A exposição temporária “O Laboratório invisível” abre hoje (18 de Julho) portas, às 19h, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, e pode ser visitado até 18 de Outubro.
Para visita estão disponíveis as últimas obras criadas no âmbito do projecto BLINDSPOT, iniciado em 2004 por Herwing Turk em co-autoria com Paulo Pereira, que impõe objectos e dispositivos artísticos que procuram «problematizar o valor simbólico da percepção enquanto parte integrante e contaminante dos processos de construção do conhecimento científico».
Isolar e destacar aspectos geralmente invisíveis e periféricos mas que são parte integrante do processo de produção científica são os esteios da estratégia escolhida. BLINDSPOT pretende, portanto, dar um protagonismo “dramatúrgico” às contingências, aos determinismos e às circunstâncias que influenciam a formação e construção de uma observação/representação, explorando, em termos artísticos, os fundamentos epistemológicos da ciência incluindo o princípio da falseabilidade (Popper), da incerteza (Heisenberg) ou da incompletude (Gödel).
Propõe ainda uma reflexão sobre a representação social do conhecimento científico e do imaginário que a ciência veicula, debruçando-se sobre as implicações ideológicas, conceptuais e filosóficas de noções como a verdade ou a objectividade, muitas vezes associadas à prática científica.
Por promover uma articulação integrada e construtiva entre Arte e Ciência enquanto actividades que partilham métodos, procedimentos e uma determinação em encontrar novas formas de representação da realidade, a exposição assume um rótulo incontornável: visita obrigatória a todos os que passarem pelas margens do Mondego.
Está em curso a preparação da segunda Mostra de Ciência e Cinema, a ter lugar na Galiza (Corunha), entre os dias 16 e 31 de Outubro de 2009, e organizada pela Asociación de Amigos de la Casa de las Ciencias (Corunha).
A instituição galega pretende ampliar a presença de filmes e documentários portugueses neste projecto de divulgação científica e está a aceitar candidaturas até 31 de Julho (prazo formal que se alargará até ao fecho da programação definitiva, situação se deverá registar no início do mês de Setembro).
«Não queremos viver de costas viradas ao que acontece num país – Portugal – que sentimos como próprio. Gostaríamos imenso de ter na nossa Mostra uma crescente presença de filmes e documentários de produção portuguesa (não necessariamente didáticos, uma vez que a mostra está aberta a propostas de carácter experimental)», explica Óscar Sánchez, num e-mail enviado à Viver a Ciência.
Mostra de Cinema e Ciência 2009
A Mostra, criada em 2008, assume-se como um certame competitivo de filmes e documentários relacionados com a ciência, sem nenhuma limitação no que diz respeito às características técnicas, à duração, etc. As portas estão abertas tanto para trabalhos comerciais como para filmes produzidos por amadores e/ou aficcionados.
Quer ser uma referência internacional no âmbito do documentalismo científico e aspira tornar-se numa grande montra onde se exibam anualmente os melhores documentários de divulgação científica.
Os trabalhos a apresentar deverão ter uma intenção divulgativa e tratar sobre qualquer tema relacionado com as ciências (puras ou formais, aplicadas e sociais ou humanas, na divisão tradicional), de maneira a contribuírem para a compreensão de conceitos, procedimentos e atitudes que caracterizam a ciência.
A qualidade e originalidade das obras apresentadas serão especialmente valorizadas, à margem da temática, duração e características técnicas. A segunda edição da Mostra aceita filmes cuja data de produção ou de estreia seja posterior a 1 de Janeiro de 2008.
É já amanhã, dia 14 de Julho, às 19h, que é apresentado, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o livro “Vidas a Descobrir – Mulheres Cientistas do Mundo Lusófono”. Todos os leitores ficam convidados a assistir ao evento e a marcar presença num dos momentos mais importantes do ano para a Associação Viver a Ciência. Confirmadas estão as presenças e intervenções de João Caraça, Joana Barros e Nuno Crato. Mas o evento é de partilha: todos os presentes podem participar, partilhar e questionar.
Para abrir o apetite, aqui fica uma selecção de reportagens entretanto publicadas nos media.
Da relação do mundo do jornalismo desportivo com as metáforas científicas já se falou neste blogue. A premissa era simples: o website d’A Bola também apresenta notícias sobre ciência, de há uns dias para cá.
A novidade gerou uma reacção curiosa no Facebook e atingiu o seu auge com a publicação de um artigo humorístico, da autoria de David Marçal, no Inimigo Público.
Agora, porque “isto anda tudo ligado” ou talvez por pura coincidência, é a vez de um jornal generalista de referência – o Público – mostrar os seus créditos na nova corrente literária nacional: o jornalismo-que-vai-à-bola-com-ciência. Aqui fica o recorte.
«Para cada acção existe uma reacção de intensidade igual em sentido contrário. Sir Isaac Newton pensava em corpos e objectos quando, há três séculos, formulou este princípio fundamental da Física. Mas o pingue-pongue entre Rui Costa e Pinto da Costa, sobre quem tira jogadores a quem, demonstra que a terceira lei de Newton também assenta como uma luva ao futebol.» (Ler texto completo)
Aí está. Texto assinado por Victor Ferreira, que bem conheço e muito respeito, publicado na edição de 10 de Julho do Público (pag. 36).
O livro “Graças e Desgraças da Corte de E-Rei Tadinho – Monarca Iluminado do Reino das Cem Janelas” é uma deliciosa explosão de fantasia que, a ter que ocupar uma prateleira, merece honras de lugar cativo bem próximo do genial “Aventuras de João Sem Medo”, de José Gomes Ferreira.
Adiante, no Reino das Cem Janelas, liderado por El-Rei Tadinho, Alice Vieira não se esquece de também adicionar ciência (através da figura de um físico) à barafunda que habita transversalmente o imaginário do livro. Aqui fica o registo:
«Diziam os grandes livros de leis do Reino das Cem Janelas que a crise, quando nascia, era para todos. Ou seja: se faltava comida na mesa do ferreiro, também faltava na mesa do juiz; se entrava água em casa do pedreiro, também entrava em casa do físico da corte.»
«Ao fim de meia hora de guinadas, a cabeça já lhe doía tanto que el-rei não teve outro remédio senão chamar o físico da corte, coisa que ele geralmente só fazia em casos desesperados.
(…)
- Então esse físico quando é que vem?
- Estou aqui, majestade, estou aqui – ouviu-se a voz do físico.
- Já não era sem tempo! Julgas que sou doente da caixa para esperar por ti este tempo todo?
O físico examinou el-rei com todo o cuidado. E depois perguntou:
- Haveis tomado o chá de mandrágora como vos receitei?
O rei disse que sim.
- Haveis dado todas as noites três voltas a pé-coxinho à sala do trono, como vos prescrevi?
O rei disse que sim.
- Haveis dormido de janela aberta como vos recomendei?
O rei disse que sim.
(…)
- Tendes pago a horas, ao dragão, a vossa conta de electricidade?
O rei voltou a dizer que sim.
Então o físico suspirou e acabou por declarar:
- Então não sei que vos faça, majestade. Deveis ter doença rara que ainda não aprendi a curar. De qualquer modo vou consultar os meus livros e pode ser que por lá encontre a cura do vosso mal.
- Vai, vai, que bem precisas de estudar um bocado – disse el-rei, que nunca tinha confiado muito na ciência do seu físico.»
Alice Vieira, in “Graças e Desgraças da Corte de E-Rei Tadinho – Monarca Iluminado do Reino das Cem Janelas”
No website do Ciência Hoje está congelado (com comentários “úteis” publicados entre 2005 e 2007) um Fórum de discussão acerca do estado da ciência em Portugal. Chamo particular atenção para a intensa troca de opinião sobre a ‘fuga de cérebros’.
Não se pode dizer que o registo de ideias seja tão incontornável como acontece nos romances de Eça de Queiroz – «Pois eu, assim que possa, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro…» – mas a verdade é que esse conjunto de comentários e queixas teima em não caducar e parece caminhar também a passos largos para se juntar a Os Maias como documento intemporal.
A confirmar essa ideia continua este texto (“Cientistas em Saldos”) publicado por David Marçal, em Outubro passado, no Público.
Aqui ficam algumas das ideias e desabafos semeados no referido Fórum:
«Cara Ana, não volte! Não destrua a sua vida. Volte e Portugal de férias, ou em trabalho temporário, ou em sabática, ou para vir a casamentos, mas jamais para fazer ciência. Fuja!»
«Acabei de receber este link por email de uma amiga em Portugal e estou aqui como uma esponja a tentar reter tanta informação nova sobre o presente panorama da ciência em Portugal de onde saí há quase 20 anos. Fui fazer o meu PhD no estrangeiro e não voltei. Para grande aborrecimento das instituições financiadoras de bolsas em Portugal, grande parte dos portugueses que saem, nunca mais voltam.»
«Não acho que haja razão para não explorar a possibilidade de fazer ciência em Portugal. O camhino também se faz caminhando.»
«Eu estou a acabar um doutoramento misto entre Portugal e França (Grenoble). No entanto logo que acabe não conto procurar continuar a minha carreira em Portugal. Os últimos anos tem sido dificeis e não se espera melhores ventos para breve. Em Portugal um jovem cientista não é valorizado e tem condições de trabalho fracas para as qualificações que tem e para o que se deveria esperar que contribuisse.»
Para ler respostas, contra-respostas, a endogamia e outros temas, o caminho faz-se por aqui.