Uma citação da obra do escritor que viveu grande parte da sua vida nos Estados Unidos, onde viria a morrer em 1980, e que foi eleito académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (Janeiro de 1976), inaugura esta nova rubrica. Objectivo: Simples. Partilhar testemunhos literários que façam referência à ciência e/ou exponham de algum modo, sempre com o seu estilo literário assumido, o pensamento científico. A consciência da sua evolução, através de uma literatura que lhe foi e é paralela, torna a relação com a ciência mais rica. Se concordam, juntem-se, funcionamos 24 horas por dia em regime de liberdade.
“O Dr. Palma era um rapaz (como ele dizia) de sessenta anos. Considerado o melhor e o mais estudioso dos clínicos da região, vinham consultá-lo ou chamavam-no os ricos de todo o distrito de Beja. Punha os novatos à prova, e saía sempre vencedor porque estava ao corrente de todas as novidades pela leitura de revistas médicas. Ele aproveitava o ensejo de uma gripe ou trabuzana intestinal para injectar aos pacientes algumas noções de política: «Que remédio têm eles senão ouvir-me! Dou-lhes aspirina e bicarbonato, um clister ou uma injecção de água destilada, e de caminho casco-lhes. Eles vingam-se de mim chamando o padre, e depois dizem que foi um milagre que os curou das hemorróidas ou da caganeira!»”.
José Rodrigues Miguéis, in “o pão não cai do céu”
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