à humildade e à pobreza em nova visita à humanidade, em Lisboa, no começo do século passado – ter sido novamente crucificado.
«VOZES
Negámos-te como Deus, porque não podemos viver contigo.OUTRAS VOZES
Obrigaste-nos a olhar para cima, quando tudo nos força a olhar para baixo.UMA MULHER
Neguei-te, porque deixaste morrer nos meus braços uma filha de três anos. Se tu ouvisses os gritos que ela dava! Qual foi o seu pecado para um castigo tão horrível? Responde-me tu que és Deus! Como é que tu permites que uma criança inocente morra nos braços de sua mãe?UM RAPAZ
Porque levantaste as ondas do mar, contra o barco que tripulava meu pai? Fiquei na orfandade com cinco irmãos ainda pequenos!OUTRO HOMEM
Tu que és Deus, responde porque é que eu só posso viver matando? Porque é que viver é matar?JUDEU
Neguei-te, porque quiseste destruir a riqueza do mundo.UM SÁBIO
Nego-te em nome da ciência.»Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, “Jesus Cristo em Lisboa – tragicomédia em sete actos” (Assírio e Alvim, 2007)

